09 Ago
Viseu

Entrevista

"O exercício potencia a capacidade de lidar com os sentimentos de ansiedade"

por Redação

20 de Março de 2020, 01:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Os ginásios estão fechados, os treinos suspensos, as crianças estão em casa e sem aulas, mas continua a ser possível e importante praticar desporto. Bruno Carraça, Psicólogo Clínico e do Desporto e Investigador da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa dá dicas para manter a forma física e a saúde mental: desafios do isolamento.

De que forma uma quarentena pode mexer com o estado emocional de um atleta, seja ele profissional ou não?

Em tempos de incerteza é fácil cair numa espiral de stress e ansiedade. A atual crise de coronavírus (COVID-19) tem muitos de nós colados às notícias, preocupados, irrequietos e de sono leve e os atletas não serão certamente exceção. As rotinas e hábitos dos atletas foram alteradas, há uma incerteza generalizada sobre o futuro e os atletas são pessoas, e a angustia e inquietação de eles próprios bem como os seus entes queridos ficarem doente é, seguramente, conteúdo mental tóxico que precisa de ser trabalhado para não interferir com a preparação física e psicológica e, por consequência, afetar o rendimento no regresso à competição.

Estar mais tempo com a família, supostamente com as pessoas que mais se gosta, pode facilitar?

Sim. Em períodos de crise como esta, estar e saber-se de bem com a família e amigos mais chegados potenciam as situações de empatia, gratidão, consciência da importância do momento presente e o aumento da coragem e ações compassivas que são, no fundo, o primeiro propósito de vida para os atletas.

De que forma pode o atleta contrariar essa situação?

Cada dia de vivência neste contexto atual traz novas mudanças radicais, que podem fazer com que os atletas sintam que perderam o controle ou regulação emocional sobre a sua vida quotidiana. Esse sentimento de impotência pode ser debilitante. Mas existem medidas que os atletas, e até os seus treinadores, podem tomar para recuperar o equilíbrio e aprender a ver os seus pensamentos tóxicos de uma forma mais transitória, pois os pensamentos habitam na nossa cabeça, mas não são nós, temos de os aprender a ver com algo que vai e vem e que a atenção que lhe damos é que os alimenta, não os julgar, viver mais no aqui e no agora com auto bondade, com humanidade partilhada e sem auto criticismo é o ideal. Assim, os atletas conseguirem construir estrutura e organização mental nestas novas rotinas, mantendo contacto com amigos e entes queridos, descansar adequadamente e tirar um tempo para se recentrarem, pode não apenas ajudar a manter a saúde mental e bem-estar geral, mas também permitir que prosperem e floresçam mental e fisicamente ao invés do evitamento, medo, angustia das vivências pelas quais todos nós estamos a passar.

Manter o treino à mesma hora de outras colegas de equipa pode ajudar?

Sim. Cria uma maior coesão de equipa e potencia os valores, aceitação e compromisso com os propósitos, objetivos e metas de cada atleta e da equipa no seu todo.

Neste momento, o facto das dúvidas serem mais do que as certezas provoca ansiedade?

É difícil escapar à crescente onda de emoções e pensamentos tóxicos acerca da COVID-19, especialmente quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarou como pandemia global. Desde cancelamentos de eventos desportivos à escala mundial até a escolas de futebol e outros organismos estatais e privados. Mudanças em larga escala estão a acontecer em tempo real, aumentando os sentimentos de incerteza também para o contexto desportivo mundial. Mas existem maneiras de manter a calma compassiva e consciente durante o surto de coronavírus, diminuindo a curva de ansiedade pessoal para um nível gerenciável e impedindo o pânico de tomar conta dos atletas e das suas equipas. Recomendo que os atletas comecem por selecionar uma, ou duas fontes credíveis, para serem as suas(s) fonte(s) conf iável(s) para atualizações, como o site da Direção Geral de Saúde (DGS) ou OMS. Em vez de se colar na TV ou na Internet para obter notícias, considerem também limitar-se a apenas uma ou duas atualizações por dia - e não antes de dormir. Dessa forma, os atletas mantêm-se informados e sem entrar numa espiral de ansiedade e pânico recorrente. Para ajudar ainda, os atletas devem centra-se nos seus planos de treino prescritos pela equipa técnica para este período de incerteza, sendo que aqui ficam algumas “dicas” de higiene mental e bem-estar psicológico.

No caso do futebol e futsal, os jogadores estão preparados para que a atividade seja retomada com meios financeiros substancialmente inferiores há dois ou três meses?

Essa é uma pergunta difícil, contudo, no meu entender, o propósito de vida de qualquer atleta profissional ou amador é desenvolver a sua atividade profissional pois faz parte do seu sentido de vida e processo de construção da felicidade individual, familiar e coletiva.

Os jogadores e todas as entidades desportivas estão preparados caso as Ligas não voltem?

Do ponto de vista psicológico, é sempre difícil vivenciar a ausência de rotinas, conteúdos e hábito, pois o sentido consciente de utilidade individual e coletiva fica posto em causa. Penso que será sempre uma situação difícil para a qual tem de haver uma preparação dinâmica, com consciência do valor do desporto, saúde e solidariedade compassiva, onde a aceitação e o compromisso tem de vigorar. Tem-se de estar preparado para o impreparável.

De que forma pode, também, o desporto ajudar e ser um fator importante para dezenas de famílias e/ou jovens que estão em quarentena?

O desporto, e nomeadamente a atividade física no domicilio, é importantíssimo na construção de uma resiliência individual e coletiva que todos nós temos de, criativamente e compassivamente, desenvolver neste período crítico.

A prática desportiva pode ajudar a gerir o stress ou a ansiedade?

A COVID-19 está a causar ansiedade e medo para muitos. É quase como se a todo o instante houvesse algo novo. A atividade física ou prática desportiva é um importante impulsionador das endorfinas, ou hormonas do bem-estar, e potencia a capacidade para lidar com os sentimentos de ansiedade e ajudar o sistema imunológico a permanecer forte. A prática desportiva e atividade física é, por excelência, um fator de proteção e regulação emocional.

Qual a diferença entre o impacto psicológico de um atleta que sofre uma lesão ou, neste caso com que se deparam muitos, sem puder treinar ou competir por tempo indeterminado?

As lesões, apesar de esperançosamente pouco frequentes, geralmente são uma parte inevitável da participação no desporto. Embora a maioria das lesões possa ser tratada com pouca ou nenhuma interrupção na participação desportiva e nas atividades da vida diária, algumas impõem uma carga física e mental substancial. Para alguns atletas, a resposta psicológica à lesão pode desencadear ou desmascarar problemas sérios de saúde mental como depressão, ansiedade, perturbação alimentar e uso ou abuso de substâncias. Penso que podemos presumir que a vivência psicológica dos atletas face à covid-19 pode ter efeitos semelhantes. É importante que os treinadores, diretores e médicos da equipa, assim como os atletas e as suas famílias, entendam que as reações emocionais a este tipo de crise são normais. No entanto, as reações mais problemáticas são aquelas que não resolvem ou pioram com o tempo, ou onde a gravidade dos sintomas parece excessiva, daí a importância do acesso ao apoio psicológico especializado nas áreas do desporto e clínica. É importante estar ciente dos sinais e sintomas comuns para vários problemas de saúde mental e entender os recursos disponíveis para tratá-los. Deve-se fazer todo o possível para “desmistificar” os problemas de saúde mental associados a estas situações e permitir que os atletas entendam os sintomas e os normalizem. Também é importante que os treinadores apoiem os atletas feridos e façam o possível para os manter envolvidos e coesos com a equipa. Isso pode incluir manter os atletas envolvidos e, ao mesmo tempo, incentivá-los a procurar ajuda e não tentar “atravessar” esta situação que inclui impacto na saúde mental dos atletas.

É importante nos clubes ser garantido aos atletas, sobretudo nesta fase de pandemia, apoio psicológico?

Penso ser fundamental que os clubes e os organismos do desporto disponham deste tipo de apoio especializado, quer ao nível da otimização da performance, quer ao nível da promoção da saúde mental, literacia e prevenção do bem-estar psicológico. Contudo, o atleta tem fatores de proteção e recursos internos resilientes que, seguramente, serão um fator protetor nestes momentos difíceis.

Acha que algum atleta está preparado para esta situação?

Penso que ninguém está verdadeiramente preparado para este tipo de acontecimento. Contudo, o ser humano é resiliente e, por definição, os atletas desde muito cedo são “obrigados” a desenvolver a capacidade de serem conscientes, focados e felizes na adversidade.

Que conselhos deixa à população quanto aos exercícios físicos que deve fazer e onde?

Todos nós deveríamos acumular, pelo menos, 150 minutos por semana de atividade física aeróbia de intensidade moderada (ex. marcha rápida) ou vigorosa (ex. corrida). Neste contexto é-nos muito difícil fazer isso. Contudo, com criatividade, e mesmo nas nossas casas, existem várias formas de praticarmos atividade física: por exemplo até cinco períodos de 30 minutos ou sessões de 20 a 25 minutos todos os dias. Caso não consiga atingir, devemos lembrar-nos que pouco é melhor do que nada! Mesmo períodos tão curtos como 10 minutos trazem benefícios para a saúde. Aproveite-os para aumentar a sua atividade física e acrescentar outros tipos de atividade física. Por exemplo: incentive a sua família/ amigos a caminharem consigo em casa, use as escadas! Até onde for capaz... Use a bicicleta se for possível, crie um grupo de caminhada domiciliária e procure motivar e partilhar os seus exercícios com os seus familiares e colegas, identifique atividades que ache apelativas e experimente novas por observação e acompanhamento online (música, meditação, tai chi, ioga), monitorize os seus progressos. Pedómetros, aplicações de telemóvel e ou smartwatches. Brincar com as crianças também é considerado uma forma criativa de atividade física - por exemplo, jogar às escondidas e apanhadas em casa - e de saúde mental. A meditação ou treino mental, através da respiração e exploração consciente das sensações corporais quando caminhamos, pode ser uma solução. Até porque a mente é um músculo que precisa de ser treinado e a respiração consciente e abdominal é um passo muito importante na redução de stress e gestão da angústia emocional.

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