Carlos Eduardo

22 de 06 de 2024, 10:00

Desporto

Fábio, o homem que no futsal distrital mais vezes trata o golo por tu

Não há quem marque mais do que Fábio Lourenço nas últimas três épocas no futsal distrital de Viseu. Fez 130 golos entre 2021 e 2024 pelo Rio de Moinhos. Só na época que agora terminou fez 49 remates certeiros. Cobiçado por outros clubes de patamares acima, jura fidelidade ao clube de Sátão. Numa carreira que até começou no futebol de 11, o atleta diz que o segredo é ter confiança na hora de rematar à baliza. Garante também que precisa mais dos colegas de balneário do que a equipa necessita dele

“Um é casual. Dois, pode ser, aconteceu. Cinco?”. A expressão é de Jorge Jesus e referia-se ao número de lesões dos jogadores do Flamengo. Mas, neste contexto, até encaixa bem. E até Jesus concordaria. Com Fábio Lourenço não foram cinco, mas três. Por três anos consecutivos o jogador do Rio de Moinhos sagrou-se o melhor do futsal distrital. Começa a não ser casual, nem um acaso. Mas nem por sombras quando começou a jogar futebol na rua, em Moure de Madalena com o Farofa, o Mercado, o Kiko ou o Cascas – sim, era no tempo em que havia alcunhas – sonhou tornar-se um craque na hora de rematar à baliza. Nos últimos três anos fez 130 golos.

Só na época que terminou há poucas semanas fez 49 golos pelo Rio de Moinhos. Ficou a um do número redondo. “Falhei dois penáltis. Se marcasse um, chegava aos 50”, lamenta Fábio. E de todos os quarenta e nove golos, houve um, um, que guardará para sempre. “Marquei de pontapé de bicicleta contra a Sampedrense. Já não me lembro se foi o quarto golo do jogo. O meu guarda-redes apanhou a bola, repõe rápido, eu já estou a correr e a bola bate no chão antes de chegar perto de mim. Domino de peito e faço o pontapé de bicicleta”, descreve. Foi a 3 de fevereiro na vitória por 6-0. Fábio fez dois golos.

Calcanhar, bicicleta… só falta o cabrito
“Já marquei de calcanhar, de letra. Nestes golos é preciso uma boa dose de confiança. É preciso acreditar que o consigo fazer. Há um gesto que faço muitas vezes no treino e que, no jogo, nem sempre sai: um cabrito”, descreve. Para o leitor menos familiarizado com os termos desportivos, um cabrito é gesto que pressupõe que a bola passe por cima do jogador adversário e que, depois, seja recuperada por quem executou o ‘toque de craque’. “Num dos treinos, com o nosso guarda-redes na baliza, fiz um cabrito e fomos medir a altura. A bola atingiu dois metros e 50 centímetros de altura”, detalha Fábio.

O jogador confessa que, este ano, nunca teve na mente um objetivo mínimo de golos a conseguir. “O foco era fazer sempre o meu melhor: a marcar ou não. A minha média estava nos quarenta golos e, no início da época, pensei que não chegava lá. A época não começou da melhor forma, foi atípica, a pré-época também não foi boa”, afirma.

Além de um início de época nada promissor, o jogador do Rio de Moinhos não esquece quando, ao longo da época, foi ouvindo que havia mais jogadores à procura do estatuto de melhor marcador da Divisão de Honra. “Foi nessa altura que voltei a despertar. E acabei por conseguir”, reconhece.

Ainda hoje, com 30 anos de idade e mais de uma década enquanto jogador sénior, não consegue explicar porque marca tantos golos “Sempre joguei no ataque. Talvez marque muitos golos porque tenho mais confiança do que outros jogadores na hora de marcar à baliza”, afirma. Em 2021/22 apontou 41 golos, na época passada fez 40. Este ano esteve a um remate certeiro de atingir a meia centena de golos. João Ferreira, do São Martinho de Mouros, fez menos 14 golos. Luís Lopes, do Pedreles, foi o terceiro melhor marcador, com 32 golos.

Primeiros pontapés na bola foram dados no futebol
Como num golo, que começa a construir-se de trás, Fábio Lourenço recorda que a carreira de desportista até começou no futebol de 11. “Foi no Viseu e Benfica, em juvenil. Fiz uma época e por acaso gostei, mas mudei para o futsal, com dois primos. Jogávamos sempre juntos, na rua, entre amigos. Fomos os três e, logo no primeiro ano, fomos campeões pela Casa do Benfica de Viseu”, recorda. Entre uma modalidade e outra, há muito que as separa. “As táticas, a forma de defender, a disciplina. São desportos diferentes”, confirma.

Depois de afirmar-se como jogador de futsal, Fábio Lourenço tem hoje a noção de que trocar o futebol pelo futsal foi uma escolha acertada. “Gosto de ver futebol de 11, mas gosto mais ainda de ver futsal. É a modalidade que, com muitas aspas, foi feita para mim. Eu gosto de ter bola e no futebol de 11 não a consegues ter tanto tempo como no futsal”, justifica. “Gosto de ver os esquemas táticos e perceber como as bolas paradas são trabalhadas no futsal. É tudo executado ao pormenor”, concretiza Fábio.

Durante o percurso, que incluiu passagens por Viseu 2001, Pedreles, Mêda, Moimenta da Beira, Casa do Benfica de Viseu, ABC de Nelas e, agora, Rio de Moinhos, há sempre histórias que ficam na memória. Mas são lembradas como se tivessem acontecido num confessionário. E, por isso, ficam lembranças e segredo. O que não é segredo é Fábio Lourenço jogar com o pé esquerdo. “Sempre fui canhoto, mas tanto marco com o pé esquerdo como com o direito. No futsal há mais jogadores destros, mas, nesta modalidade, como há tanta rapidez, os jogadores rematam com o pé que tem mais à mão, como se costuma dizer”, afirma.

“Nesta fase da minha vida, para além do desporto, quero sentir-me bem”, afirma
O primeiro título sénior de campeão distrital de futsal foi ganho ao serviço do Rio de Moinhos, em Moimenta da Beira. “Esse jogo ficou-me na memória porque conseguimos vencer o campeonato, apesar de termos perdido. Há outro que lembro por ter a família toda na bancada. Foi numa final de Taça em que ganhámos 5-4 ao Armamar e fiz quatro golos”, destaca. No baú está um encontro frente ao clube do coração. “A Associação de Futebol de Viseu criou uma seleção e fomos jogar contra o Benfica, um amigável”, detalha.

Com números que rondam os quarenta golos por época, em média, é natural que haja equipas interessadas em contratar. Mas na cabeça de Fábio Lourenço, não há, para já, outro clube, que não o Rio de Moinhos. “No ano passado tive propostas de equipas que jogam campeonatos nacionais e acabei por ficar. Sinto-me ali bem. Nesta fase da minha vida, para além do desporto, quero sentir-me bem. Tenho amigos no clube e sinto-me realizado. Claro que ser melhor marcador era ser campeão e o título foge-nos há dois anos. E é isso que quero: voltar a ser campeão pelo Rio de Moinhos”, frisa. Para já, o objetivo é ficar mais um ano. Na próxima época, “logo se vê o que aparece”.

Paixão pelo desporto, trabalho e família obrigam a gestão de tempo
Tal como acontece com milhares de outros jogadores, de várias modalidades, Fábio Lourenço não vive do desporto. A paixão pelo futsal tem de ser dividida com um horário de trabalho. “Sou comercial de acessórios de alumínio. Passo o dia a ouvir pessoas e tenho dois treinos por semana no clube. Por vezes não é fácil conciliar porque não faço só Viseu. Ando também por Aveiro, Águeda, Figueira da Foz. Tem alturas em que cá estar à hora do treino é difícil. Mas nunca deixo de treinar, mesmo que chegue em cima da hora. O pessoal arranca para o Sátão e eu vou lá ter. Dá-me mesmo gozo treinar, nem que seja vinte minutos, meia hora”, sublinha.
Apesar de competir numa liga dita amadora, há compromissos firmados com o desporto e com o clube. E, por isso, há também outros afazeres que ficam… por fazer. “Abdiquei de muita coisa, sobretudo convívios familiares. Não fui a festas de anos, não fui a fins de semana com a minha mulher. Tudo o que as pessoas que têm o fim de semana livre, fazem”, confessa.

Apesar disso, tem ao lado alguém que entende que o desporto ocupa um lugar especial. “A minha mulher percebe e, por isso, estou-lhe grato. Incentiva-me a fazer mais um ano. E claro que tudo fica mais facilitado”, reconhece. Vários anos volvidos, não há ponta de arrependimento.

Já a olhar para a próxima época, e reconhecendo que o São Martinho de Mouros foi a equipa mais regular e, por isso, mereceu o título de campeão distrital, Fábio Lourenço promete um Rio de Moinhos a lutar pelo campeonato. “A Divisão de Honra de Viseu está a viver um dos melhores momentos. Há cada vez mais equipas com qualidade e muito competitivas. A arbitragem também está a um nível elevado. Vejo muito talento, jogadores que querem evoluir”, vinca o atleta.

Com uma média superior a dois golos por jogo e a quarenta golos por época, Fábio Lourenço garante ao contrário do que se possa pensar, é ele quem vai buscar apoio à equipa. “Os meus colegas não esperam muito de mim. Quando eu deixo de acreditar, eles acreditam por mim. Se virem que estou a ir abaixo em qualquer momento, são eles a apoiar-me. Quando eu digo que não vou marcar num determinado jogo, dão-me tanta força, que acabo por fazer golo”, confessa. Nos últimos três anos, a história repetiu-se 130 vezes.