09 Ago
Viseu

Entrevista

"Não se pode falar de reação tardia, mas de alguma descrença inicial generalizada na dimensão do problema"

por Redação

20 de Março de 2020, 01:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

Entrevista ao viseense Correia de Campos, ex-ministro da Saúde e presidente do Conselho Económico e Social

CLIPS ÁUDIO

O ex-ministro da Saúde e presidente do Conselho Económico e Social, António Correia de Campos, diz que houve uma descrença inicial relativamente à dimensão da Covid-19 e que agora o esforço essencial é o de acabar com o pico da epidemia, mesmo que isso demore meses. Afirma que o Sistema Nacional de Saúde (SNS) sofreu uma descapitalização durante quase uma década, mas os recursos humanos está intacto.

O Mundo reagiu tarde a esta pandemia? E Portugal?

É impossível afirmar que o Mundo reagiu tarde à pandemia. Evidentemente, à medida que vamos sabendo mais sobre ela, temos uma visão alargada sobre a sua origem, desenvolvimento, consequências, formas de controlo e formas de mitigação. Agora sabemos incomensuravelmente mais que quando ela surgiu entre nós, no início de janeiro.

E muito do que sabemos devemo-lo aos especialistas chineses de Saúde Pública, às autoridades desse grande país que tiveram a coragem de assumir atitudes que na nossa cultura e nas nossas liberdades seriam impossíveis e ainda a toda a comunidade científica internacional. E também a outro grande país, a Itália, que sofre amargamente esta consequência da globalização, sem ter podido preparar-se com tempo para ela. E também à agência especializada das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) a quem cumpre reunir informação e coordenar medidas de âmbito global.

Lamento certamente a falta de atenção dos grandes doadores internacionais que se revelaram relutantes ao financiamento inicialmente pedido pela OMS de 600 milhões de dólares, uma gota de água, afinal, no mar imenso de prejuízos que a economia mundial está a sofrer. Espero que os países grandes financiadores, a começar pelos Estados Unidos da América (EUA), mudem a sua relutância unilateral de cortar ou atrasar o financiamento das Nações Unidas, cujas agências, prestígio e capacidades são essenciais para o combate à pandemia. Portugal beneficia de ser um pequeno país, estar mais isolado que os da Europa Central, ter um bom sistema de Saúde Pública, altamente prestigiado dentro do nosso SNS e manter uma atitude de permanente cooperação e vontade de aprender com todos e também com os que primeiro sofreram os embates da pandemia.

Não se pode falar de reação tardia, mas apenas de alguma descrença inicial generalizada na dimensão do problema. Descrença que tornaria impossível ter tomado há um mês as medidas que agora estão a ser tomadas, como o encerramento de lugares públicos, escolas, empresas, transportes, praias, locais de diversão e até o confinamento ao domicílio da quase totalidade da população. Um grave problema de dimensão gradualmente crescente requer medidas proporcionais e naturalmente graduais. Se na China foi possível, ao fim de um mês de epidemia, entaipar residências e criar cordões sanitários completos, nas nossas democracias tais medidas só seriam aplicáveis em situações limite.

As medidas anunciadas e a atuação da DGS foram-no nos tempos corretos?

Nenhuma medida tem sido tomada com ânimo leve, de improviso ou por arrasto. Todas as medidas obedecem a uma estratégia que é a internacionalmente proposta: começou-se pela fase da identificação do surto (entre nós rápida e mais bem executada que em outros países), passou-se à fase da contenção, quando se reconhecem todos os casos originários para se identificar a sua ligação epidemiológica, o tal link de que tanto se tem falado e conhecer os focos da epidemia, os clusters, em trabalho de detetive, acompanhá-los pela rede dos serviços de Saúde Pública, tentar circunscrever a propagação, hospitalizando os casos iniciais para depois, à medida que eles se tornam mais numerosos, os tratar em outras unidades de menor intensidade ou até no domicílio (confinamento profilático). E, finalmente, quando a curva epidémica ascende de forma mais dramática, o que há a fazer é mitigar os efeitos da epidemia.

É aqui que entram medidas de confinamento ou até quarentena domiciliária, de encerramento de lugares de grande concentração de pessoas e eventualmente do restabelecimento de fronteiras e controlo rigoroso do trânsito de mercadorias.

O objetivo bem definido é fazer esbater o pico da epidemia, atrasando o seu crescimento, mesmo que prolongando a sua duração ao longo do tempo.

Todas as epidemias se comportam da mesma maneira, em todos os tempos, todas revelam curvas epidémicas semelhantes: nascimento, crescimento, apogeu e decaída até à linha de base. Tal como em biologia, tudo o que nasce cresce, atinge um acme e morre.

Porém, o declínio de novos casos surge apenas quando se reduz o número dos suscetíveis, por já ter sido contaminado um conjunto de pessoas dentro de cada grupo de suscetíveis à aquisição da doença (imunidade de grupo). É por isso que na fase expansiva é tão importante o confinamento e tão perigoso o contacto entre grupos diferentes. Esta imunidade é importantíssima para se prevenir uma primeira ou segunda vagas infecciosas, como aconteceu na gripe espanhola (“pneumónica”) de 1918-1919 que surgiu em três vagas.

A estrutura do SNS vai ter capacidade de resposta, desde a rede primária aos hospitais? O SNS aguenta a resposta ao vírus?

Todos reconhecemos que o SNS sofreu quase uma década de descapitalização. Mas o mais valioso do seu capital, os recursos humanos altamente preparados e devotados, está intacto, quer no SNS, quer no setor privado, quer no setor social. Escusamos de entrar em pânico: sabemos que dos contaminados não mais que 20% carecem de hospitalização, 5% de ventilação e 1% de respiração assistida de alta complexidade.

O SNS por si e com o resto do sistema dispõe de pessoal e equipamentos para diagnosticar os casos suspeitos e assistir os que careçam de cuidados mais avançados. O sistema hospitalar é sólido, tem uma rede bem distribuída, equipada e dotada de pessoal competente. A maior parte dos casos serão tratáveis em ambulatório ou até em casa.

De resto, o número de pessoas que no final da epidemia titularão a presença de vírus serão entre 10 e 15 vezes o número de casos identificados, apenas não revelam sintomas clínicos e por isso não são identificados nem carecem de cuidados.

Quanto aos efeitos na mortalidade, certamente teremos óbitos atribuídos a este novo vírus, mas nem sequer teremos a certeza de a mortalidade aumentar muito acima da média dos 3.300 óbitos anuais atribuíveis a gripe. E não podemos deixar-nos impressionar pela taxas de letalidade (óbitos entre portadores da doença) que na contagem em curso se registam: 3,7% a nível global e um pouco acima de 6% em Itália. A verdadeira taxa de letalidade será sempre a final, quando todos os suspeitos forem confirmados e certamente será inferior a esses valores. O mesmo acontece com a taxa de mortalidade (óbitos atribuíveis à infeção por 100.000 habitantes, ou por grupos etários) a qual só poderá ser devidamente calculada no final.

As medidas de contenção anunciadas pelo primeiro-ministro deveriam ter sido tomadas antes?

Tudo tem o tempo próprio. Medidas de contenção, agora bem acolhidas, seriam tidas como exageradas três semanas atrás e socialmente inaceitáveis. Mesmo medidas de encerramento nacional dos estabelecimentos de ensino que, à data em que escrevo, não foram ainda tomadas nem pelo Reino Unido nem pela Suécia (países dotados dos melhores serviços de Saúde Pública da Europa) estão longe de serem isentas de críticas, preferindo-se medidas de encerramento seletivo.

Já hoje sabemos o suficiente sobre o que se passou em Itália para duvidarmos do mérito da medida de precoce encerramento de escolas secundárias e universidades da Lombardia que tiveram o efeito perverso de disseminar a infeção pelas regiões onde se situavam residências primárias ou secundárias dos pais ou avós dos estudantes.

Enquanto tivemos dois milhões de jovens em escolas, o sistema de identificação e controlo da doença poderia ser mais eficaz do que se essa importante população tivesse sido precocemente disseminada na comunidade. Felizmente, houve o bom senso de acompanhar a medida de encerramento com o confinamento domiciliário, encerramento de todos os demais espaços públicos e provavelmente alguma espécie de quarentena.

Apesar de o Conselho Nacional de Saúde Pública se ter pronunciado pelo encerramento apenas seletivo e por indicação da autoridade sanitária, o alarme social criado por dirigentes de escolas e universidades e algum atraso na emissão do parecer dos especialistas tornou o encerramento acompanhado de confinamento absolutamente necessário. É tema que não passou à história. Quando a epidemia terminar e se fizer a análise das estratégias adotadas nos diversos países se verá qual teria sido a melhor solução.

Que medidas concertadas deveriam ser tomadas na Europa? Encerramento de fronteiras ou ainda mais?

Cada país da União Europeia tem responsabilidades para com os outros e tem que cumprir os Tratados. Ora, estes consideram um elemento essencial a livre circulação de pessoas. Só um valor maior, como a defesa da Saúde Pública poderá prevalecer sobre acordos por todos aceites e subscritos. Não é impossível adotar medidas temporárias de regresso a fronteiras, desde que não seja afetada a livre circulação de mercadorias e bens. Todavia, essas medidas devem ser adotadas por consenso entre todos os Estados-membros, o que não aconteceu em meia dúzia de casos. A reunião de ministros da saúde e da administração interna ou do interior, do início desta semana, veio satisfazer os mais ansiosos e repor a legalidade.

Quanto tempo vai demorar a recuperação económica e social de Portugal?

Em teoria, uma vez restabelecidos os fluxos do comércio internacional e afinadas as suas interdependências, será possível retomar a produção nacional. Em termos práticos: quando os turistas que tanto prezam o nosso país concluírem que ele está sanitariamente seguro, voltarão progressivamente; quando os nossos industriais da metalomecânica, do têxtil, do calçado e demais setores recomeçarem a receber as componentes de que necessitam, fabricadas em outros países, sobretudo do Oriente, a nossa produção retomará os seus ritmos. Mesmo assim, será necessário esperar um pouco até que sejam retomados os padrões anteriores da exportação. Não temos dúvidas de que em poucas semanas a China regressará a anteriores ritmos de produção, mas já duvidamos que a nossa procura externa, 70% da qual é europeia, retome com a mesma rapidez as práticas anteriores. Muito provavelmente os países mais industrializados da Europa enredar-se-ão em receios de inflação e em restrições orçamentais que desanimarão a produção europeia. Razão para exercermos pressão sobre Bruxelas. Pela nossa parte, enquanto os sinais forem de perda de atividade, devemos preparar, no inverno deste ciclo de vida, as condições para a retoma: preparação profissional, inovação tecnológica, planeamento a médio prazo e forte e bem dirigida promoção dos nossos produtos e serviços para exportação.

Quanto tempo vai demorar a recuperação económica de Portugal?

Uma vez terminada a epidemia e se o Estado e os empresários aproveitaram este tempo de quarentena para formação profissional, melhorias tecnológicas da produtividade e bom planeamento estratégico de médio prazo, então a recuperação será rápida, antes do fim do ano estaremos de novo a crescer ou pelo menos a deixar de regredir ou estacionar. Mas se a primeira preocupação de alguns empresários for de limitar prejuízos e riscos futuros, aproveitar o lay-off para despedir pessoal ou congelar salários, então a recuperação não será apenas tardia, pode mesmo ficar a aguardar melhores dias.

Que papel deve ter a Europa nesta recuperação?

A primeira obrigação dos países ditos frugais, os do centro da Europa (Dinamarca, Suécia, Holanda e Áustria) que até aqui se têm recusado a aceitar mais recursos para o próximo Quadro Financeiro Plurianual, ou que não acreditam na criação de novas receitas próprias para a União, será a de entenderem que a Europa é uma única região económica e que medidas tomadas por uma minoria influenciam todos. Têm que afastar de vez os fantasmas de uma inexistente inflação e depois aceitar que todos possam relaxar um pouco, e de forma controlada, a fixação nos défices. Eles serão inevitáveis. Mas agora absolutamente necessários e o seu controlo deve esperar um pouco.

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