09 Ago
Viseu

Entrevista

"Cada um de nós deve estar no seu cantinho"

por Redação

20 de Março de 2020, 01:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

Entrevista ao diretor do serviço de pneumologia do Centro Hospitalar Tondela-Viseu, Simões Torres

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Por estes dias, a grande preocupação dos portugueses é a pandemia do coronavírus. Num momento de muitas incertezas e informações contraditórias, o médico Simões Torres, diretor do serviço de pneumologia no Centro Hospitalar Tondela-Viseu, tira dúvidas sobre a Covid-19.

O que é o Coronavírus ou a Covid-19?

Alguns destes vírus convivem connosco sem causarem problemas mas, no passado, já tivemos outras pandemias causadas por este tipo vírus. Agora, surgiu este novo Coronavírus que é uma realidade diferente e completamente nova. Tem características únicas, que são desconhecidas e que por isso causam grandes problemas para lidarmos com ele. A Covid é a doença. Covid-19 porque foi em 2019 que apareceu.

Porque é tão preocupante e alarmante?

Porque estamos perante um vírus com características especiais. Em relação aos anteriores tem uma capacidade de propagação brutal. Por isso, é que nesta altura já temos uma pandemia. Começou na China, o foco agora é a Europa, mas já está em todos os continentes. É uma pandemia e não apenas uma epidemia. Este vírus não era conhecido e estamos a aprender, principalmente, com os chineses que foram os primeiros a lidar com a situação.

Como é que este vírus se propaga?

Propaga-se essencialmente pelas gotículas de saliva. Quando falamos, tossimos ou espirramos. É por isso que o isolamento social e a distância em relação às outras pessoas é importante. Também temos que ter a noção que quando tossimos ou falamos, as gotículas podem pousar nas superfícies e ao tocarmos nessas superfícies podemos transportar o vírus nas mãos. E se depois tocamos com as mãos na cara, na boca, no nariz e nos olhos estamos a ser contaminados.

Por isso o cuidado a ter com a higiene das mãos?

Devemos lavar bem as mãos, com água e sabão…

Sabão ou sabonete?

Sabão, o mais vulgar, é o mais eficaz. O que é importante é sabermos lavar bem as mãos. Esfregar bem e também entre os dedos porque é aí que o vírus pode estar alojado. Isso é que é importante. Quando tocamos num objeto ou numa superfície e depois passamos para outra situação devemos lavar sempre as mãos.

Quando saímos de um edifício para outro devemos lavar as mãos?

Sim. Hoje, felizmente, quase todos os espaços públicos têm dispositivos com desinfetante.

O gel desinfetante é eficaz?

Só é útil se não tivermos água e sabão para lavar as mãos. Se estivermos na rua o gel ajuda.

Qual a distância que se deve manter entre as pessoas?

Quando falamos as gotículas podem atingir os dois metros, mas quando espirramos as partículas vão para muito mais longe. Por isso, quando tossimos devemos colocar na frente da boca o antebraço (o braço dobrado) e nunca a mão.

O uso da máscara previne nestas situações?

Na questão da tosse, a máscara é pouco eficaz. Só será importante para quem estiver com tosse não nos contagiar. A máscara ajuda que não toquemos com as mãos na cara e na boca. Só isso.

Andar de máscara na rua faz sentido?

Nenhum. Na rua devemos é estar preocupados com o distanciamento social. Se nos cruzamos com um amigo devemos cumprimentar ao longe. Se alguém estiver constipado, o que é normal nesta altura do ano, não deve tossir para onde estão as pessoas e colocar o braço frente à boca.

A propagação do vírus pode ser feita pelo ar que respiramos?

O vírus não anda por aí no ar. Não vamos na rua e entra pela boca. Se formos às compras e mantivermos o distanciamento necessário das outras pessoas estamos protegidos. O vírus não veio da China através dos sacos das compras.

Transmite-se pelos alimentos?

Isso é um mito. Não se transmite pela alimentação, isso é seguro.

Nem pelos alimentos crus, tipo saladas?

Temos que os lavar bem, como já o devíamos fazer, com água corrente, com um bocadinho de lixívia ou cloro, se possível, mas lavar bem com água a correr é que é importante.

Quem usa lentes de contacto, nesta fase deve usar os óculos porque ajuda a contrariar o contágio?

Exatamente. Os óculos são um obstáculo a que toquemos com as mãos nos olhos que são uma das portas de entrada no nosso organismo.

Andar de luvas previne o contágio?

O que é importante é não levar as mãos, com luvas ou sem luvas, à cara, boca, nariz e olhos. A luva se tocar numa superfície contaminada também transporta o vírus.

Deslocações dentro do país, por exemplo de Viseu a Lisboa, pode-se fazer?

Mesmo que não tenham sintomas de estarem infetados é desaconselhável fazer viagens. Cada um de nós deve estar no seu cantinho. Há quem, por obrigações da profissão, vai ter que viajar, mas devemos estar isolados o mais que nos for possível.

Está proibido o contacto das crianças com idosos?

As crianças mesmo que estejam infetadas não têm sintomas, o que é curioso. Mas ao estar por perto podem contagiar os idosos que são mais frágeis.

Quais são os sinais mais evidentes para uma possível infeção com o Coronavírus? Estar com tosse é um sinal?

Esse é outro problema. Os sintomas são muito parecidos e estamos numa fase do ano em que é normal haver muita gente constipada com o vírus normal. O novo Coronavírus pode ou não dar tosse, febre, pingo do nariz. Uma pessoa que tenha tosse recente e algumas alterações respiratórias deve ter cuidado. Já não interessa se esteve, ou não, na Itália ou na China. Essa fase já foi ultrapassada. Agora já se está a transmitir entre nós que estamos cá dentro.

Quem tiver tosse durante um ou dois dias deve ligar para a linha Saúde 24?

Também não devemos ser precipitados. Neste momento, a maioria será ainda tosse de resfriados. Mas, cautelosamente, deve resguardar-se em casa e dos seus familiares. Ver a evolução ao longo de dois ou três dias. Medir a temperatura, porque se estivermos apenas constipados não temos febre. Se aparecer febre, medir de manhã e à noite, e se a situação evoluir ligar para a linha Saúde 24 e informar-se.

Esse é o caminho. Não ir de imediato para o centro de saúde e hospital?

De modo nenhum. Aí a possibilidade de contagiar ou ser contagiado é muito maior. Ligar para a Saúde 24 e seguir as instruções.

O Serviço Nacional de Saúde vai ter capacidade de resposta?

Se não houver prevenção e o contágio tiver um pico muito rápido vai ser difícil. Se ultrapassarmos determinado limite não teremos capacidade de resposta. Por isso, a importância da prevenção e do isolamento social. Se conseguirmos que a curva de crescimento não seja acentuada, mas diferida ao longo do tempo, será possível dar resposta. Daí estas medidas que estão a ser tomadas para que a curva esteja sempre abaixo do limite de capacidade de resposta. Os recursos são sempre limitados.

Se esse limite for ultrapassado, há doentes que não vão ter tratamento?

Se não fizermos nada e deixarmos a doença progredir vai haver muita gente que não poderá ser tratada com ventilação e vai morrer. É como na guerra. Se tivermos três doentes e só dois ventiladores, vamos ter que escolher quem é que não vai ser ventilado. É o pior do cenários. Penso que com as medidas que estão a ser tomadas isso não vai acontecer e o SNS vai ter capacidade de resposta.

Quanto tempo vai durar esta situação de emergência?

Dois meses, seguramente. Ainda estamos muito longe do pico da doença que se prevê no final de abril. Depois irá começar a decrescer. Até lá vamos ter que aprender a viver com o vírus.

O Hospital de Viseu está preparado para uma situação destas?

Há muita gente dedicada à preparação do Hospital para que tudo corra bem quando os doentes Covid-19 começarem a surgir na região. Há uma estrutura que é preciso montar e está montada. Se este trabalho for bem feito, e está a ser, vamos conseguir que a tal curva da doença seja suave e não tenhamos o pico ao qual não é possível dar resposta.

No exterior do Hospital de Viseu foi montado, pelo Exército, um hospital de campanha. Para que serve?

Neste momento, para fazer a triagem dos doentes com probabilidade de terem a infeção Covid-19 e para os afastar da urgência geral. Em último caso, se isto atingir proporções muito grandes, serve para colocar lá os doentes que estejam à espera de resultados de análises e exames ao Coronavírus. Há um plano já delineado com os espaços definidos para o internamento, dentro do Hospital, que poderá ser alargado de acordo com as necessidades. São espaços delimitados para que não contagiem outros doentes internados.

Os outros doentes também precisam de continuar a ser tratados…

Há muito doentes à espera de consultas que vão ter que esperar. Têm que ser compreensivos. Só vamos atender os prioritários e urgentes. Não vai haver só doentes Covid-19, mas só os urgentes, como os oncológicos e outros, vão ser tratados. Os não urgentes vão ter que esperar.

Posso ir ao café?

Podemos, se o espaço entre as mesas assegurar o distanciamento social de dois a três metros.

Os animais domésticos podem propagar a doença?

Nada disso está provado. Nem de nós para os animais nem dos animais para nós. Temos que ter cuidado com muita informação falsa que circula nas redes sociais.

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