Autor

David Duarte

26 de 03 de 2021, 18:07

Colunistas

Fragmentos de um Diário - 19 de Junho de 1975

Tenho adiado a descrição da minha despedida da Fátima. Tive de lhe explicar os motivos da vinda para Viseu

19 de Junho de 1975

Tenho adiado a descrição da minha despedida da Fátima. Tive de lhe explicar os motivos da vinda para Viseu. Ela entendeu as preocupações da minha mãe relativamente aos meus estudos. Ela entendeu sobretudo que era o fim de tudo, dos nossos encontros, do nosso namoro. Prometi-lhe que, ao acabar o liceu, iria estudar para uma faculdade em Lisboa. Ela escutou-me, mas sem convicção. Como se a origem dela, o seu estatuto social, a sua família, a minha, as nossas expetativas, tudo nos separasse para sempre e irremediavelmente.
Falávamos no jardim ao lado da feira da ladra. Pouca gente, apenas alguns velhos entretidos num jogo de cartas. E nós os dois, de mãos dadas, sentados com vista para o Panteão, que contemplávamos como se nele se fechasse o túmulo do nosso adeus. Por fim, gastaram-se-nos as palavras, e caiu sobre nós o silêncio e a indiferença do casario. Por mim, ficaríamos ali como estátuas até o fim do mundo. Mas ela propôs que fossemos à pensão dos indianos. Aceitei. Ela foi a correr ao trabalho justificar a ausência da tarde por motivos inadiáveis de saúde. A minha tia, que chefiava o centro, intuiu a verdade e por compaixão aceitou.
O nosso encontro realizou-se sob o signo da melancolia. Amámo-nos com um desejo embrulhado em lágrimas e silêncios. Por fim, ela sussurrou que lhe restava a esperança de poder ter um filho meu. Interpretei o desabafo apenas como tal. Mas como pode o coração de um ser humano comportar tanto amor e tanta paixão é para mim um mistério.
Prolongámos até o limite a hora da partida. Depois foi ela que tomou a iniciativa de sairmos. Contemplámos o quarto da pensão, a cama, os lençóis, a mobília, a cor das paredes, os quadros vulgares pendurados, os candeeiros de cabeceira, os bibelôs, o chão forrado de tapetes gastos e madeira encerada, para que se incorporassem na memória do nosso amor, como se temêssemos que este se desmaterializasse sem este enquadramento. E olhámos um para o outro demoradamente. Demoradamente. Depois fui no autocarro até Odivelas. Sempre de mãos dadas saímos na paragem devida. Mas nenhum de nós se dispunha à iniciativa da despedida. E foi ela que sugeriu uma outra estratégia. Entrámos de novo num autocarro para Lisboa. Disse-me que preferia que fosse eu a descer primeiro. Ela continuaria a viagem de regresso a casa. Assim se fez. Quando cheguei ao meu destino, desci e ela permaneceu sentada. Logo de seguida, o autocarro arrancou. Oh! a dor de a ver olhar-me num longo adeus de lágrimas.

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