20 Fev
Viseu

Ao Centro

Casos de cancro estão a aumentar, mas as taxas de sobrevivência também

por Redação

30 de Janeiro de 2020, 11:18

Foto Arquivo Jornal do Centro

Em Viseu, o panorama da oncologia assemelha-se muito ao resto do país

TÓPICOS

Edição impressa

cancro

saúde

CLIPS ÁUDIO

Os tumores malignos com maior prevalência e taxa de crescimento na região de Viseu foram os da mama feminina, da próstata e do cólon/reto. De acordo com os dados do Observatório Regional de Saúde, os tumores malignos são, também, das primeiras causas de morte prematura. O cancro gástrico tem igualmente uma relevância significativa.

Este aumento resulta, em primeiro lugar, do envelhecimento da população e, depois, fruto também do aumento da taxa de sucesso no tratamento tanto do cancro como de outras patologias que aumenta a probabilidade do aparecimento de novas neoplasias. Aliados a estes factos, estão também presentes as modificações dos estilos de vida.

Estima-se que o número de casos de cancro e mortes relacionadas a nível mundial venha a duplicar nos próximos 20 a 40 anos, especialmente nos países em desenvolvimento. Mas, os profissionais de saúde afastam o cenário de surto ou epidemia. As causas aumentam, mas as taxas de sobrevivência e de sucesso também aumentam.

Por isso, a melhor forma de combater as doenças oncológicas está na prevenção e na diminução dos fatores de risco. O Dia Mundial de Luta Contra o Cancro assinala-se esta terça-feira (4 de fevereiro) e desmistificar algumas das ideias pré-concebidas sobre o cancro e informar sobre os fatos reais da doença estão na base desta efeméride que tem como lema “agir”.

Os dados podem não ser animadores, mas “é preciso acabar com o dogma de que o cancro é um papão”. “Não é caso para se ficar assustado. É sim preciso fazer-se a vigilância e os rastreios. A prevenção, e a começar cedo, é essencial”, avisa Maria Amélia Monteiro, médica que desde 1978 trabalha na área do oncologia. Começou no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, no serviço de hematologia oncológica e em Viseu está no ativo desde 1991.

Com mais de 50 anos de carreira, a médica não se cansa de dizer que “tudo está na prevenção”, nomeadamente através da adoção de estilos de vida saudáveis. “O rastreio e o diagnóstico precoce são importantes”, lembra, uma vez que se for detetada numa fase inicial, a doença tem 95 por cento de hipóteses de bom prognóstico.

Uma campanha para impactar

A Liga Portuguesa Contra o Cancro lançou já em 2019 uma campanha de três anos (termina em 2021) sob o mote “Eu Sou e eu Vou”. “É uma campanha de esclarecimento feita com mensagens diretas do que se pode fazer em termos de prevenção”, começa por explicar Vitor Rodrigues, presidente da Liga na Região Centro.

“Acreditamos que muitas destas mortes seriam evitáveis com maior apoio governamental e financiamento para programas de deteção precoce, prevenção e tratamento”, acrescenta, frisando que se ao nível de rastreios do cancro da mama, por exemplo, o plano é eficaz, já do colon/retal é “muito incipiente”. “O Governo tem de ter um papel, juntamente com a sociedade, no planeamento, na estratégia e na sustentabilidade dos programas de tratamento”, reforça.

Para Vitor Rodrigues, é preciso, ainda, “em termos de tratamentos, de melhorar a acessibilidade, seja ela geográfica seja em termos de qualidade”.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), 25 por cento da população portuguesa em Portugal corre o risco de ter cancro até aos 75 anos e 10 por cento dos casos são, inevitavelmente, fatais.

A incidência tem aumentado a um ritmo de 3 por cento por ano com um registo de 50 000 novos casos de cancro em Portugal em 2018.

De acordo com a American Cancer Society, continuarão a surgir novos casos, mas há boas notícias: a probabilidade de cura é tendencialmente maior, principalmente com uma deteção precoce e uma atuação rápida.

Urgência na criação do centro oncológico

“Há todos os anos mais de mil doentes. É imperiosa a existência de um novo espaço físico autónomo para oncologia com a instalação da radioterapia”. A frase faz parte de uma das muitas moções que foram aprovadas na Assembleia Municipal de Viseu pela criação de um centro oncológico. Um pedido que já vem desde 2002 e que ainda não viu “luz ao fundo do túnel” depois de vários anúncios e recuos e da colocação de um placa, em 2017, a anunciar que o centro iria er construído e pronto a funcionar em 2019.

A reivindicação pelo centro oncológico continua e levou algumas centenas de pessoas à rua no último fim de semana. Uma concentração que aconteceu no Rossio, em Viseu, por obras rápidas no serviço de urgência, mas também pelo cumprimento da promessa do Governo com a área da oncologia.

O presidente da Liga de Amigos e Voluntariado do Centro Hospitalar Tondela Viseu (entidade que convocou o protesto), Fernando Bexiga, lembrou que das promessas já “só há uma placa, já gasta”, que foi colocada em 2017. “O atual hospital de dia oncológico não merece este nome, porque, infelizmente, o sofrimento a que assistimos naqueles corredores é indigno”, descreveu.

Contou que, além dos doentes que fazem os tratamentos no hospital de dia oncológico de Viseu “metidos em corredores, sentados em cadeiras, quando as há”, outros têm de se deslocar para Coimbra ou Vila Real, apesar da sua situação de fragilidade. “É fundamental que haja dinheiro e um projeto para se poder construir o centro oncológico, porque cada vez temos mais gente, infelizmente, com problemas oncológicos e muito menos capacidade de os atender”, alertou.

O Governo responde, afirmando que ainda não tem o projeto que, entretanto, foi reformulado de um ante-projeto que tinha sido apresentado. Mas, para quem todos os dias tem de viver com a doença e com os tratamentos “as desculpas não chegam”.

M. Soares é doente oncológica. Todas as semanas precisa de fazer tratamentos de quimioterapia. “Não fosse a simpatia dos profissionais e o cuidado que eles têm, estaríamos naquilo que considero ser um inferno”, contou a doente. O mais complicado, descreveu, “são as horas que temos de estar numa sala onde há doentes que não tendo lugar estão encostados à parede ou sentados à vez. São duas salas com cadeiras sem espaço, uma casa de banho no meio sem privacidade e muitos de nós optam por ficar no corredor sem condições nenhumas”, lamentou. “Eu sou de Viseu, mas há pessoas que chegam de longe, Seia ou Moimenta da Beira, estão ali mais de oito horas, sozinhas, porque se não há lugar para os doentes, muito menos para os acompanhantes”, sustentou ainda.

As ofertas nos privados

Na CUF, em Viseu, existe o serviço de hemato-oncologia, especialidade médica que diagnostica, trata e vigia todo o tipo de tumores malignos. É uma especialidade hospitalar que se cruza com quase todas as especialidades médicas e cirúrgicas e que vive em estreita relação com a Medicina Interna, a Radioterapia, a Imagiologia, o Laboratório e a Cirurgia Geral. “É constituída por uma equipa multidisciplinar”, reforça a direção.

O Serviço de Hemato-Oncologia é composto por profissionais das especialidades de Oncologia Médica e de Hematologia Clínica. “São estes os profissionais que diagnosticam, tratam e vigiam todo o tipo de tumores malignos e outras doenças do sangue, articulando-se de forma multidisciplinar com a Cirurgia Oncológica, a Radioterapia, a Medicina Nuclear, a Anatomia Patológica, a Imagiologia, entre outras especialidades”, acrescenta.

Fazem também parte desta equipa enfermeiros com experiência em oncologia, uma nutricionista, uma psicóloga e uma gestora oncológica para apoiar o doente em todos os seus problemas e necessidades. Este serviço conta com um Hospital de Dia para tratamentos farmacológicos. “Fazemos muita cirurgia oncológica”, salientou.

Em 2019, foram 113 o número de casos diagnosticados e 76 cirurgias oncológicas feitas. Doentes em tratamentofarmacológico são 51.

A Casa de Saúde São Mateus, de Viseu, conta com um centro oncológico, que representou um investimento global de 1,5 milhões de euros e que permitirá aos doentes um tratamento de proximidade.

O projeto resulta de uma parceria entre este hospital privado de Viseu e a Lenitudes, que atua sobretudo na área do diagnóstico e tratamento oncológico.

“Já temos ao nosso dispor um manancial de tratamentos bastante vasto, desde o estudo de diagnóstico, com vários exames imagiológicos e laboratoriais, até à cirurgia, passando pela braquiterapia, mas queremos crescer mais e precisávamos de mais alguns exames, daí que esta parceria tenha surgido de forma natural”, explicou, na altura, o diretor clínico da Casa de Saúde, Ricardo Patrão.

O novo centro integra consultas de oncologia, tratamentos de quimioterapia em hospital de dia e de radioncologia (o último a realizar na Lenitudes, em Santa Maria da Feira), consultas de grupo e de segunda opinião médica e de Medicina Nuclear.

O investimento de 1,5 milhões de euros engloba a requalificação no espaço já existente na Casa de Saúde, como o bloco operatório, a criação da zona de tratamentos e a aquisição de novas máquinas de ressonância, mamógrafos, Tomografia Axial Computorizada e raio-x digital.

Em Santa Maria da Feira, estão duas máquinas de radiologia, que custaram dois milhões de euros cada, que os doentes poderão usar em caso de necessidade.

Diagnóstico

O caminho para um diagnóstico de cancro inicia-se com a identificação de uma suspeita, que pode surgir na sequência de um exame médico de rotina (rastreios), na avaliação de sintomas (consulta médica) ou no decorrer de um procedimento médico invasivo (cirurgia).

Após uma suspeita, o médico assistente ou médico que está a realizar o procedimento (exame ou cirurgia) recolhe elementos adicionais sobre os tecidos e encaminha-os para análise médica de anatomia patológica ou patologia clínica.  Estes últimos exames, confirmam ou não a suspeita de diagnóstico cancerígena, e caracteriza-o em várias dimensões (natureza, tipo). Outros exames adicionais podem ser utilizados para caracterizar outras dimensões do caso (localização dos tecidos, tamanho, órgãos afetados, conduzindo a definição de um estadio) tais como TAC, Ressonância, PET, Cintigrafia.

Decisão terapêutica

Com base na informação de diagnóstico, médicos das especialidades envolvidas no diagnóstico e no possível tratamento (oncologistas, especialistas cirúrgicos, especialistas diagnóstico, especialistas radioncológicos, entre outros) debatem cada caso de forma a determinar a melhor abordagem ao tratamento daquele doente específico.

Esta decisão terapêutica determinará a proposta de tratamentos a seguir, sua ordem ou a sua combinação:

-tratamentos farmacológicos (quimioterapia, anticorpos, imunoterapia), com vista a “combater” as células doentes por via de medicamentos

-tratamento cirúrgicos, com vista à extração das células/ órgãos doentes do organismo

-tratamentos rádicos, com vista a “combater” as células doentes por radioterapias

Terapêutica

Em função da reunião multidisciplinar de decisão terapêutica, o paciente é encaminhado para dar início ao plano de tratamento que pode incluir várias fases e momentos temporais.