Autor

Pedro Coutinho

04 de 01 de 2022, 12:13

Colunistas

Pensamentos, sentimentos e um desejo para o futuro

Passo a simplificar: é estúpido discutir aos berros sobre algo que não conhecemos com alguma profundidade

Tenho andado às voltas com um pensamento recorrente sobre este novo fenómeno de ultra-opinião coletiva sobre questões técnicas que escapam ao senso comum. Falo das opiniões sobre vacinas, sobre virologia e sobre saúde pública. Assisto incrédulo à argumentação dos nãoespecialistas sobre a composição dos imunizantes e sobre os estudos de controle realizados pelos laboratórios.

É admirável a forma como se consegue argumentar para lá do que se conhece através das opiniões vistas no ecrã. São opiniões fabricadas a partir de opiniões… Trata-se de uma manifestação impressionante da capacidade humana de trabalhar para lá da ciência, navegando no ocultismo, criando narrativas aparentemente coerentes sobre assuntos que ignora. É o novo enciclopedismo, o de um super MacGyver doutorado em vazio, um novo super-homem que nada sabe e que é incompetente para saber disso. No caso, penso que podíamos esforçarmo-nos para não discutir sobre assuntos que desconhecemos. No meu caso, evito falar de futebol, por exemplo, uma vez que ignoro os preceitos científicos do treino desportivo, bem como as metodologias de análise estratégica desse desporto. Nunca tive estudos superiores em desporto. Obviamente que gosto de falar de tudo, sempre com a perspetiva de aprender com aqueles que sabem mais do que eu… Do mesmo modo, aprendi desde cedo a manter as discussões com os meus colegas da área da saúde no campo do respeito pelo seu conhecimento específico, permitindo-me colocar questões e agradecer a sua partilha de raciocínios.

Passo a simplificar: é estúpido discutir aos berros sobre algo que não conhecemos com alguma profundidade. Ainda assim, esse tem sido um dos fenómenos da atualidade. Todos achamos que a vacina, sim, senhor, ou que o confinamento, não, senhor, ou que a máscara isto e aquilo… seria importante lembrarmo-nos que a ciência falha, mas que, ainda assim, é a nossa maior criação. Antes da ciência, houve quem resolvesse problemas agrícolas com sacrifícios humanos, entre milhões de outras enormidades que só a ignorância justificava…

No caso, este barulho de fundo parece traduzir sentimentos comuns de largas fatias de população. No entanto, até essa ideia é, no mínimo, paradoxal. A ideia de um sentimento experienciado por mais do que um punhado de pessoas livres é um conceito bastante estranho. É estranho, na medida em que um sentimento resultará de “uma perceção de um certo estado do corpo, acompanhado pela perceção de pensamentos com certos temas e pela perceção de um certo modo de pensar”, isto de acordo com as palavras de António Damásio. Ou seja, um sentimento será algo complexo, diferente de emoção e diferente de pensamento, único de indivíduo para indivíduo no seio da sua própria complexidade de cada momento. Fazendo fé neste posicionamento das neurociências, rapidamente esbarramos num ponto interessante: como se consegue este efeito aparente de sentimentos coletivos?

Penso que devemos estar a falar de pensamentos coletivos e não de sentimentos. Na verdade, trata-se de pensamentos gerados por construções narrativas que despertam emoções e não necessariamente sentimentos. Uma imagem de gatinhos desperta uma emoção agradável, do mesmo modo que uma imagem de carnificina desperta emoções de repulsa em indivíduos equilibrados.

Acredito que as discussões de que falamos não traduzem verdadeiramente os sentimentos de quem nelas se envolve; do mesmo modo que não traduzem conhecimento e pensamento profundo sobre os temas. Nem são sentimentos, nem são pensamentos relevantes…

Trata-se de um processo bem mais superficial de grande emoção amplificada por um oceano de mensagens carregadas de diferentes narrativas. E são essas narrativas que constroem uma rede de pensamentos que, apesar de parecer complexa, na verdade corresponde a muito poucas linhas. Parece-me que não estamos perante uma expressão significativa de opiniões de indivíduos que expressam os seus sentimentos individuais, mas perante linhas narrativas facilmente identificáveis onde todos acabam por encaixar, como grandes rebanhos.

Acredito que, grande parte do nosso conhecimento do mundo é, na verdade, uma construção de narrativas, sendo que a outra parte é esse processo interior de sentimentos individuais. Não é muito difícil de perceber que essas narrativas são significativamente construídas a partir de imagens e palavras. O grande desafio que poderá resolver este quebra-cabeças, poderá passar pela escuta dos sentimentos individuais. Acredito que o passo seguinte da humanidade terá de ser através de uma educação mais voltada para o autoconhecimento desses sentimentos, para a tomada de consciência da sua individualidade. Quando soubermos ler o que sentimos, podemos finalmente dar lugar a pensamentos coerentes e organizados que possam contribuir para um lugar melhor. Se pensasse num desejo para o novo ano, seria este: que todos sejam profundamente capazes de se ler e de reconhecerem que o medo é frequentemente o sentimento que mais nos consome. Só aí podemos ser corajosos e aprender, dando lugar a pensamentos elevados que nos tornem melhores.