Autor

Joaquim Alexandre Rodrigues

30 de 07 de 2022, 09:00

Colunistas

Águas verdes, águas turvas e petro-estados

Uma viagem que começa nas águas da barragem de Ribeiradio, passa pelas águas turvas do meu Sporting e termina nas águas de bacalhau dos petro-estados

1. A água da barragem de Ribeiradio está verde. O biólogo Paulo Pereira, que tem uma casa com vista para a albufeira, disse ao Jornal do Centro que não é a primeira vez que tal acontece e, com as alterações climáticas, a tendência é que passe a ser “o novo normal” no rio Vouga. Já está a acontecer o mesmo em vários dos nossos rios: quando há muito calor, durante muito tempo, a água aquece e as algas multiplicam-se.
Em princípio não há problema para a saúde e, quando vier uma chuvada valente — quem a cá dera! —, a água fica de novo azul.

O mesmo descanso não sente o meu sportinguismo ao saber que Álvaro Sobrinho, antigo número um do BESA (Banco Espírito Santo de Angola), para além de ter ajudado Ricardo Salgado a drenar o divino espírito santo português, também ele, o sportinguista Sobrinho, segundo o Ministério Público (MP), “com o propósito de ajudar o clube de futebol, consumiu os fundos existentes na conta do BESA, apropriando-se” de quinze milhões de euros.
Isto é, as águas verdes do meu clube estão turvas, mas, neste caso, a culpa não é das algas.

2. Ciclicamente, o preço do petróleo trepa nos mercados internacionais e, durante uns tempos, os países produtores atulham os cofres e os países importadores esvaziam-nos. Estamos a viver um período desses. Não vem daí nenhum mal especial ao mundo. Pelo contrário, até pode ser positivo se apressar a transição para as energias renováveis.
É certo que, com o barril do petróleo nos cem dólares, os ditadores dos petro-estados têm um influxo extra de dinheiro.
Parte dessa riqueza serve para melhorar a vida dos cidadãos e isso é bom, até os martirizados venezuelanos já estão a sentir algum alívio. Outra parte é roubada e acaba por regressar ao Ocidente. Isso é péssimo para os povos que são espoliados, isso é péssimo para as democracias. Apodrece-as.

É que esta gente, com os seus bolsos sem fundo, contrata os grandes advogados de negócios para tornear as leis, faz disparar o preço do imobiliário, foge aos impostos, offshora recursos, compra caro decisão política, compra barato opinião nos media e nas universidades, corrompe tudo o que pode.
Londres antes do Brexit era conhecida como Londongrad e, como se tem visto, parte das elites políticas e empresariais alemãs está no bolso do Kremlin. Portugal também tem sido contaminado, no nosso caso não por oligarcas russos nem por sheiks árabes mas por angolanos.
Para além de Álvaro Sobrinho, com os seus ridículos 400 mil euros em relógios, lembremos o tapete vermelho que foi sempre estendido a Isabel dos Santos em tudo quanto é instituição portuguesa, não esqueçamos o esdrúxulo caso de Manuel Vicente, que foi vice-presidente de Angola depois de ter sido o número um da Sonangol, a quem o nosso MP achou indícios para acusar de corrupção activa: terá pago 700 mil euros a um Procurador da República para obter uns despachos favoráveis.
Essa acusação irritou muito os nossos políticos e ainda mais os ex-políticos que se dedicam aos negócios. Quem sabe o que a casa gasta não ficou surpreendido por, meses depois, a acusação a Manuel Vicente ter ficado em águas de bacalhau. De certeza que foi em águas de bacalhau do bom, do da Noruega, país que também tem petróleo mas não é um petro-estado governado por cleptocratas.