18 Fev
Viseu

Região

Queima de madeira abre "guerra" entre central de biomassa e ambientalistas

por Redação

31 de Janeiro de 2020, 10:18

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

A entrada em funcionamento da central de biomassa do Mundão, em Viseu, está envolta em polémica devido a um alegado uso de madeira de qualidade na produção de eletricidade. O alerta foi feito pela associação ambientalista Zero, a partir de uma denúncia, e foi prontamente desmentido pelo promotor do projeto, que solicitou mesmo a intervenção urgente do Governo.

Segundo a Zero, a central de Mundão, mas também a do Fundão, geridas pelo mesmo empresário, estão a queimar “na totalidade ou praticamente na totalidade, respetivamente, madeira de qualidade, não utilizando, como seria desejável e está contratualizado, biomassa residual”.

“O Governo prorrogou recentemente, e de forma questionável, através do Decreto-Lei n.º 48/2019, de 12 de abril, a entrada em utilização destas centrais, mas não cumprem com o interesse público, nomeadamente ao nível da gestão florestal e da prevenção de incêndios, tal como definido no preâmbulo desta legislação”, refere em comunicado a associação ambientalista.

Pelas contas da Zero, as duas centrais receberão “226 milhões de euros de subsidiação pública em 15 anos, mas não contribuem para o aproveitamento dos resíduos florestais e para a redução do risco de incêndio”. Nesse sentido, é exigida a “suspensão imediata” dos subsídios à produção de energia elétrica nas duas fábricas até a lei ser cumprida.

Desmentido

Carlos Alegria, o proprietário das centrais do Mundão e do Fundão, desmente a Zero e até estranha a denúncia feita pela associação, lembrando que nenhum ambientalista passou pelos empreendimentos. Ao Jornal do Centro, o empresário garante estar a queimar madeira de acordo com a legislação em vigor, salientando que só recebe dos madeireiros e também das serrações “infestantes, acácias, cepos, madeira queimada”, mas também “madeira resinada,” que “para as serrações não serve, porque não serve para a serração, nem para madeira”.

Carlos Alegria convida todos os interessados a visitar os seus espaços e recorda que ainda há uma semana uma comitiva de 80 pessoas a pedido da Ordem dos Engenheiros passou pelo Mundão e “deu para provar” a inexistência de qualquer ilegalidade.

“Eu já vi este filme”

O empresário diz que este caso só veio a público porque está para entrar em funcionamento uma nova central de biomassa na região e que vai consumir mais do que as suas unidades. “Eu já vi este filme em Oliveira de Azeméis [onde Carlos Alegria possui outra unidade]. Como há outra central a arrancar tenho que dizer mal do parceiro do lado para eu consumir. A outra central consome o dobro do que eu vou queimar e está preocupada que não haja biomassa”, refere.

A central do Mundão foi entregue a Carlos Alegria em meados de dezembro, sendo que antes esteve em fase de testes. Só no início do ano é que começou a produzir energia em força. O investimento ronda os 52 milhões de euros. A matéria-prima recebida é de toda a região. Carlos Alegria explica que se a unidade receber biomassa de um raio superior a 50 quilómetros deixa de ser considerada renovável.

“Ação de fiscalização ainda em janeiro”

Contactado pelo Jornal do Centro, o Ministério do Ambiente e da Transição Energética faz saber que depois das denúncias recebidas ordenou à Entidade Nacional do Setor Energético uma ação de fiscalização, que será levada a cabo com o apoio do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. “Esta ação de fiscalização realizar-se-á ainda em janeiro”, acrescenta.

Ecopontos florestais a encher

Com a entrada em funcionamento da central de biomassa do Mundão, no concelho de Viseu, foram criados dois ecopontos florestais, onde podem ser depositados resíduos resultantes da limpeza de mato e floresta. Um desses espaços foi criado em Bodiosa, e de acordo com o presidente da Junta, o contentor para as verduras “está a funcionar bem”, estando a 50 por cento da capacidade. Ainda não foi realizada nenhuma recolha.

O ecoponto está a ser usado por habitantes de Bodiosa, mas também de Abraveses, Campo, Ribafeita e Orgens, que lá vão deixar ramos, giestas, material lenhoso resultante da poda das oliveiras, restos de arbustos, madeira velha e até corcódea de pinheiros. “Há lá muito material. Está a haver uma boa aceitação por parte das pessoas. Diria que está a superar as expectativas iniciais porque as pessoas mostram-se, no contacto que tenho tido com elas, muito agradecidas por o equipamento estar a funcionar, porque assim evitam as queimas”, salienta Rui Ferreira.