Autor

José Carreira

16 de 06 de 2024, 13:10

Colunistas

Cuidar sem amarras: quebrar o tabu e mudar de atitude

Estamos na presença de um círculo vicioso e, de certo modo, paradoxal. Aplicam-se as contenções físicas para que as pessoas idosas não caiam, acelerando a deterioração física e psicológica, aumentando o risco de queda

Temos pela frente uma maratona, com um trajeto complexo e repleto de desafios. O tiro de partida foi dado na conferência “Cuidar Sem Amarras: A urgência de um novo modelo de cuidados”. Foi um primeiro momento, importante, para quebrar o tabu que caracteriza a abordagem ao uso de contenções mecânicas e farmacológicas, no nosso país. Temos que ser transparentes e procurar alternativas a práticas, anacrónicas e desumanizadas, que atentam, em muitas situações, contra a dignidade e os direitos humanos de quem se vê privado da sua liberdade e autonomia. Joana Aroso, advogada, apresentou a comunicação “A contenção de idosos à luz da Dignidade da Pessoa: algumas reflexões” e alertou: “A utilização da prática da contenção, nomeadamente em pessoas idosas, seja mecânica, seja farmacológica, está prevista na legislação apenas em circunstâncias de excecionalidade e de inexistência de alternativas menos gravosas. Em face da evidência científica da existência de práticas alternativas, impõe-se nova reflexão e o progressivo abandono da prática da contenção, por não ser consentânea com a Dignidade da Pessoa humana. “
Estamos na presença de um círculo vicioso e, de certo modo, paradoxal. Aplicam-se as contenções físicas para que as pessoas idosas não caiam, acelerando a deterioração física e psicológica, aumentando o risco de queda. Muitos profissionais, como podemos constatar em alguma (escassa) literatura científica, temem ser acusados de negligência, se uma das pessoas que cuidam cair. Não é despiciendo observar que um dos principais motivos de hospitalização das pessoas idosas são as quedas. Uma preocupação exacerbada pelo fato de o número de pessoas institucionalizadas, que vivem com demência, ser cada vez mais frequente. O que vamos continuar a fazer? Prevendo-se que, em poucos anos, 80% das pessoas institucionalizadas tenham demência, vamos atá-los todos? A formação é a chave para a mudança que se impõe. É fundamental qualificar as equipas das estruturas dos cuidados que têm de ter pessoal qualificado e com capacidade para interagir junto de pessoas com demência: Estruturas Residenciais Para Pessoas Idosas, Centros de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário, cuidados de saúde primários, no contexto hospitalar e na rede nacional de cuidados continuados integrados. A reorganização interna e a adequação dos espaços físicos são fatores decisivos para a implementação do modelo de cuidados centrado na pessoa, afastando, definitivamente, o modelo de instituições totais (Erving Goffman, In Manicómios, Prisões e Conventos, 1961).
Em termos dos equipamentos sociais, além da qualificação dos profissionais, também é necessário fazer algumas mudanças do ponto de vista ambiental, para que as pessoas com demência se sintam mais orientadas, confortáveis e seguras nos espaços, e terem ocupações significativas, fundamentais para o seu bem-estar. Na conferência, o médico André Rodrigues, Presidente da Associação dos Médicos das Pessoas Idosas institucionalizados (AMIDI) e Médico coordenador das Residências emeis Portugal apresentou a comunicação "Contenção Física em Idosos - Qual a realidade das ERPI em Portugal?" e informou que a utilização de contenções físicas em Portugal são um problema nas instituições, explicou os motivos para que estas ocorram, deu nota das questões éticas implicadas, das consequências destas práticas e dos benefícios que resultam da eliminação das contenções. A sua comunicação deixou claro que, sendo um processo demorado e que requer um enorme esforço, é possível de concretizar. Não se consegue de um dia para o outro, requer persistência e método e, acima de tudo, uma mudança de atitude e de formação inicial e contínua especializada. "A contenção, mecânica ou farmacológica, no cuidado é um indicador de como cuidamos. Se existe contenção, não estamos centrados na pessoa.” (Dra. Ana Urrutia Beaskoa, Presidente da Fundación Cuidados Dignos). A médica geriatra, autora da Norma Libera-Care, é uma ativista de referência em Espanha e, muito provavelmente, a par de Antonio Burgueño, médico e diretor do Programa Desatar a Pessoa Idosa e o Doente de Alzheimer, a grande responsável, na última década, pela mudança de paradigma no cuidado. Desatar é o motor da melhoria, com influência em múltiplos processos de cuidado, traduzindo-se em instituições livres de contenções, cumprindo metas de qualidade, além de todas as implicações de carácter humano e ético que decorrem do esforço de evitar usar contenções. Queremos, nas Obras Sociais Viseu, com o apoio da Fundación Cuidados Dignos, contribuir para a criação de um novo modelo de cuidados centrado nos direitos das pessoas e tendo por base a Estratégia Europeia de Cuidados para cuidadores e beneficiários de cuidados, apoiando a aplicação dos princípios consagrados no Pilar Europeu dos Direitos Sociais. Este novo modelo baseia-se na atenção centrada na pessoa onde, logicamente, não cabe o cuidado com contenções.
“A prestação de cuidados diz-nos respeito a todos. Cria o tecido que une as nossas sociedades e liga as nossas gerações. Ao longo da vida, nós e os nossos entes queridos necessitaremos de cuidados ou prestaremos cuidados.” (Estratégia Europeia de Prestação de Cuidados)