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09 de 09 de 2023, 14:13

Diário

Quartos em Viseu (quando os há) custam muito, são pequenos e diferentes das imagens publicitadas

A falta de oferta de imóveis na cidade de Viseu é um entrave, nesta altura do ano, para os novos estudantes do Instituto Politécnico de Viseu que procuram um quarto onde morar por um preço acessível

Carolina tem 18 anos, vive em Aveiro e entrou na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) no ano letivo que vai agora começar.
Depois da realização dos exames nacionais, da saída das notas, da escolha das instituições possíveis para estudar no ensino superior e da espera para saber onde seria colocada, outra preocupação pautou o verão de Carolina: saber onde ia morar em Viseu. O processo para encontrar um quarto onde ficar começou com a ajuda de uma amiga que já se encontrava a estudar na cidade. A diferença, segundo explicou Carolina ao Jornal do Centro, é que, quando a amiga procurou casa, o preço das rendas de um quarto rondava os 170 a 190 euros, e agora, tudo o que Carolina encontrou encontrava-se acima dos 200 euros, com maioria a rondar os 250 euros.
Os quartos não só têm preços de renda mais elevados, como são escassos para tanta procura que surge nesta altura em Viseu, com a entrada dos estudantes no IPV. “Andei por Viseu à procura de folhetos com quartos para alugar e no IPV também havia uns panfletos a dizer que alugavam. Tirei o número e fui ligando, mas a maioria não estava disponível”, contou Carolina ao Jornal do Centro. Além da procura por quartos na cidade e no IPV, a jovem inscreveu-se em vários grupos no Facebook destinados ao anúncio de imóveis.
Foi graças a esta rede social que Carolina conseguiu encontrar um sítio onde morar, e onde partilhará o quarto com mais duas estudantes. Um senhorio enviou-lhe uma mensagem, por meio de um dos grupos, a dizer que tinha quartos para alugar. “Mostrou-me o quarto maior por 250 euros, no entanto, eu perguntei se tinha outro disponível nessa mesma casa ou se estavam todos ocupados, e mostrou-me um mais pequeno, porque o outro era extremamente grande, eram literalmente duas divisões”, contou. O quarto mais pequeno custava 230. No entanto, o senhorio dispôs-se a baixar o valor para 210, sob a condição de não passar recibo.
Com “as notícias a dizerem” que os quartos estão a ser alugados por preços elevados, Carolina já sabia o que ia encontrar no processo de procura de quarto para morar. Não deixa de considerar, contudo, que os preços estão “bastante puxados”. Outra questão preocupou a jovem durante este processo. A maioria dos quartos não apresentava, para Carolina, condições dignas. “As casas estão muito sujas. Acho que pela forma como as casas são apresentadas, os senhorios devem pensar ‘é para estudantes, portanto não interessa estar limpa’.”
Um dos quartos visitados por Carolina apresentava-se degrado pela humidade. Além disso, era “muito feio, com os fios à mostra e buracos nas paredes”. O homem que lhe mostrou o quarto explicou que a divisão seria renovada em duas semanas, mas, sem saber se tal seria possível ou não, a jovem recusou a oferta.
A maioria dos quartos disponíveis encontravam-se ou na zona de Jugueiros, junto da Escola Superior de Tecnologia e Gestão, ou na zona histórica, perto da Escola Superior de Educação. Após ver dois quartos perto da Sé de Viseu, situados no mesmo prédio, e de ver quartos perto do Fórum, Carolina acabou por ficar a morar num quarto situado na Avenida Alberto Sampaio.
Carolina não foi a única jovem com dificuldade em encontrar um quarto em Viseu. Além disso, embora este problema seja maior para os novos estudantes do Instituto Politécnico de Viseu, há quem, já residindo na cidade e a terminar os estudos no IPV, não conseguisse encontrar facilmente um novo quarto onde morar. Beatriz tem 20 anos, é de Moimenta da Beira e frequentará o terceiro ano num curso da Escola Superior de Educação.
A estudante teve de começar a procurar, em conjunto com uma companheira de casa, um novo sítio onde morar, após o senhorio informar que iria aumentar o valor da renda em 50 euros. O novo valor da renda, assim como o anterior, não cobriria as despesas com água, eletricidade e gás. Somando este preço com o valor das despesas da casa, e juntando os gastos mensais com a alimentação, o valor despendido pela estudante chegaria facilmente aos 400 euros mensais, explicou Beatriz ao Jornal do Centro.
A jovem afirma que, mesmo na transição do seu primeiro ano para o segundo ano em Viseu, passou a pagar “quase mais 100 euros” relativamente à primeira casa. “No primeiro ano fiquei um bocadinho longe da escola, mas mesmo assim foi bastante mais barata, à volta de 100 euros mais barata do que o que pagava no ano passado, e tudo isto sem despesas incluídas.”
Para quem já conhecia Viseu há dois anos, a procura de um novo sítio onde morar revelou-se uma tarefa “muito difícil”, mesmo tendo iniciado a nova busca por um sítio em junho. “Os preços estavam todos absurdos. Dentro das minhas possibilidades, não conseguia encontrar nada, e o que encontrava, quando ia visitar, não correspondia às imagens. As pessoas acabavam por colocar melhores ângulos para cativar mais quem procurava”, contou Beatriz.
“Eu entendo que as pessoas querem alugar, e há muita procura, então qualquer pessoa se sujeita a certas condições, mas eu visitei pelo menos duas casas em que as imagens eram bastante apelativas e depois cheguei lá e não tinha nada que ver”, explicou a jovem de Moimenta da Beira. Num dos casos, foi apresentado a Beatriz um quarto que não correspondia à imagem vista pela estudante.
Com Moimenta da Beira a cerca de uma hora de viagem de carro até Viseu, Beatriz teve de se deslocar várias vezes a Viseu durante o verão para procurar e ver quartos. “Muitas vezes ia embora sem conseguir arranjar nada”, explicou. Ao fim de várias tentativas, a jovem conseguiu ficar num quarto na zona histórica, perto da Sé de Viseu. O quarto custa-lhe 180 euros por mês sem despesas, uma vez que é o mais pequeno da casa, mas os restantes quartos custam 220 euros mensais.
A antiga companheira de casa de Beatriz, contudo, não teve a mesma sorte. Até ao final de agosto, as duas estudantes tentaram encontrar dois quartos na mesma casa de que ambas gostassem e que lhes permitisse continuar juntas este ano. A missão, contudo, revelou-se infrutífera. “Fica mais difícil para duas pessoas, porque normalmente só há um quarto disponível numa casa”, contou Beatriz. A colega acabou por ficar no mesmo sítio onde já se encontrava, resignando-se com o pagamento de mais 50 euros por mês.
Se, no caso de Carolina, um dos quartos visitados apresentava fios e buracos nas paredes, com a promessa de uma futura renovação, também Beatriz foi confrontada com uma situação semelhante. “Houve uma casa onde por acaso a esteve a tentar arranjar uma desculpa para a casa de banho porque estava um pouco degradada e tinha muita humidade. Ela dizia que aquilo ia ser composto, mas que ainda não podia dizer quando”, contou a jovem.

A lei do mercado a funcionar: pouca oferta gera um entrave na vida dos estudantes

A dificuldade em encontrar um novo quarto para habitar não se restringe apenas aos casos de Carolina e Beatriz. É um problema generalizado e causado, acima de tudo, pela falta de oferta de imóveis em Viseu para a procura que se tem registado.
No site Idealista, os quartos disponíveis localizavam-se, na sua maioria, no centro de Viseu. O preço, dependendo das especificidades do quarto, variava entre os 200 euros e os 360 euros. A maioria das opções, contudo, situava-se entre os 250 euros e os 300 euros. Num caso em particular, em que estavam disponíveis três quartos da mesma casa, os preços diferiam entre si. Uma divisão com janela custava 280 euros, uma com varanda subia para 300 euros, e, por fim, um “quarto premium com varanda” custava 330 euros.
No site OLX, a maioria dos quartos localiza-se igualmente no centro de Viseu. O quarto mais barato custa 180 euros, e situa-se no centro da cidade. O mais cura custa 275 euros, e está localizado em São Martinho de Orgens. Um quarto no bairro da Balsa custa 230 euros. Por seu lado, uma opção em Fragosela encontra-se disponível por 200 euros com despesas incluídas.
Relativamente ao preço do aluguer de imóveis relativamente ao ano passado, João Pereira, consultor da Habifactus, fala num aumento de quase 20%. “Há pessoas que conseguem alugar o apartamento e depois partilhá-lo com mais duas pessoas. O T3 pode ser partilhado com mais duas pessoas, embora, às vezes, para baixar o custo do apartamento, as pessoas optem por fazer da sala mais um quarto”, explicou o consultor.
A maioria dos clientes que pretende arrendar imóveis em Viseu, de acordo com João Pereira, são portugueses ou imigrantes do Brasil, e rondam os 35 anos. “Os portugueses são geralmente jovens que estão a sair de casa dos pais e que tentam ser independentes, embora isso hoje seja quase impossível. Entre o vencimento que ganham e aquilo que vão pagar de rendas, é extremamente difícil.”
Já em relação às zonas mais procurados, João Pereira, à semelhança de Carolina, explicou que estas são principalmente Jugueiros e a zona histórica. O consultor incluiu ainda a zona envolvente à Universidade Católica de Viseu e o bairro do Serrado. Muitas vezes, os estudantes optam, em vez de alugar apenas um quarto, por arrendar, em conjunto com conhecidos, um T2 ou T3.
João Azevedo, consultor da Remax, contou que a agência imobiliária já arrendou alguns apartamentos a estudantes em Viseu, através de contratos de arrendamento bipartido ou tripartido. Também ele fala numa oferta “muito escassa para a procura que se faz sentir”. À semelhança de João Azevedo, João Pereira explica que a maioria dos clientes que pretendem arrendar são ou estrangeiros, ou jovens adultos.
“Nós vamos ouvindo, e neste momento há muita gente em Jugueiros e na Quinta do Galo que faz os arrendamentos dos quartos na casa dos 250 euros, e depois com internet, luz e gás incluídos chega aos 300 euros”, contou o consultor imobiliário.