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Viseu

Ao Centro

"Big Brother" chega às matas e serras da região

por Redação

07 de Fevereiro de 2020, 09:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CIMs de Viseu e Coimbra juntam-se para implementar projeto de videovigilância florestal

CLIPS ÁUDIO

São ao todo 37 as câmaras de videovigilância de fogos rurais que vão ser instaladas em 28 concelhos dos distritos de Viseu, Coimbra e Guarda. O Sistema Integrado de Videovigilância para a Prevenção de Incêndios Florestais resulta de uma iniciativa conjunta das Comunidades Intermunicipais Viseu Dão Lafões e Região de Coimbra. O projeto surge na sequência de um aviso-convite lançado no verão de 2018 pelo Ministério da Administração Interna (MAI), abrangendo não só a região, como outras quatro zonas do país.

No total, esta rede de câmaras envolve um investimento de 3,8 milhões de euros, financiado a 75 por cento pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos (POSEUR). “Por ser o mesmo território e numa lógica de ganhos de escala, achámos que fazia todo o sentido haver uma candidatura conjunta das comunidades intermunicipais de Viseu e Coimbra”, explica Nuno Martinho, secretário-executivo da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões (CIMVDL).

Depois de aprovada a candidatura, o passo seguinte passou pela realização de estudos com vista à instalação deste sistema. Com a ajuda do Instituto Superior Técnico, e com equipas das duas CIM, “foram definidos os locais para a instalação do sistema de videovigilância”. Os técnicos visitaram e estudaram 80 locais para receberem as câmaras, sendo que depois da pesquisa feita a opção recaiu por 37 sítios, 17 na região de Viseu e os restantes 20 já em Coimbra. No caso do distrito viseense, o sistema de videovigilância será colocado em 12 dos 14 concelhos que integram a CIMVDL, ficando sem qualquer câmara os municípios de Vila Nova de Paiva e Santa Comba Dão.

Na escolha da localização, um dos primeiros passos consistiu na eliminação de todos os locais inviáveis, tendo sido excluídas zonas de elevado valor patrimonial ou natural e onde não é permitida a instalação de torres ou equipamentos. Foram também colocados de lado locais inacessíveis e privados, uma vez que seria necessário a autorização de instalação por parte dos proprietários.

“As torres vão estar dispersas pelo território. Há torres que vão ser instaladas em concelhos que pertencem à CIM da Região de Coimbra e que também fazem a cobertura do nosso território, como o inverso acontece. Vamos ficar com uma taxa de cobertura do território de aproximadamente 85 por cento”, salienta Nuno Martinho, acrescentando que haverá sempre zonas sombra porque “nunca é possível cobrir o território a 100 por cento”. “Mas estamos muito satisfeitos com a taxa de cobertura que vamos conseguir”, confessa.

“Não podemos adiantar que já esteja em funcionamento em 2021”

Agora que os locais que vão receber as câmaras estão definidos, o passo seguinte prende-se com o lançamento do concurso público internacional, o que deve acontecer ainda este mês ou no máximo no início de março. “O procedimento concursal vai ser lançado pelas duas comunidades intermunicipais na modalidade de agrupamento de entidades adjudicantes para haver aqui ganhos de escala”, explica Nuno Martinho.

De acordo com o secretário executivo da CIMVDL, este verão ainda não vai haver videovigilância das matas da região e em 2021 também “será bastante difícil”, ainda que as duas comunidades estejam a fazer “todos os esforços” possíveis nesse sentido. “Será um pouco difícil por causa do prazo para a instalação e para a fase de testes da implementação. Além disso, isto são procedimentos públicos internacionais, tem que ir a visto do Tribunal de Contas e há sempre um processo administrativo um bocado demorado por isso é que não podemos adiantar com toda a certeza que já esteja em funcionamento no ano de 2021”, evidencia.

Ganhos

Para as comunidades intermunicipais, mas também para os municípios, proteção civil e forças de segurança, este projeto afigura-se como uma mais-valia. De resto, o sistema foi desenhado em articulação com as entidades que têm uma palavra a dizer na defesa da floresta contra incêndios.

A visualização das imagens captadas pelas câmaras de videovigilância florestal será assegurada pelos comandos distritais da GNR e da Proteção Civil, através dos comandos distritais de operações e socorro (CDOS).

O comandante operacional distrital de Viseu, Miguel Ângelo David, sublinha que esta é uma nova ferramenta que vai estar ao dispor das autoridades e que é complementar à atual rede de postos de vigia da GNR, que funciona apenas seis meses por ano (de maio a novembro). “Nos sabemos que neste momento não há posto de vigia a trabalhar e em meses de calor fora de época não tínhamos uma forma de deteção e com este sistema que estará a funcionar 24 horas por dia será possível ter uma cobertura do território”, argumenta.

Para além dos ganhos em matéria de vigilância e prevenção, Miguel Ângelo David destaca “a mais-valia importantíssima” que as câmaras vão proporcionar à decisão operacional, na medida em que vão permitir à proteção civil “ganhar novos olhos” e chegar mais depressa a locais que ficam distantes ou que são de difícil acesso. “Com imagem em tempo real podem ser logo avaliadas as condições de desenvolvimento do incêndio, as zonas onde este decorre, a existência de pontos sensíveis e no CDOS essas informações e imagens podem ser determinantes no despacho de meios e no apoio de outras medidas”, vinca.

Big Brother

As câmaras têm um alcance máximo de 20 quilómetros em condições de boa visibilidade, sendo que podem detetar a altura das colunas de fumo com 10 metros. Nas câmaras do espectro infravermelho o alcance máximo para deteção de focos nascentes é de apenas oito quilómetros.

As lentes vão permitir ver muita coisa. Nuno Martinho conta que numa visita efetuada a um sistema já implementado no nosso país foi possível “ver até uma matrícula de um carro” que estava a bastantes quilómetros da câmara. Esta ferramenta representa um ganho na prevenção e até na hora de apanhar alegados incendiários, mas também levanta questões relacionadas com a proteção de dados. O secretário executivo da CIMVDL garante que esse problema não se coloca, uma vez que esse dossiê “está previsto no caderno de encargos. “É uma questão que tem de ser sempre respeitada e acautelada”, conclui.

Vigilância já funciona no resto do país

O sistema de videovigilância das florestas já existe em alguns pontos do país. O projeto CICLOPE cobre 1.300.000 hectares de território, nos distritos de Bragança, Castelo Branco, Guarda, Leiria, Lisboa e Santarém. A rede de câmaras de vigilância foi desenvolvida por uma equipa de investigadores da empresa INOV.

Tal como vai acontecer com o sistema de Viseu e Coimbra, o CICLOPE prevê que tanto os Comandos Distritais de Operações de Socorro como as forças de segurança tenham acesso às imagens das torres, o que se traduz num controlo de possíveis focos de incêndio. Desta forma, como as imagens circulam pelas forças de segurança, é possível agir mais rapidamente, sublinhava o Ministério da Administração Interna há dois anos quando o assunto passou a estar na ordem do dia. A tutela assegurava que o sistema é eficaz porque começa “na dissuasão de comportamentos de risco, deteção de ignições e acompanhamento da evolução dos incêndios” e, de seguida, pode auxiliar na tomada de decisões operacionais.

Em Leiria, o projeto foi implementado em 2005 com duas câmaras e foi aumentando progressivamente ao longo dos anos. No caso do distrito de Santarém, o sistema entrou em vigor em 2007 e conta atualmente com 16 câmaras de vigia.

Madeira inova

Ao contrário do CICLOPE que consiste na instalação de uma câmara que filma e depois essa imagem é analisada por uma pessoa que posteriormente a interpreta, no arquipélago da Madeira este trabalho é feito por robots. Estes aparelhos têm duas câmaras, uma ótica com um alcance de 10 quilómetros e outra que deteta o calor (algo fundamental em matéria de incêndios florestais) com um raio de ação de cinco quilómetros.

Depois de detetado um foco de incêndio, os bombeiros são avisados e orientados, sem a necessidade de olho humano. Na fase de alerta, há a identificação das coordenadas e é enviado um alerta para o Serviço Regional de Proteção Civil da Madeira, no Funchal. Nessa fase há um técnico que examina as informações dadas pelos robots e valida-a. Caso seja efetivamente um fogo, os meios de combate agem.

Este projeto começou a ser implementado no início do ano passado, com uma câmara na zona do Paredão, nas serras de Santo António, no Funchal. Até março está prevista a instalação de outras seis, desta vez na vertente sul da ilha, que é mais vulnerável à propagação das chamas.

Com a videovigilância há algo em que todos estão de acordo: quanto mais cedo se detetar um fogo e se agir no combate, menos ele progride e atinge proporções difíceis de controlar.

Locais onde vão ser instaladas as câmaras de vigilância florestal

CIM Viseu Dão Lafões

  • Cabeço da Neve – Tondela
  • Depósito de N. Sra. das Febres – Carregal do Sal
  • Pedra Cavaleiro – Nelas
  • Vila Garcia – Mangualde
  • Senhora do Castelo – Mangualde
  • Senhora de Pés – Penalva do Castelo
  • Pico Gladiz – Aguiar da Beira
  • Fontainhas – Sátão
  • Faifa – Castro Daire
  • Picão – Castro Daire
  • Serra de S. Macário – S. Pedro do Sul
  • Gravia – S. Pedro do Sul
  • Monte de Santa Luzia – Viseu
  • P. E. São Marcos – Viseu
  • P. V. das Cruzes – Oliveira de Frades
  • Campia – Vouzela
  • Adsamo – Vouzela

CIM Região de Coimbra

  • Pinheiro – Mortágua
  • Aveleira – Penacova
  • Cruz Alta – Penacova
  • Serra do Videiro - Poiares
  • Senhora do Círculo – Condeixa
  • Capela Sá do Monte – Penela
  • Caniçosas – Figueira da Foz
  • Depósito de Mira – Mira
  • Depósito do Murete – Cantanhede
  • Depósito da Abrunheira - Montemor-o-Velho
  • Cavalinho - Montemor-o-Velho
  • Trevim – Lousã
  • Cabeço do Monte Redondo – Arganil
  • Colcurinho – Oliveira do Hospital
  • Chães – Miranda do Corvo
  • Mestras – Góis
  • Alto do Vieiro – Góis
  • Balocas – Tábua
  • Cabeço da Urra – Pampilhosa da Serra
  • Fajão - Pampilhosa da Serra