Carlos Eduardo

16 de 06 de 2024, 14:02

Desporto

''Gostávamos de sentir mais carinho e reconhecimento. Há terras com maior dimensão do que São Pedro e não estão na Primeira''

Não há na região outro clube a competir numa primeira divisão. A Academia vai para a quinta época seguida a jogar entre os maiores da modalidade. Na hora do balanço, o presidente do clube apela a mais reconhecimento dos adeptos e entidades oficiais. Adelino Amorim lamenta o fim da equipa masculina, mas sublinha a aposta no feminino. Objetivo é no futuro próximo ombrear com os dois maiores do andebol feminino. Vem aí novo treinador e não é português

Fotógrafo: Município de São Pedro do Sul

Em São Pedro do Sul compete a única equipa do distrito de Viseu numa Primeira divisão, seja de que modalidade for. A Academia de Andebol de São Pedro do Sul, que conseguiu a subida à Primeira Divisão de andebol feminino na época de 2019/20, tem garantido a manutenção e, mais do que isso, tem alcançado os primeiros lugares. O feito desportivo alargou-se, por isso, à Europa e a Academia é a única equipa do distrito de Viseu a competir em solo europeu, olhando para a totalidade das modalidades.

Adelino Amorim é, por isso, um homem feliz e satisfeito com o caminho trilhado. O presidente da Academia de Andebol de São Pedro do Sul afirma que há, por parte dos outros clubes, a noção de que o trabalho feito em São Pedro do Sul é "sério". "Dizem-nos que estamos a contribuir para a modalidade, independentemente de estarmos no interior", enaltece.

O homem do leme explica que o grande objetivo passa por conseguir ombrear com as duas equipas profissionais que militam na Primeira Divisão de andebol feminino: o Benfica e o Madeira SAD. Por isso, confessa, chegar ao pódio é "a meta possível". "Ainda não podemos competir com equipas profissionais. O meu sonho é ombrear com estas duas equipas e estamos mais perto disso”, garante.

Época histórica com final inédita
Adelino Amorim assume a frustração por não ter visto a Academia de Andebol de São Pedro do Sul terminar a Primeira Divisão esta época nos três primeiros lugares. A equipa sampedrense foi quarta classificada na divisão maior do andebol feminino português. “Falhámos por pouco o objetivo do terceiro lugar na Primeira divisão. Há coisas que, às vezes, não correm bem. Este ano, correu menos bem. É uma página que se virou, vem aí uma nova época”, assinala. Apesar de sentir que algo ficou por fazer para que o pódio fosse atingido, o presidente da Academia lembra que "outro dos objetivos era chegar à zona europeia e conseguimos".

Mas a temporada 2023/24 haveria de ficar na história do clube. A equipa sampedrense atingiu pela primeira vez uma final de uma prova nacional. E o destino quis que a final-four da Taça da Federação de Andebol de Portugal (FAP) fosse jogada em São Pedro do Sul. Aí, a Academia só foi travada pelo agora campeão nacional, Benfica. “O ponto mais alto da história do clube foi a chegada à final-four da Taça da Federação de Andebol de Portugal. Até porque além da final-four, fomos finalistas. Para uma terra com esta dimensão, chegar a uma final, qualquer que seja a modalidade, é sempre prestigiante é um ponto alto, sem dúvida”, explica Adelino Amorim.

A equipa sampedrense conseguiu, portanto, duas final-four consecutivas em provas nacionais diferentes. Na época passada, a Academia chegou às meias-finais da Taça de Portugal, este ano atingiu o mesmo patamar competitivo na Taça FAP. E na Taça de Portugal deste ano, a equipa de São Pedro do Sul foi eliminada no prolongamento, pelo Benfica.
Na retina do presidente está o facto de, nesta época que agora terminou, não ter conseguido construir uma equipa forte para aguentar as dificuldades que vão acontecendo ao longo dos meses. "Nalguns casos, as jogadoras não corresponderam às expectativas. O objetivo era alargar as escolhas com mais qualidade. Aumentámos um pouco o orçamento para dar mais qualidade a um ‘sete’ que já era forte”, frisa.

Equipa masculina deixou de competir, aposta forte no andebol feminino
A época desportiva do clube começou com uma novidade que abalou o andebol distrital. A equipa masculina da Academia de São Pedro do Sul deixou de competir. “Estamos num país pequeno, os clubes amadores não têm meios financeiros e a Federação acrescentou uma divisão intermédia, a Divisão de Honra. Não defendo isso. São custos demasiados para as possibilidades dos clubes. E foi a razão maior de termos acabado com a equipa masculina. Do que sobrou, tentámos construir uma equipa feminina mais competitiva", assinala o presidente da Academia.

Adelino Amorim lamenta que a Federação de Andebol de Portugal não tenha olhado para a realidade de todos os clubes. O presidente da Academia afirma que "é muito fácil estar sentado a uma cadeira e decidir se vai haver mais uma divisão, ou não" e atira que "é preciso entender que Portugal é um país pobre que apoia muito pouco o desporto". "Isto não é futebol: aí é muito fácil criar uma divisão de honra. No andebol, num clube com a nossa dimensão, com viagens à Madeira e aos Açores, correndo o país de lés a lés, numa segunda divisão em que os custos são elevados e não há visibilidade como uma Primeira divisão, não é viável. Se continuasse a existir uma segunda divisão, dividida entre norte, centro e sul, poderíamos ter equacionado manter a equipa masculina. Por isso decidimos apoiar forte na equipa feminina”, justifica.

Academia terá novo treinador… e não é português
O presidente confia, então, que o andebol sénior feminino da Academia terá condições este ano para fazer um melhor campeonato. "Se formos ver o passado das atletas, a equipa vai estar mais bem apetrechada. Mas nesta altura, falamos apenas de plantel. A equipa é outra coisa. A base está lá e depois contratámos mais jogadoras que nos vêm ajudar muito”, diz, deixando a certeza de que os escalões de formação vão começar a ganhar mais espaço na instituição.

“Estamos a equacionar fazer uma equipa B. Assim, as jogadoras que saem da formação não ficam perdidas e não acaba o percurso delas. Chegar a uma equipa principal, seja na Academia, ou em qualquer outra equipa, muito poucas conseguem. Temos jogadoras com qualidades para nos vir a ajudar no futuro. É com esse intuito que vamos fazer a equipa B. O facto de treinarem e jogarem com atletas da Primeira Divisão, vai acrescentar-lhes”, elucida.

A equipa técnica também vai sofrer alterações. Desde logo no treinador principal. Carlos Pires, que terminou a época enquanto líder do balneário, vai deixar o cargo de treinador, mantendo-se na estrutura. " O Carlos Pires é alguém muito válido, que conhece muito bem a modalidade", vinca.

O nome do homem que se segue ainda não pode ser revelado e as novidades só devem ser conhecidas no final do mês. Para já, o presidente da Academia deixa escapar que o novo treinador não é português. "É alguém muito experiente internacionalmente. O facto de não ser português acaba por abrir-nos os horizontes também no caso da prova europeia", explica o presidente da Academia.

Presidente pede mais apoio aos adeptos e a quem tem responsabilidades
No arranque de uma nova temporada, o presidente do clube de São Pedro do Sul pede aos adeptos e aos sampedrenses que apoiem a equipa. “Passo a passo, devagarinho, com toda a resistência do mundo, vai aparecendo mais gente nos jogos. De ano para ano a assistência aumenta no pavilhão. E esse é o caminho. É para essas pessoas que se faz uma equipa na Primeira e que levamos a terra delas mais longe. É a única modalidade que leva o nome de São Pedro do Sul a todo o país e ao estrangeiro", lembra Adelino Amorim.

"Acho que as pessoas de São Pedro do Sul não nos apoiam tanto como deveriam. Gostávamos de ter, por parte da população, mais carinho e reconhecimento por tudo o que fazemos. Não é pouco. Se virmos, há terras com maior dimensão do que São Pedro do Sul e não estão na Primeira. Capitais de distrito, incluídas. E dá que pensar porque é que alguns sampedrenses e até pessoas com algumas responsabilidades políticas e desportivas, não aparecem, não apoiam. Fazem muito pouco. É mau, mas temos de viver com esta realidade”, lamenta.

Na hora do lançamento de uma nova temporada, Adelino Amorim deixa um apelo também aos árbitros. "É com muita pena que sinto que, por sermos do interior, somos prejudicados pela arbitragem. Não sei se as pessoas só queriam estar no seu cantinho, no litoral e não terem de deslocar-se ao interior. É o que sinto. Se calhar estou a ser injusto. Sabemos que temos de ser muito melhores do que os outros. Se não corre-nos mal. E é pena que assim seja porque o interior está desertificado. Se calhar nem meia dúzia de equipas em todas as modalidades estão numa Primeira divisão", acrescenta.

“Gasta-se tanto dinheiro mal gasto”, defende Adelino Amorim, que apela por mais ajuda nas deslocações ao estrangeiro
O presidente da Academia de Andebol de São Pedro do Sul pede também mais apoios ao Estado, sobretudo na hora de voar para competições internacionais. "Queremos passar o maior número de equipas possível na Europa. Há dois anos tocaram-nos equipas da Turquia. Há falta de apoio do Estado em relação às equipas amadoras. E há muitas. Há muitas equipas que vão representar o país", recorda Adelino Amorim.

O líder da Academia sustenta que "conforme há dinheiro para os clubes se deslocarem à Madeira, deveria haver um plafond para irem ao estrangeiro representar Portugal". "Nós, quando vamos, não representamos só São Pedro do Sul, vamos representar Portugal. E era de bom tom que as equipas dispusessem de 14, 15, 20 mil euros para fazer um percurso europeu. Gasta-se tanto dinheiro mal gasto”, atira.

A equipa sampedrense vai para a quinta época consecutiva na Primeira divisão de andebol feminino. Na temporada que terminou há poucos dias, a Academia terminou o campeonato em quarto lugar, com 37 pontos, os mesmos do Colégio de Gaia, que foi terceiro. Nos registos fica a presença na final-four e final da Taça da Federação de Andebol de Portugal e a eliminação aos pés do Benfica nos quartos de final da Taça de Portugal, no prolongamento.