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Às 20h40 de sexta-feira, lá estava eu à porta do Teatro Viriato. No foyer, dezenas de pessoas aguardavam ansiosamente pare serem chamadas à sala de espetáculos. Uma exposição do Teatro Viriato em miniatura chamava a atenção dos mais curiosos.
Não havia folha de sala. Pelo menos não em papel. Um ecrã na parede projetava o QR Code que encaminhava os telemóveis de todos para a folha de sala de “Oz ou a Estrada?”. Nos minutos de espera que antecederam a entrada na sala de espetáculos, várias caras conhecidas aproveitavam para trocar cumprimentos. Por entre o público, várias caras ligadas à área da Cultura. Atores e atrizes, programadores culturais e inclusive uma autarca.
Por volta das 20h50, as portas para a sala de espetáculos abriram-se. Lá me encaminhei, como todo o público, para a cadeira correspondente ao meu bilhete. Também durante os minutos que demoraram para que os lugares da sala se ocupassem, a distância entre as pessoas era encurtada mais um pouco. “Então, como tens andado?”, “ó meu deus, há tanto tempo que não te via!” ou “não acredito, por aqui?!” eram expressões que se ouviam com frequência.
Às 21h00, as cortinas vermelhas fecharam-se. Uns segundos depois, Dorothy (sim, a do Feiticeiro de Oz), entrou em palco. Um cestinho de vime e o som de latidos sugeriu aos espectadores mais confusos como eu que Totó, o cão de Dorothy, estava no cesto de vime. De lá não sairia até ao fim da peça, embora de quando em vez se fizesse notar com um novo latido. Deka Saimor, a atriz que fez de Dorothy, brilhou tanto em palco como os (seus) sapatos da Bruxa Má do Leste.
Ao longo da peça, (nós, os espectadores) fomos confrontados com um espantalho bem mais inteligente do que a sua falta de cérebro aparentava – e brilhantemente interpretado por Tadeu Faustino. Ao todo foram quatro as personagens que entraram nesta peça. Além de Deka Saimor e Tadeu, foi Gabriel Gomes quem deu vida ao rapaz de lata, mostrando ao público que não é preciso pedir um coração ao “grande e poderoso Oz”, quando temos a pessoa certa ao nosso lado. Por fim, Rafa Jacinto interpretou Leo Cobarde, um leão (que pensava ser) menos corajoso do que era exigido ao ‘rei da selva’.
Quatro atores que atuaram num espetáculo com profundidade, mas também alegria, humor e ação suficientes para ser desfrutado tanto por novos como por velhos. A moral de “Oz ou a estrada?” foi uma: a de aceitar o outro como é e aceitarmo-nos a nós próprios, tal como somos. O próprio elenco queer dava prova disso.
Uma daquelas peças em que o percurso é mais importante que o destino. A grande lição, contudo, fico guardada para o fim e traduziu-se numa única palavra: “não”. Na história contada em palco, o ‘grande e poderoso’ Oz pergunta às personagens se de facto querem um cérebro, um coração, coragem e um caminho de volta a casa. A resposta foi peremptória, um grande e redondo “não”.
No fim, importa reconhecer quem somos, aceitar as nossas possíveis falhas e fazer delas pontos fortes. E se dúvidas faltassem no público sobre os temas em discussão, foi incluído no espetáculo um pequeno texto de ‘metateatro’. Uma atriz cabo-verdiana que ansiava por mais independência e dois atores que se amavam, um deles a sofrer com o silêncio e outro que desejava ter mais inteligência emocional para lidar com a relação. Por fim, outre atore não-binárie que pedia coragem para enfrentar uma sociedade conservadora.
Findada a peça, houve tempo para uma pequena conversa com os elementos do público que quiseram ficar – e que correspondeu à quase maioria da audiência. Um elemento da Plataforma Já Marchavas tomou a palavra e aproveitou para colocar algumas questões ao elenco assim como ao dramaturgo, Roberto Terra. Na conversa juntou-se também Odete, artista trans que ficou encarregue pela sonoplastia de “Oz ou a Estrada?”.
Quem entrou no Teatro Viriato nessa noite à espera de uma ‘simples’ adaptação do Feiticeiro de Oz, saiu com algo bem mais precioso: tolerância. Aliás, com aceitação, uma vez que tolerância implica algo de negativo no outro. O que devemos fazer todos enquanto sociedade talvez seja aceitar mais e tolerar menos, especialmente aqueles dispostos a percorrer os tijolos amarelos a nosso lado, até à cidade mágica de Oz.