Carlos Eduardo

07 de 07 de 2024, 11:00

Desporto

Este é um lugar onde se dá cultura ao desporto

A ACERT é um dos polos culturais mais relevantes do país. Por Tondela a cultura é rainha, mas o desporto também reina. Este é um lado menos conhecido da ACERT, mas há dezenas de atletas que praticam escalada e karaté há vários anos. Os responsáveis pelos núcleos de desporto deixam uma garantia: os valores da instituição cultural são passados para os atletas

“Nem só de pão vive o homem”. É uma frase que ouvimos desde sempre. E em Tondela, na ACERT, cumpre-se esta máxima. Nem só de cultura se faz esta associação que levou o concelho tondelense e o distrito de Viseu aos quatro cantos do país e até em digressões internacionais. Hoje, a ACERT tem dois núcleos de desporto: o karaté e a escalada. Mas já chegaram a ser mais.

Tomané Gouveia, o Tomané da ACERT, é responsável pelo núcleo de karaté. Há 14 anos que dirige a modalidade que ajudou a fundar por ali. “Já treinava na Associação de Karaté de Viseu. Fizemos uma proposta à ACERT para abrirmos um núcleo e eu e outro colega ficámos por cá”, explica. Há quase década e meia que ACERT e karaté andam de braço dado. “Tem sido uma parceria que dá frutos e conseguimos manter atletas a competir ao longo do tempo”, explica, assinalando que esse é o maior troféu alguma vez alcançado. “Nós não andamos pela competição porque ela é redutora. A nossa abordagem é mais holística. Focamo-nos na formação das crianças, passar-lhes os valores, as regras. E nos adultos promovemos o bem-estar. O objetivo não é formar campeões do mundo, mas formar pessoas”, vinca.

Por ter notado sempre que as portas estavam abertas para o karaté na ACERT, Tomané Gouveia reitera que houve sempre por parte do núcleo a vontade de “manter os valores sociais e humanos” que a instituição cultural transmite. “É o nosso espírito. Não queremos passar por cima de ninguém. E a ACERT é o parceiro ideal para a nossa filosofia”, sustenta.

Melhor resultado é manter o clube de portas abertas, frisa Tomané
Aos dias de hoje, há 17 crianças até aos 13 anos a competir no núcleo de karaté da ACERT, que conta ainda com 10 adultos. “O mais novo tem cinco anos, o mais velho, 60”, confirma o responsável. Tomané não tem dúvidas de que “o melhor resultado que temos é manter o clube de portas abertas em média com trinta atletas por temporada”. “Há até quem nos procure indicado por psicoterapeutas. Nesses casos, a maior competição que podem ganhar é virem treinar. Conseguimos dar-lhes estabilidade e progresso. É a nossa medalha. É o nosso troféu”, reforça o líder do karaté da ACERT. “Digo muitas vezes aos atletas que nem todos podemos ser Ronaldos, mas todos podemos ser melhores jogadores do que fomos ontem”, enfatiza.

Tomané assinala que o fracasso é algo inato. “Lidamos sempre com ele. É o mais certo que temos na vida. Nós lembramo-nos sempre mais do que nos correu mal do que aquilo que nos correu bem. Há aliás um ditado japonês que refere que há que cair sete vezes e levantar oito. O fracasso, a queda, acontecem. Temos é de continuar a tentar”, indica.

Novas gerações têm dificuldades a nível motor, lamenta responsável pelo núcleo de karaté
Há 25 anos na modalidade, Tomané Gouveia já acompanhou várias crianças e jovens no karaté. Hoje, lamenta, há muitas dificuldades motoras em idades precoces. “É muito difícil encontrar uma criança com 10 anos que consiga dar uma cambalhota. Outra dificuldade que têm é distinguir entre esquerda e direita. Não é apenas nas escolas que algo falha. É a sociedade. Antes brincávamos na rua, hoje não. Antes fugíamos dos pais para jogar à bola na rua, hoje os pais pagam para os filhos jogarem futebol. Aparecem-nos crianças que não conseguem saltar. Há crianças que estão incapazes do ponto de vista motor”, lamenta.
Mas as diferenças não se ficam por aqui. “As crianças hoje estão muito frágeis e caem muito com o insucesso. Se não conseguem executar uma tarefa, ficam frustradas rapidamente. Têm tendência a dizer que não conseguem”, explica.

Desde os 15 anos que Tomané pratica artes marciais. “Enquanto puder, assim vai ser. O karaté traz-me autoconhecimento. É um questionamento interior. Desafiamos os nossos limites, concretizamos, acrescentamos outros. É um desafio constante”, acrescenta.

Tomané Gouveia confessa que não dá para viver do karaté e “não há resultados para levar à Câmara”. O que lhe enche a alma, sublinha, é “o feedback dos praticantes e dos pais”. “É isso que nos dá vontade de treinar”, sublinha Tomané Gouveia.

Um café tomado há vinte anos foi o ponto de partida de uma escalada que ainda hoje se cumpre
De Vila Nova de Famalicão a Tondela são, seguramente, quase duas horas de carro. Foi em Tondela que o minhoto Nelson Cunha foi colocado como professor de educação física há quase vinte anos. E Tondela é hoje a casa daquele que ficaria na história como o fundador do núcleo de escalada da ACERT. “Quando cheguei apercebi-me de que não tinha parceiros de escalada na zona e quis dinamizar aqui a modalidade”, recorda. Na escola onde foi colocado havia uma parede de escalada e a história começou aí a ganhar forma.

“Senti logo simpatia pela ACERT. Então fiz-lhes uma proposta para criarmos um núcleo de escalada. Tudo começou com uma reunião de sete pessoas no café da associação. E essas sete pessoas perduraram no projeto durante algum tempo”, explica Nélson Cunha. O café, o tal café que fundou tudo isto, foi tomado há vinte anos.

O responsável assume que ao longo das duas décadas o núcleo de escalada viveu altos e baixos. Os primeiros anos foram como que um início de prova: a parede foi sendo escalada. “Os primeiros tempos foram de progressão e já sabemos que o associativismo passa por ciclos. No início há entusiasmo. Equipámos o Caramulo com vias de escalada. Existiam três, chegámos às 35. Havia encontros, como o Escaramular, um misto de escalada com Caramulo. Juntavam-se cerca de quarenta pessoas uma vez por ano”, relembra.

Ao atravessar o calendário do núcleo, Nélson Cunha frisa que nos anos 2000 a escalada da ACERT ganhou diversos títulos nacionais. “Havia clubes com vinte ou trinta atletas e nós com dois ganhávamos. Estávamos na vanguarda, tanto no treino, como na organização de provas”, reforça.
Rafael Lopes e Hélder Marques foram dois ‘porta-estandartes’ do núcleo nos primeiros anos. Os atletas conquistaram títulos nacionais. “Diria que entre seis a oito atletas do núcleo já foram campeões nacionais de escalada”, afirma Nélson Cunha. Mas na história do clube há outro nome incontornável: Gustavo Cunha. “Foi muito consistente e focou-se neste desporto. Enquanto que outros atletas foram estudar ou trabalhar e desligaram um pouco da modalidade, o Gustavo fez uma opção muito radical, digamos. Foi campeão nacional quase todos os anos. Era, sobretudo, muito disciplinado e determinado. Houve uma fase em que o núcleo de escalada da ACERT se resumia ao Gustavo”, sustenta. Gustavo é filho de Nélson. A paixão pela escalada é de família.

Riscos assumem-se sem pensar em títulos
Numa modalidade que pressupõe conseguir subir um determinado obstáculo, seja ele uma parede ou uma montanha, há sempre riscos associados. Nélson Cunha assume-os e afirma que “a queda faz parte do jogo”. “A escalada envolve risco e passo sempre essa ideia. Enquanto um erro defensivo no futebol pode levar-nos a sofrer um golo, na escalada um erro de segurança pode dar origem a um acidente muito grave. Há vários tipos de escalada: no pavilhão, na natureza, em grandes montanhas. Há diferentes níveis de risco. As pessoas têm de perceber o nível de risco que querem assumir”, explica.

Ainda assim, Nélson garante que “quando bem praticada, a queda é segura”. “Não é cair ao chão, é cair e ficar suspenso numa corda. O Gustavo Cunha, por exemplo, deve cair em 90% das vezes porque se desafia. Cai muito mais do que eu. Ele está sempre no limite”, vinca.

Chegar ao topo é o objetivo, sem ter os títulos como algo imperativo. “A ACERT tem a filosofia de que o importante é formar os jovens e os títulos vêm por arrasto. E eu também penso assim. Os títulos são consequência de fazer as coisas bem feitas. Nunca foi uma obsessão, nem a primeira prioridade. O essencial é que as pessoas aprendam a praticar escalada”, defende.

Escalada e teatro da ACERT já se juntaram
Nélson Cunha lembra que o foco nunca foi ter muitos atletas a praticar escalada na ACERT. “Gosto que venham experimentar a modalidade e, depois, decidam o que querem fazer. É uma modalidade que não é gostada por toda a gente. Sei que não é um desporto de massas”, reconhece. Nélson explica que em média há 15 atletas a praticar escalada na ACERT e acrescenta que hoje a modalidade está “em franco crescimento, mesmo a nível mundial”. “É muito mais conhecida”, frisa.

Assumindo a paixão pelo lado mais natural da vida, Nélson Cunha revela uma ligação de há anos pelos desportos de natureza. “Adoro tudo o que seja rios, montanhas, neve. Não sei explicar porque é que a escalada é a modalidade que mais me motiva. A escalada permite-nos alimentar a ilusão de que estamos sempre a evoluir”, confessa.

Numa tentativa de unir cultura e desporto, Nélson Cunha lembra um ponto alto desta junção do núcleo com a associação. “Houve peças de teatro que envolviam cordas e alturas e levei alguns atletas a participar. Lembro-me de um espetáculo de ópera em que tive atletas pendurados em cordas. Foi espetacular”, elogia.
A olhar para uma modalidade que, reforça, está em crescimento, Nélson Cunha pede um novo olhar para as instalações de escalada na região. “Está na altura de requalificar os pontos de escalada”, pede.