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08 de 07 de 2024, 10:41

Cultura

Júlio Pereira dá a cara pela ACERT… e neste caso também uma perninha com Selma Uamusse e a Sociedade Filarmónica de Tondela

É no Tom de Festa que Júlio Pereira lança o seu mais recente disco acompanhado de um livro, trabalho intitulado “Rasgar”. No dia 10 de julho, o “direito à festa” atesta o reconhecimento e consagração da obra deste músico. No mesmo dia, após o lançamento, Júlio Pereira sobe ao palco para participar no concerto “Em cantos de Abril”

“Rasgar” é uma prática do cavaquinho, mas este trabalho também rasga com fronteiras ao convocar outros artistas. Qual a relação entre os músicos e este trabalho e o qual o propósito?
É mais simples do que tudo isto. A minha primeira e principal preocupação quando fiz este disco foi compor para cavaquinho, mais a pensar em quem gosta de tocar cavaquinho. Ou seja, deixar repertório feito para aqueles que mais tarde quiserem aprender a tocar cavaquinho. Depois, o facto de aparecerem convidados como a Selma Uamusse e Luanda Cozetti isso já tem a ver com uma espécie de uma vertente minha que são os aspetos ligados à lusofonia. Praticamente em todos os meus discos, África sempre teve presente.

O que é que apareceu primeiro, o disco ou o livro. O disco precisava do livro para complementar a importância do cavaquinho?
Curiosamente o disco, mas o meu promotor – o José Moças – teve a ideia de que ele deveria sair num formato de livro. Obviamente, aí pus-me a pensar do que é que havia de tratar o livro e então liguei a um etnomusicólogo que vive em Toronto - Nuno Cristo – e lancei-lhe o desafio de contar a história do cavaquinho numa cronologia ao contrário, ou seja desde os dias de hoje até à informação mais remota e, simultaneamente, estabelecer um cruzamento daquilo que é a minha relação com este instrumento que já data desde 1979. O que este livro mostra é tudo o que está ligado à prática do cavaquinho em Portugal. Por exemplo, a partir do lançamento do disco “Cavaquinho” em 1981, houve um grande movimento de músicos a tocar e a formar grupos, fenómeno que só me apercebi, aliás, cerca de 15 anos depois.

Este ainda não é o livro biográfico do Júlio Pereira?
Não, não. São apenas os momentos onde eu me cruzei profissionalmente com o cavaquinho. Eu começo a tocar cavaquinho, ainda ninguém ouvia falar praticamente falar deste instrumento, numa altura em que começo a trabalhar com o José Afonso. Ora, o José Afonso no período de 1979 até 1981 fez muitos concertos em Portugal e no estrangeiro e eu toquei em 151 concertos. Ou seja, eu começo praticamente a tocar cavaquinho no estrangeiro e ganhei uma experiência tal que me apeteceu continuar a trabalhar nele e foi, assim, que aconteceu o disco de 1981.

Há vários tipos de cavaquinho?
O mais conhecido ou o que mais pessoas conhecem é aquele que eu toco, o cavaquinho minhoto. Mas Portugal foi muito rico noutras épocas. No século XIX e início ao século XX houve um cavaquinho provavelmente anterior ao minhoto, aquele que se chama normalmente cavaquinho urbano que era construído em Lisboa, Coimbra e Porto. Foi um cavaquinho que nos princípios do século XX acabou por ir morrendo, mas que, curiosamente, de há cerca de uma década para cá começou a nascer a vontade de tocar. Estou a lembrar-me, por exemplo, do Paulo Bastos que foi a primeira pessoa a fazer mestrado em cavaquinho na Universidade de Aveiro. Já a prática da Madeira é com um instrumento que se chama braguinha que, no fundo, é um cavaquinho urbano.

Mas, por exemplo, aqui na região da Beira há um tipo diferente de cavaquinho? E há muitos tocadores no país?
Não, não. Aliás, o cavaquinho que se foi alastrando do norte para o sul é o cavaquinho minhoto. E sim, há cada vez mais tocadores em Portugal. Por exemplo, o distrito de Viseu tem para aí 20 grupos de cavaquinho. De facto, o cavaquinho foi-se alastrando e a nível amador há muitos grupos e também há músicos que a nível profissional começaram a agarrar o cavaquinho como o Daniel Pereira ou Amadeu Magalhães.

E como o público no estrangeiro recebe quer a história, quer a sonoridade deste instrumento?
Talvez a experiência maior que tenha é precisamente tocar cavaquinho no estrangeiro e sempre foi a experiência mais gratificante porque há muitos países que têm a prática destes instrumentos, as chamadas violas pequenas. O Brasil, Cabo Verde e depois com outro nome, mas também com grande ligação em Portugal, através da Madeira, o ukulele que os Estados Unidos exportaram para todos os países do mundo… Isto para explicar que em muitos países há à prática deste tipo de instrumento. Não estamos a falar do cavaquinho, mas sim de instrumentos organologicamente diferentes mas que todos eles têm lá qualquer coisa que fazem criar grandes comunidades de tocadores.

A construção do cavaquinho já está inscrita como Património Cultural Imaterial. Segue-se agora o reconhecimento pela UNESCO?
É nisso que estamos a trabalhar, mas não é uma coisa fácil. Cada candidatura tem processos próprios e, neste caso concreto da comunidade ligada aos cavaquinhos, estamos a falar de uma comunidade que está a crescer e a crescer também geograficamente e torna-se mais difícil até fazer um inventário mais correcto e rigoroso.

Mas este processo está em que fase?
Estamos a iniciá-lo e como tudo demora o tempo que demorar. A Associação do Cavaquinho está com este grande desafio, mas tem outros como por exemplo a criação de um método de cavaquinho que, editado pelas escolas superiores de música, dê a possibilidade de haver cursos de cavaquinhos nos conservatórios. Eu próprio não quero morrer sem deixar isto feito. É difícil porque para fazer um trabalho deste género há sempre um factor financeiro que é mais complicado e fazer um método de cavaquinho implica muito trabalho de muito rigor.

Vamos agora falar um pouco sobre o espetáculo “Em Cantos de Abril”, como ele surgiu e a sua ligação com a ACERT…
Fiquei contente que o Zé Rui me tivesse feito este convite de fazer uma perninha com a Selma. Sabe, eu acredito sempre na ACERT. Já aqui toquei várias vezes e o que eles aqui fazem acaba-nos sempre por surpreender. A minha ligação com a ACERT já vem desde o início. Já trabalhei muito com a Associação, conheço o Zé Rui desde jovem, ainda não existia a ACERT. Dou a cara pela ACERT. E agrada-me ir tocar com alguém que estou a gostar de conhecer que é a Selma. Na realidade nunca tocámos ao vivo. Só para o disco que é sempre diferente de tocar ao vivo. E isso apetece-me muito.

Quantos cavaquinhos tem? Gosta de variar?
Não gosto de variar, não creio que haja músicos instrumentistas que gostem de mudar de instrumento. Estas coisas são muito idiossincráticas, muito pessoais. Nós habituamo-nos a determinado instrumento e parece que não temos de facto nem o prazer físico quando tocamos outro. Claro que tenho muitos porque sou uma espécie de colecionador.

E está prevista tourné para o “Rasgar”?
O livro demorou muito tempo a fazer e a sair. Já saiu tarde e pensei que seria melhor começar a tourné no princípio do ano. Portanto, a partir de Janeiro estarei a tocar o “Rasgar”.