20 Fev
Viseu

Ao Centro

Feirantes e clientes reclamam obras de novo anunciadas

por Redação

17 de Janeiro de 2020, 15:32

Foto Arquivo Jornal do Centro

Feirantes querem uma feira sem água, com alcatrão e ruas largas

CLIPS ÁUDIO

As obras no recinto da feira semanal de Viseu estão dependentes dos fundos comunitários. O projeto está concluído, anunciou a autarquia, falta agora o dinheiro para avançar com uma intervenção há muito desejada pelos feirantes e por quem ali faz compras.

A falta de arruamentos largos, de pontos de energia, de locais fixos para o lixo e a água que se acumula, principalmente na zona perto do rio Pavia, são os problemas apontados por quem todas as terças-feiras ali monta a sua banca.

“A feira precisa de organização. À chuva já estamos habituados, agora isto para ficar bem era organizar a feira por setores. Para um lado o calçado, para o outro a roupa e por aí fora”, aconselha Joaquim Boino que tem a sua banca de plantas de viveiro entre uma tenda de calçado e outra de roupa ao molho.

Em janeiro, a feira semanal de Viseu, que já foi considerada uma das melhores do país, é sempre mais fraca. “Meteu-se o Natal e as despesas, está frio e o povo foge mais daqui”, explica João Ramos. Às 11h30 já está a arrumar a banca. Dobra camisolas, mete as calças num saco e vai despejando a estrutura que serve de suporte. “Eu já estou a arrumar, mas tenho que ficar aqui até que isto acabe porque não consigo sair daqui”, conta.

Para o feirante, que já está neste espaço há 40 anos, era essencial a abertura de “arruamentos largos, até para passar uma ambulância se for preciso” e, já agora, “um chão melhor alcatroado”. “Chego aqui às seis da manhã, tenho de andar a tirar os caixotes do lixo para montar a barraca. Nós pagamos o assento, que não é tão barato quanto isso, para termos condições”, reclama. De gorro na cabeça, até porque o frio de janeiro não é fácil para quem está parado, João Ramos aponta ainda o “lamaçal” que fica em dias de chuva.

E para quem está na linha junto ao Rio Pavia, a água impede, muitas vezes, o negócio. “Quando chove isto fica inundado de água, não dá para vir para a feira. Nem de galochas”, lamenta Carla Miguel. A feirante tem uma roulote de churros “encravada” entre bancadas de roupa. “Nem ponto de luz aqui tenho, uso um gerador para ter as coisas a funcionar”, desabafa, enquanto se vira para a vizinha e lhe pergunta há quantos anos é que as obras estão anunciadas. “Já falam nisto há dois anos, não é? Há mais? É aguardar para ver”, remata.

Lizete Santos gosta de ir à feira de Viseu e assim o faz há várias décadas, sempre que pode. Dá uma volta, encontra velhos amigos e faz uma ou outra compra, “nem sempre de necessidade”. “Olhe, não gosto nada quando chove, eles aqui, os feirantes, coitaditos ficam com os pés na água e frios. Deveria haver uma maneira de quem está aqui a vender ter um espaço mais digno, principalmente para os de mais idade”, descreve. A cliente deixa ainda outro reparo: “um asseiozito para o lixo também era necessário porque eu moro aqui perto e à terça-feira estou sempre atenta por causa dos sacos plásticos que com o vento passeiam pela rua e já se deram casos de pessoas tropeçarem”.

No recinto da feira, há mais de uma centena de feirantes e alguns espaços “em branco”. Entre as músicas “da moda” e alguns pregões, já não tantos como antigamente, o cheiro da chouriça e do presunto deixa adivinhar que há comida por perto. De um lado e do outro apenas bancas de roupa, mas no meio lá se consegue descobrir uma carrinha com enchidos de “deixar qualquer um com água na boca”.

José Moreira é o responsável da banca que teima levar à feira de Viseu. “Mas bem era, por exemplo, haver um pavilhão só para as comidas”, atira, contando que em outros mercados do país, que também faz, isso já existe. “Faço feira noutros sítios e não é nada disto, aqui é um crime a falta de condições. Para ter o computador a trabalhar tenho de o ligar ao carro”, conta. Ainda assim, esclarece, deixa um elogio. “A organização, de quem faz a feira acontecer, é muito boa”.

Feira esteve para ser mudada, mas acabou por ficar no mesmo sítio

O problema da falta de condições no recinto há muito que está inventariado e levou, até, o antigo presidente da Câmara, Fernando Ruas, a anunciar a saída da feira para outro espaço, na Radial de Santiago. “Mas enquanto as coisas andaram ali para cima e para baixo, os feirantes ficaram pendurados”, começa por lembrar Delfim Almeida, presidente da Associação de Feirantes das Beiras. A verdade é que não houve consenso mesmo entre os cerca de 400 negociantes e com a chegada do novo executivo, a mudança do local foi definitivamente anulada.

“O anúncio das obras é uma boa notícia. Há oito anos que os feirantes esperam por um espaço requalificado e com dignidade. Agora vamos ver”, realça.

A opinião de Delfim Almeida é igual à dos seus colegas. “Aquele espaço tem um problema básico que é o das águas pluviais. Quando chove aquilo inunda e depois o chão precisa de ser requalificado no sentido de não haver aquele pó de pedra”, salienta, ainda, o presidente da Associação que diz que a feira de Viseu continua a ser das melhores da região Centro e tem “uma enorme importância para a economia local”.

As novas obras

E para requalificar todo o recinto, a Câmara de Viseu conta ali investir mais de 1,2 milhões de euros e o projeto prevê também melhorar o local que, nos restantes dias, serve de parque de estacionamento. Almeida Henriques, presidente da autarquia, adiantou que o projeto “já está pronto” e que está à espera da abertura de um concurso de atribuição de fundos para submeter candidatura.

Segundo o responsável, a reabilitação promete “melhorar as condições” da zona “em termos globais” quer para os feirantes, quer depois para estacionamento. “Manterá a sua componente de espaço para utilização da feira semanal, mas passará a ser também um parque de estacionamento ordenado onde as pessoas têm a possibilidade de deixar o carro de uma forma estabilizada e com iluminação e usar depois o transporte urbano da cidade”, refere.

O autarca garante ainda que será construído um novo equipamento de saneamento que “vai permitir que, em situações de cheia no rio Pavia, o espaço não seja afetado”. “Vai permitir também um maior escoamento das águas, porque há a receção das águas pluviais que vêm de outras proveniências”, afirma, acrescentando que a obra visa resolver a acumulação de águas na zona que vai a partir da Rua das Bocas e de toda a zona cimeira.

Além disso, os terrenos também serão melhorados “do ponto de vista da circulação”. “Vão ser todos normalizados com as vias repavimentadas, iluminação e plantação de árvores e arbustos para melhorar o aspeto”, explica Almeida Henriques.

Antes deste projeto, a Câmara de Viseu já tinha feito outras obras na feira semanal como a instalação de casas de banho, a repavimentação do lugar onde passavam antigamente os feirantes agrícolas e intervenções de manutenção diária. “Foram feitos melhoramentos. Há um problema estrutural no saneamento das águas pluviais e também no enchimento quando surgem chuvas no rio Pavia. Esse problema tem mais de 10 ou 20 anos”, reforça o presidente.

Durante as obras, e de acordo com Delfim Almeida, os feirantes poderão vir a ocupar a avenida do Fontelo. “Quando se inicialmente falou nas obras, a ideia poderia passar por colocá-la temporariamente no recinto da Feira de S. Mateus onde estão agora os restaurantes. Não sendo possível, parece-me que o Fontelo é uma boa opção”, conclui o presidente da Associação de Feirantes das Beiras.