IP3 santa comba dão
gnr_isolamento_idosos_-10
Serranias 1
aluguer aluga-se casas
Casas Bairro Municipal Viseu 3
casa-habitacao-chave-na-mao - 1024x1024

No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…

21.08.25

Reza a lenda que foi um árabe, há mais de mil anos,…

14.08.25

Seguimos caminho por Guimarães, berço de Portugal e guardiã de memórias antigas….

07.08.25
jose-damiao-tarouca-232
ps campanha
camapnha10
vinhos adega vila nova tazem
palacio do gelo natal 2 1
Moimenta com Sabor_Maçã2024
Home » Notícias » Desporto » Por amor à fé, eles enfrentam, todos os anos, o jogo das suas vidas

Por amor à fé, eles enfrentam, todos os anos, o jogo das suas vidas

pub
 Município de Vila Nova de Paiva cria festival para se “colocar no mapa”
30.03.24
fotografia: Jornal do Centro
partilhar
 Município de Vila Nova de Paiva cria festival para se “colocar no mapa”
30.03.24
Fotografia: Jornal do Centro
pub
 Por amor à fé, eles enfrentam, todos os anos, o jogo das suas vidas

Como se a Fé aquecesse ainda mais as almas, por estes dias, milhões de muçulmanos, em todo o mundo, cumprem o mês mais sagrado. E purificador, nas palavras de Mamadu Sall e Papy Diop, dois senegaleses que professam, em Viseu, a fé muçulmana. Com eles estão milhões de outras pessoas a viver um dos meses mais desafiadores em que, desde que nasce o sol até anoitecer, durante o Ramadão, não podem comer, beber ou fumar. Ramadão tem origem na palavra árabe “ramida” que poderá querer dizer “calor severo”. Numa outra leitura, Ramadão pode aproximar-se à ideia de um calor que queima os pecados.

Mais do que as restrições, os crentes confiam que este é um mês de reencontro e de gratidão a Deus. Os muçulmanos acreditam que este foi o mês em que as escritas do Corão, o livro sagrado desta religião, foi revelado a Maomé, o último profeta do Islão. “Este mês é o mais importante do nosso calendário. É vital para o Islão. É de reflexão e de piedade. Permite-nos unir-nos e juntarmo-nos na mesquita durante a noite para conviver, socializar, dividir as refeições. Olhar aos mais necessitados e os menos privilegiados. Este é um período de reflexão para crescer e renascer espiritualmente”, diz Papy.

Neste dia, o calor apertava, mas a fé continua inabalável e o Ramadão é para cumprir do início ao fim. O jejum, conta, começou a cumprir quando fez 16 anos. Cinco anos antes iniciou a caminhada neste momento fundamental na vida de um muçulmano. “Foi uma fase de aprendizagem. Os meus pais incentivaram-me a começar desde bem cedo. Não o fazia na totalidade. Em vez de ficar o dia todo sem comer, fazia apenas uma refeição até à noite”, explica, lembrando a fé muçulmana é a dominante no país onde nasceu.

O jogador que alinha atualmente na Sampedrense, clube que está na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Viseu, garante que ele e Deus têm uma relação inabalável. “A minha religião é fundamental na minha vida. Está ligada à cultura. Deram-me uma educação para poder viver na sociedade. Deram-me fé. E a fé é muito importante na vida. Alguém com fé consegue ultrapassar as dificuldades e os momentos menos bons. Deram-me também o respeito. Na sociedade, para conseguir viver com as pessoas é preciso muito respeito. Seja a cor da pele, a sexualidade, género, a cultura, etnia. A minha religião ajuda-me bastante a poder adaptar-me em todo o lado, no mundo”, sublinha.

Portugal sempre o acolheu. A ele e à religião, garante Papy
Papy reconhece que “não é fácil adaptarmo-nos a um país e sermos de uma religião minoritária”. Além do Ramadão, há outros aspetos que, num país em que a alimentação à base de carne de porco e de vinhos afamados de norte a sul do país, podem dificultar a vida de um muçulmano. Mas até agora, vinca, tudo correu bem. “Tento adaptar-me. E acumular fé, trabalho e futebol. O facto de não beber álcool, ou de não comer carne de porco não é fácil, mas as pessoas respeitam isso. No clube, quando há jantares, quando temos de comer algumas coisas, preocupam-se sempre por me trazer alguma coisa que não carne de porco e dão-me outra bebida que não alcoólica. São coisas fundamentais para mim”, revela.

E na hora de orar, há que arranjar alternativas. O importante, diz, é nunca deixar Deus de lado. “Tenho de adaptar-me. Se não conseguir orar naquele momento, espero por chegar a casa. A religião é exigente, não nos exige a fazer sempre, sempre, as orações na mesma hora. Quando há obrigações no trabalho podemos rezar quando tivermos tempo. O mais importante é não ficar sem rezar”, atira.

O jogador de 34 anos, que completa 35 no dia 24 de abril, entende que “a religião e a vida devem ser uma combinação perfeita”. “A religião é simplesmente um modo de viver: tanto espiritual, como socialmente”, concretiza. A viver há vários anos em Portugal, tendo já representado clubes como Carvalhais, Penalva do Castelo, Lixa, Sátão, Ferreira de Aves, Sernancelhe, Lusitano de Vildemoinhos, Silgueiros e Parada, Papy salienta que nunca sentiu qualquer barreira para viver em pleno a fé muçulmana. “Sempre a professei com tranquilidade. Com a ajuda das pessoas com quem lido: tanto no futebol, como no trabalho. As pessoas respeitam sempre, sempre, a minha religião. E isso dá-me uma motivação extra para viver com a minha fé”, afirma.

Há quase três mil quilómetros a separar Viseu do Senegal. E é longe da família, como acontece há vários anos, que, tal com o Papy, Mamadu Sall celebra a fé em Deus. As saudades, confessa, são muitas. Mas a fé une-os. E a tradição familiar unida a Alá aliviam esse sentimento que só em português se consegue escrever, mas que é sentido por qualquer mortal.

Mamadu garante que fé muçulmana transmite sentimento de unidade e de respeito por todos
No dia em que gravámos a entrevista, Mamadu, que joga no Carvalhais e luta pela subida à Divisão de Honra de Viseu, esteve sem comer desde as 4:50h da madrugada até às 18:42h. No total, 14 horas de sacrifício. “As pessoas acham que quando cumprimos o Ramadão estamos fracos, mas não”, garante o senegalês que vive há mais de uma década em Portugal. Foi aos sete anos que Mamadu começou a perceber o que envolvia o mês mais especial para a fé muçulmana.

“É o mês em que aproveitamos para nos purificar, para limparmos os pecados. O nosso profeta Maomé pediu a todos os muçulmanos que cumprissem o Ramadão”, acrescenta. E assim foi e é e será. Sobre a referência maior e única, Mamadu Sall lembra que Maomé disse antes de morrer que “todos os muçulmanos são irmãos: sejam brancos, pretos, qualquer cor”. “Somos todos irmãos”, sublinha. É precisamente o sentimento de unidade que leva Mamadu a afirmar que a religião é como que um ponto seguro. “A minha religião é tudo para mim. Eu respeito todas as religiões. Todas, todas, mesmo. A minha é muito especial. Sou muito fiel a ela. É difícil exprimir em palavras. Não sei como explicar. Dá-nos um sentimento de comunidade, de respeito por todas as pessoas, acrescenta.

Além de não poderem comer, nem beber nada, nem água, há no Ramadão – como em todos os dias da vida de um muçulmano – cinco momentos de oração ou meditação diários. “Rezamos sempre, mas neste mês a reza parece que mais valor. Este mês, por ser purificador, é mais valorizado. Não temos de rezar sempre na Mesquita. Como há cinco rezas por dia, pelo menos numa os muçulmanos de Viseu reúnem na Mesquita”, frisa.

É no templo sagrado que, então, tenta ir, pelo menos uma vez por dia. O senegalês de 27 anos trabalha à noite. O turno começa às onze da noite e termina às sete da manhã. Antes de cumprir as obrigações laborais, há tempo para rezar. Tem de haver. “O tempo de duração da reza é conforme. Pode durar cinco minutos.

Depende da sura [cada capítulo do Alcorão]. Há suras mais longas, outras mais curtas”, explica. No momento da meditação, a oração é feita em direção à mesquita mais próxima. “Toda a gente no meu trabalho sabe que sou muçulmano e eu sou uma pessoa que gosta de cumprir as coisas. Na hora da reza, quando estou no trabalho, faço uma pausa. Aviso o meu chefe e dá-me dez minutos para rezar. Não tenho tido dificuldades para rezar”, assume.

Hora da reza é sagrada. Mesmo que o treino esteja quase a começar
A paixão pelo futebol também não pode ser deixada de lado, mesmo que as obrigações da ligação a Deus estejam mais presentes durante este mês do Ramadão. E para isso tem contado com a ajuda do treinador da equipa. A alinhar no Carregal do Sal, Mamadu Sall tem em Paulo Listra um ombro amigo. “É uma pessoa muito fixe. É espetacular. Gosta de ajudar toda a gente. É muito especial. É alguém que percebe as coisas e está sempre pronto para ajudar”, elogia.

O jogador reconhece que nos primeiros tempos não foi fácil ambientar-se a Portugal. “Não sabia a língua e as culturas de Portugal e do Senegal são muito diferentes”, explica. Preferindo sempre olhar para o copo meio cheio, Mamadu reconhece que “vai haver sempre quem te critica”, mas prefere salientar que “haverá sempre quem te vai ajudar”.

E Paulo Listra tem sido uma dessas ajudas. “À hora que ele tem de rezar, como é antes do treino, ele já estando no campo, vai para o balneário sozinho orar. Damos-lhe essa liberdade. E deixamos aquele espaço mais ou menos isolado, sem fazermos barulho e nem o interrompemos”, diz o técnico. Mamadu Sall foi o primeiro jogador muçulmano que Listra treinou. “Eu já o conheci. Treinou em Nelas quando eu lá estava e ficámos amigos. Acompanho o Mamadu há muito tempo. Estamos sempre em contacto. Somos mais amigos do que treinador-jogador. É alguém que me liga muitas vezes mesmo para falar de questões pessoais. Somos próximos”, sublinha.

E se os treinos decorrem à noite, mesmo que de estômago vazio e sem poder beber água, a temperatura ajuda mais do que nos dias de jogo em que o calor começa a apertar. Por isso, entre Listra e Mamadu há uma conversa antes de o treinador do Carregal do Sal alinhar a equipa inicial. “Tento perceber como é que ele está. Percebo se ele está ou não disponível para jogar. Comigo ele tem a liberdade para falhar o jogo. Evito sempre que tenha de ser sujeito a um esforço físico”, garante.

O técnico aplaude a postura do atleta. Sobre Mamadu, Paulo Listra vê-lhe qualidades como a honestidade e a simplicidade. “É também muito, muito sério. Tem jogado pouco e vai treinar bem-disposto, sem tratar mal ninguém. É um exemplo. Foi dos mais humildes que encontrei no futebol. Acaba por ser um lutador. Vindo de um país, em que não conhece ninguém, chega a uma cidade onde também não conhece ninguém. Trabalha à noite, joga futebol de dia. Já conseguiu trazer a mulher, tem um filho. É alguém realizado. Costumo dizer-lhe que o problema dele é ser boa pessoa. É gente muito, muito boa”, elogia.

Além das qualidades que lhe traçou, Listra lembra que no balneário, entre colegas de equipa e equipa técnica “brincamos muito com ele, com a questão da carne de porco”. Sempre sem pisar o risco do respeito, assegura. “E ele não dá hipótese. Segue mesmo à risca. Mesmo estando longe, conseguem cumprir. Têm uma fé inabalável”, elogia. Mamadu vai comemorar 28 anos durante o Ramadão. Não terá uma festa cheia de alimentos, nem sequer bebidas. O repasto, acreditamos, será interior.

pub
 Município de Vila Nova de Paiva cria festival para se “colocar no mapa”

Outras notícias

pub
 Município de Vila Nova de Paiva cria festival para se “colocar no mapa”

Notícias relacionadas

Procurar