28 Set
Viseu

Mortágua

“Viseu e Coimbra estão a servir de dormitório a Tondela e Mortágua”

por Redação

13 de Março de 2020, 09:15

Foto Arquivo Jornal do Centro

Entrevista ao presidente da Câmara de Mortágua, Júlio Norte

CLIPS ÁUDIO

Júlio Norte é presidente da Câmara de Mortágua desde 2013, eleito independente nas listas do PSD. O seu segundo mandato fica, para já, marcado por conseguir fazer regressar ao concelho o Rally de Portugal. Ao Espaço Atualidade do Jornal do Centro, que pode ver e ouvir na nossa plataforma online, o autarca, que já foi do PS, recorda que já anda nestas lides há mais de 30 anos

O Rally de Portugal esteve afastado da região Centro durante muitos anos. Regressou no ano passado e este ano tem passagem por Mortágua. Como é que conseguiu que os carros voltassem a acelerar neste concelho?

O Rally é uma paixão. Quem levou o desporto automóvel para Mortágua fui eu, primeiro com as infraestruturas florestais que criámos e depois porque achámos que a elas podiam, precisamente, acrescentar mais. E esta paixão foi-se enraizando, primeiro com os jipes, depois com as motas e depois com provas de rali nacional. Tivemos no passado Rally em Mortágua, na altura em que ele acontecia na zona Centro, e perdemos essa paixão, mas não perdemos o sonho. Entretanto, o Rally foi para Lisboa, depois para o Algarve e voltou para o Norte. Acontece que a recetividade junto dos meus colegas autarcas não foi sempre a melhor. Mas houve, ainda com o anterior presidente de Arganil, esta vontade de voltar a ter a prova. Aliás, foi Mortágua que continuou a ter esta chama viva ao receber todos os anos uma prova do campeonato nacional. No ano passado, as coisas aconteceram rapidamente e, por isso, Mortágua ficou de fora. Consegui finalmente trazer para Mortágua o Rally e estamos a prepará-lo com um muito carinho.

Em que dias estão as classificativas previstas para o concelho?

Dias 21 e 22 de maio. Estamos a preparar uma zona espetáculo onde esperamos conseguir meter 20 a 30 mil pessoas, tal como já aconteceu no passado, e em segurança. Vai ser uma zona de fácil acesso. Este espaço vai ser único no Rally de Portugal porque vamos conseguir ver cerca de 1200 metros de prova e sentadinhos. É um terreno que tem bancada natural. A prova vai terminar junto ao limite do concelho com Santa Comba Dão, na Ponte do Criz II, e quem quiser só ver a chegada também terá essa possibilidade. Nós vamos demarcar as zonas espetáculo e depois vamos também distribuir folhetos de como se pode chegar e ver o Rally em segurança.

Tem já as contas feitas de quantas pessoas podem assistir a esta prova?

No Rally de Mortágua, por norma, temos hoje uma média de 15 mil pessoas a assistir. Penso que ao longo do troço podemos contar com 50 mil.

Quanto é que isto vai custar ao município?

Ainda não temos valores porque tratando-se de um evento a nível nacional estamos, os municípios envolvidos, a negociar com o Governo. Ainda não tenho a certeza.

Qual é que vai ser o retorno?

Estudos feitos no ano passado dão conta que o retorno é cinco vezes maior do que o investimento.

Então já sabe quanto vai ser o investimento?

Isso foi a perceção dos meus colegas relativamente ao ano passado. Posso dizer que eu também já tenho um valor na cabeça acima do qual eu não vou. Dada a qualidade do evento, o Poder Central também pode, aqui, fazer mais pelo Interior. Se nós somos modelo em determinadas áreas, no desporto e na cultura não temos o direito de ficar atrás dos grandes centros.

E por falar em Interior, foram recentemente anunciadas medidas pelo Governo, nomeadamente apoio para a criação de emprego, regresso ao Interior e descontos nas portagens. São medidas que o satisfazem ou é pouco?

É sempre pouco, principalmente para os concelhos que estão em situação pior, mas todas as medidas são bem vindas.

Mas são estes tipos de incentivos financeiros que fazem com que, por exemplo, as pessoas se fixem em Mortágua?

Eu penso que estas medidas têm de ser todas complementares. Se eu, neste momento, tenho medidas sociais de apoio aos jovens para se fixarem e tenho dificuldades em que isso aconteça, é bom que haja uma interligação com as medidas que são da responsabilidade do Governo. Para a realidade do meu concelho é um bom complemento porque, por exemplo, nós [Mortágua] e Tondela temos pleno emprego e temos muito indústria. Aliás, neste momento, Viseu e Coimbra estão a servir de dormitório a Tondela e Mortágua. O que preciso agora é de ajuda para fixar esta população.

O que se sabe é que há dificuldade em conseguir habitação?

Nós acabámos de aprovar um projeto para 34 apartamentos que nos vai começar a resolver esse problema e vamos colocar em hasta pública lotes junto ao Centro Educativo. Estamos a criar as condições para as pessoas terem a sua própria habitação e não recorrer apenas ao aluguer. O município não se pode substituir aos privados neste campo. O que nós temos de fazer, e estamos realmente a fazer, é criar boas infraestruturas no parque industrial e condições para a instalação de empresas.

Como resolve o problema de ter pleno emprego, haver novas empresas que precisam de mais gente e não ter onde as colocar? Qual é a linha de atuação?

Temos algumas povoações que têm habitações abandonadas e um dos nossos grandes objetivos é tentar incentivar e criar medidas para que essas casas sejam requalificadas e já há empresários a fazer isso. Não queremos concentrar tudo na sede do concelho e, assim, estamos a reativar as aldeias e a combater a desertificação. A Câmara disponibiliza também um conjunto de incentivos aos trabalhadores, que por norma são jovens até os 35 anos, que passa pela isenção de todas as taxas para construção de habitação.

A requalificação do IP3 pode ajudar a resolver o problema ao facilitar a deslocação das pessoas a Mortágua para trabalharem?

 Foi a solução menos má, a requalificação. Enquanto for presidente da Câmara há uma coisa da qual não vou abdicar e que é uma autoestrada Viseu/Coimbra. Eu penso que esta intervenção não é a ideal, embora vá resolver algumas situações, principalmente com o separador central que vai evitar mais mortes. Mas é pouco. Por exemplo, no nosso Parque Industrial tudo o que lá é produzido é praticamente para a exportação e tem de ser escoado o produto pelo IP3.

Mas tem também, no concelho, a linha férrea? É uma vantagem que muitos dos concelhos do Interior não têm.

Mas isso não é bem assim, porque depende das características das empresas, do que produzem e onde vão deixar os produtos. Mas relativamente ao IP3, é fundamental todos estarmos unidos. Os bairrismos de Viseu e de Coimbra têm de acabar e nós, os mais pequenos, temos de ter uma parte ativa. Curiosamente, fomos nós, até, quem mais lutou.

Está com receio que o projeto de duplicação desta via não se venha a concretizar?

De maneira nenhuma.

E está preocupado com os atrasos?

Muito preocupado porque quem está a pagar por causa disso são os meus empresários.

Justificam-se esses atrasos?

Diria que não, que a obra não é assim tão complexa. Claro que houve contratempos por causa das intempéries, mas não é concebível que uma intervenção desta natureza demore tanto tempo. Também continuo a não acreditar que em julho ela esteja pronta.

Vai manter na entrada da Câmara de Mortágua a placa que diz “o primeiro-ministro Engenheiro José Sócrates procedeu em Mortágua ao lançamento da concessão das autoestradas do Centro”, em março de 2008. Faz sentido a placa ali continuar?

Aquilo foi um ato político, o Sócrates era um homem de ideias fixas e ele queria fazer aquela obra. Quando colocou a placa não foi mera retórica. Acreditava naquele projeto. Estou a fazer a requalificação do edifício da Câmara e da mesma forma que tenho lá placas com visitas de presidentes da República ou outros ministros e que irão lá ficar, esta também. Um dia se alguém as quiser tirar...

Outra ligação também fundamental é a linha da Beira Alta. As obras são sistematicamente adiadas. O que está previsto (requalificação) é satisfatório ou era preciso mais?

Esta obra é irreversível. No caso de Mortágua vai haver a requalificação de toda a zona da estação porque vai ser necessário criar condições para cruzar comboios com 750 metros. Também vai ser melhorada a zona de cargas e descargas. Nós já temos um cais que praticamente serve de correlaria do eucalipto e vai ser melhorado não só para as pessoas, como também as plataformas. Para transformar aquilo numa zona de chegada e partida de mercadorias teriam de ser feitas grandes alterações, mas em cima da mesa está a plataforma logística em Pampilhosa e não pode haver plataformas em todos os lados.

Mortágua ficará bem servida com esta localização?

Essa está garantida. A determinada altura equacionei ter algo semelhante perto do Parque Industrial. No entanto, não bastava só querer e o argumento para a ter e rentabilizar teria de ser grande. Pelo que percebi, para muitas das empresas aqui instaladas, com o tipo de negócio que têm, é mais cómoda a mobilidade pela rodovia.

Mortágua ainda é hoje conhecido como o concelho melhor ordenado florestalmente?

É muito mais do que isso e está na altura de nós desmitificarmos um conjunto de dogmas à volta da nossa floresta por causa do eucalipto. Eu tenho sido um crítico feroz relativamente ao Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF) porque eles têm de ser um exemplo.

Qual é o problema com o ICNF?

Vários. Ainda agora para aprovar as nossas faixas de combustão... é tudo meramente teórico. Não posso conceber que quem faz a marcação se calhar nunca foi a Mortágua nem sabe do que está a falar. Depois a questão do eucalipto. Dizem que em Mortágua é quase tudo monocultura. É verdade que sim, mas também é verdade que o eucalipto é quem mais repõe e neutraliza o CO2. Parte dos resíduos vão para a nossa central bioelétrica e contribui para energia verde e também transformamos os resíduos de eucalipto em pellets que vão para o mundo para reduzir as emissões de CO2. Para a minha floresta ser o que é tive de responder aos proprietários e às empresas o que eles queriam e onde queriam chegar.

Mortágua, pelo que diz, é um exemplo ambiental?

Eu tenho lançado o repto para esta gente vir aqui, nomeadamente ao evento que fazemos dedicado à floresta. Estar em Lisboa e no Hemiciclo sem saber como se planta um eucalipto e muito menos qual a sua rentabilidade e por fundamentalismo dizer que o eucalipto é uma praga... enfim. Nós não somos líricos, trabalhamos com universidades e com gabinetes de investigação das celuloses.

Está a dizer que quem está em Lisboa não sabe o que se passa no seu concelho. Isso pode-se resolver com a regionalização?

A minha esperança é essa. Eu sou um defensor acérrimo da descentralização e da regionalização. Nós temos de ter, por exemplo, um ICNF da região Centro porque o Algarve não tem nada a ver connosco. Há quantos anos a regionalização já cá deveria estar.

Acredita que vai avançar?

Eu não vejo de outra forma, senão vamos ficar eternamente adiados. Tem de haver coragem política. Temos de ter uma Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) alargada e onde nós, autarcas, nos consigamos rever. O atual mapa tem 100 municípios na Região Centro. Somos fortes.

Com uma CCDR mais forte, as comunidades intermunicipais deixam de fazer sentido existir?

Depende de como a estrutura for toda preparada. Até lá, as comunidades intermunicipais são fundamentais. Eu lembro-me que antes chegava aos limites do meu concelho e dizia aos meus colegas chega para lá porque eu era o dono do meu território e acabou. Isso já lá vai, hoje tenho de os chamar e trabalhar em conjunto.

Está a ser constituída uma associação intermunicipal de águas residuais, a EIMAR, mas Mortágua ficou de fora porque a adesão foi chumbada pela Assembleia Municipal onde não tem maioria. Mortágua vai ficar isolada? É que os apoios só vão ser concedidos a projetos intermunicipais. Como vai resolver o problema?

Mortágua tem estado a fazer um grande esforço porque parte das nossas ETAR estão a ficar em fim de ciclo de vida. Nós tínhamos pensado em fazer uma remodelação total, uma modernização. A Assembleia Municipal achou que não deveríamos entrar nesta associação...

Então não vai fazer obra?

Vou fazer. Eu passei com um saldo de 3,7 milhões de euros e tenho uma capacidade de endividamento que pode ir até aos 13/14 milhões de euros.

Estamos a falar de obras para serem feitas e mais de ano e meio. Isto quer dizer que há candidatura a um terceiro mandato?

Hei-de tomar uma decisão que possivelmente acontecerá dentro de um mês ou dois. Há um fator determinante que é a família. Se calhar sou o autarca deste país há mais tempo em funções ininterruptamente.

Tem saudades do PS? Há quem diga que o seu grande sonho era terminar a vida autárquica eleito pelo PS que sempre foi e será o seu Partido.

O Partido Socialista foi a minha escola de formação política. Eu tenho a minha ideologia. Não teria feito um mandato muito diferente se fosse presidente da Câmara eleito pelo PS. Não fui eu que saí do Partido Socialista, mas tive de fazer opções. O futuro não sei. Como sou um cidadão independente, posso pensar o que quero e não quero, posso ir conforme estou... tudo pode acontecer na vida. No dia em que eu disser vou ser também, direi com quem vou.

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