24 Fev
Viseu

Entrevista

Filipe Melo fala sobre "I'll See You In My Dreams"

por Redação

29 de Janeiro de 2020, 14:32

Foto Arquivo Jornal do Centro

Viseu destaca cinema e fotografia

CLIPS ÁUDIO

No âmbito do ano comemorativo do cinema e fotografia na cidade de Viseu, o Jornal do Centro falou com Felipe Melo, natural de Tondela. O criativo, que também é músico e criador de banda desenhada e foi um dos criadores do projeto "Uma Néspera no Cu", escreveu e produziu a curta-metragem "I'll See You In My Dreams", inspirada em histórias de terror e filmada na sua terra natal em 2003.

Como foi filmar “I’ll See You In My Dreams” no distrito de Viseu e quais os locais escolhidos para as filmagens?

Foi uma altura muito especial da minha vida porque o projeto assumiu proporções muito maiores do que as que tinha imaginado. Respondendo à pergunta, foi filmado na aldeia de Mouraz, nos pinhais onde passei a minha infância. Passámos também por Tonda e Nagosela, no concelho de Tondela.

Considera que os locais se adequaram bem à história que pretendia contar?

A história foi muito pensada em função dos locais. Tinha a intenção de misturar o imaginário dos filmes de terror que marcaram a minha adolescência com os locais da minha infância. O filme é o resultado disso. O processo de filmagem foi um pesadelo, porque nenhum de nós sabia realmente o que estava a fazer, aprendemos ali a resolver problemas. Foi, no entanto, uma experiência que, com alguma distância, foi determinante para o que faço hoje em dia. Percebi que era aquilo que queria fazer da minha vida. Houve também algumas histórias mais caricatas: vários figurantes, completamente maquilhados de zombie, foram assustar pessoas para as populações sem o meu conhecimento - senhoras de idade, em paragens de autocarro, de madrugada, que se benzeram, aterrorizadas.

Considera que Viseu tem condições para se tornar um destino de referência do cinema nacional?

Diria que há uma coisa que faz toda a diferença - a disponibilidade e generosidade das pessoas. Neste caso, da população de Tondela e em particular da ACERT. Existe uma genuína vontade de contribuir para que as coisas aconteçam, sem contrapartidas. Tenho a certeza de que existe também o mesmo espírito em Viseu. Tenho muito boa impressão do trabalho do Cine Clube e recentemente visitei o Shortcutz Viseu e gostei muito das pessoas.

Quais as maiores dificuldades que um realizador do Interior do país sente no início da sua carreira?

Eu nasci em Lisboa - portanto, não sou propriamente um realizador do interior. Porém, foi em Tondela que fiz os primeiros filmes, feitos numa câmara de Super VHS. Foi também ali que escrevi todos os guiões que fiz até hoje. Suponho que é o meu espaço criativo, é o sítio onde estou mais em contacto comigo e com as coisas que gosto de fazer. Acredito que tudo isso tem a ver com as memórias de infância que existem daquele espaço. Suponho que, no entanto, as dificuldades para qualquer realizador em início de carreira acabam por ser as mesmas. É preciso lutar muito até que surjam as devidas oportunidades para fazer filmes, e os meios para os fazer. É uma luta muito ingrata, e muita gente de talento fica pelo caminho, porque deixa de acreditar que é possível.