Autor

David Duarte

17 de 07 de 2021, 08:40

Colunistas

Fragmentos de um Diário - 11 de Agosto de 1976

Não avalio o que escrevo. Nunca gosto. Limito-me, algumas vezes, a aceitar. Outras, simplesmente, risco tudo e esqueço

A surpresa veio primeiro. Ao chegar ao trabalho, ainda de lágrimas nos olhos pela minha presença não esperada, a minha tia interrogou-a. Num ápice, ela forjou uma justificação: a mãe tinha sido hospitalizada de urgência. Precisava de uns dias de dispensa, que poderiam ser descontados nas férias, que, aliás, começavam na próxima semana. As lágrimas convenceram. Tudo se arranjara. Antecipavam-se as férias e também o retorno ao trabalho. Portanto, estava de férias e por uns dez dias. Não me contive, e com ela ao colo, levantei-me para dar duas ou três voltas rodando sobre nós. A seguir, expôs o plano. Ela tinha as chaves de um apartamento em Almada de uma prima emigrada na Suíça. De vez em quando tinha o encargo de o arejar e dar uma limpeza. Precisava, no entanto, de ir a casa buscar as chaves, avisar e tratar com a família de um assunto sério, que não me revelou. Àquela hora, acreditava que em pouco mais de duas horas despachava a tarefa. Combinou-se que eu ficaria no Terreiro do Paço, talvez no café do Martinho da Arcada. Quem sabe se um lugar tão marcado de pergaminhos literários não me serviriam de inspiração, disse ela, a sorrir. Assim se fez. Com alguma reverência entrei no Martinho da Arcada. Nunca lá tinha entrado, só do lado de fora passara, sempre curioso pelas figuras que poderiam lá estar. Mas poucas mesas se encontravam ocupadas. Pude escolher uma, à vontade. Pedi um café e abri o caderninho do diário. E pus-me a escrever as últimas frases, mas o meu desejo era arriscar o esboço de um poema. E, sem torcer muito a inspiração, quase sem corrigir, saiu-me o que se segue:

Caminho devagar na chuva dos dias.
Ao longe um barco no limiar do desejo
ou dos teus lábios em ferida
que altiva desenhas ao espelho.
Dizes: para quê tantas palavras
se a vida está para além delas.
E eu acredito e isso me basta.

Não avalio o que escrevo. Nunca gosto. Limito-me, algumas vezes, a aceitar. Outras, simplesmente, risco tudo e esqueço. Mas estava comovido por ter escrito no mesmo café frequentado por Fernando Pessoa. Gostaria de algum modo ter pressentido a sua presença. Mas não. Presente só o meu apreço pela sua poesia, sobretudo do heterónomo Alberto Caeiro.