Autor

José Junqueiro

07 de 06 de 2024, 11:25

Colunistas

Europa, eleições em tempo de guerra

É necessário olhar para o que se passa em cada um dos países. Os ventos de mudança em Portugal, com o advento expressivo do Chega, projetaram a extrema direita

As eleições europeias estão a ser disputadas em tempos de escolhas decisivas. A participação e vontade dos eleitores de cada estado-membro vão reconfigurá-la. Pode estar próximo o fim do bipartidarismo, tal como o conhecemos, que tudo decide entre o maioritário PPE, Partido Popular Europeu, e S&D, Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas.
Os outros, em síntese, vão dos liberais e centristas (RE), passando pelos eurocéticos e nacionalistas (ID), família do Chega, ambientalistas e progressistas (Verdes/ALE), conservadores e reformistas (ECR) até aos que representam partidos de esquerda e movimentos sociais (GUE/NGL). Serão 705 deputados eleitos por 373 milhões de europeus, por sufrágio universal e direto, durante cinco anos, nos 27 estados-membros. 

Dito isto, é necessário olhar para o que se passa em cada um dos países. Os ventos de mudança em Portugal, com o advento expressivo do Chega, projetaram a extrema direita. Para nós é uma “novidade”, é a “fase da “revelação”, na terminologia de Vicente Valentim, mas nos restantes países europeus é uma realidade em desenvolvimento conhecida e consolidada. 
Como os grupos parlamentares europeus não resultam da união de países, mas sim de representantes de partidos políticos afins, é natural que à direita, por agregação do PPE com os conservadores e liberais ou estes com os eurocéticos e nacionalistas (mais improvável), se forme uma nova aliança que reconfigure os espaços tradicionais do PPE e do S&D, socialistas e democratas. Neste contexto, o S&D poderia deixar de ser o parceiro habitual do PPE, família do PSD e do CDS. A ser assim – e mesmo que não seja – tudo será diferente com o crescimento da direita mais radical. 
Concretizando, Ursula von der Leyen pode não voltar a ser a “Senhora Europa” e António Costa pode não acontecer e, no seu caso, acresce ainda a irritante dificuldade decorrente da intervenção da PGR. 

Também o apoio à Ucrânia pode conhecer mais retrocessos. Já hoje é difícil à Nato decidir e pôr no terreno em tempo útil meios adequados a um suporte eficaz. Tudo é penoso, incompleto e inaceitável.
Imaginemos, agora, o crescimento dos “Viktor Orbán” europeus e, depois, no final do ano a possível vitória de Trump. É bem possível que o corajoso 
Zelensky tenha de escolher entre a boleia que rejeitou ou negociar perdas de soberania num país cada vez mais destruído. Seria dramático ...
Estas são as eleições mais importantes deste século. É necessário refundar o ideal Europeu, reformar a construção europeia e defendê-la de alguns que a integram e que a ela concorrem para a fragilizar e questionar a sua existência. Como é possível manter dentro, por exemplo, a Hungria de Viktor Orbán?
Depois da sua vitória nas eleições de 2010 remodelou o Tribunal Constitucional, mandou centenas de juízes para a reforma, nomeou os que entendeu, e adotou uma nova Constituição. (in “A Ditadura adaptada ao Século XXI, como os novos tiranos se reinventaram” de Sergei Guriev e Daniel Treisman). Fixou novas regras no sistema eleitoral em 2014 e conseguiu obter 93% dos lugares com 45% dos votos. Uma nova vitória em 2018 foi interpretada como um “mandato para construir uma nova era”, assumindo o controlo de centenas de jornais, reescrevendo o currículo escolar e expulsando de Budapeste a Universidade Centro-Europeia fundada por George Soros.
Em 2019 Bruxelas enviou-lhe 5000 MM de euros, segundo o New York Times, que distribuiu por um sistema clientelar de amigos e familiares. Eram dirigidos à terra e, a preço simbólico, vendeu-lhes milhares de hectares do Estado para receberem dezenas de milhões de euros em subsídios. Lorinc Mészáros foi um deles, um velho amigo de Orbán, multimilionário dos media. 

Viktor Orbán, um ditador da manipulação, é um apoiante de Putin e o político europeu que mais contesta o apoio à Ucrânia. A Putin ligam-se outros políticos europeus, nomeadamente Marine Le Pen, que obteve em 2014, de um pequeno banco ligado ao Kremlin, 9 milhões de euros para a sua Frente Nacional ou, para não ser exaustivo, o italiano Matteo Salvini do LEGA, que discutiu com os russos um acordo para encaminhar milhões de dólares (“foi aberto um inquérito por corrupção”). Putin elogiou Salvini dizendo mesmo que mantinha com ele um “contacto constante”.
Entre nós, neste momento, apesar das sondagens, não é possível prever um resultado final, mas é obrigatório apelar, por tudo o que acima ficou dito, a que todos os cidadãos que defendem uma Europa coesa e livre, bem como os estados de direito democrático, vão votar no próximo Domingo. A democracia, o estado de direito democrático e a paz na Europa não são, como se vê, irreversíveis.