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23 de 06 de 2024, 10:00

Lifestyle

Estas são “aldeias ouro” do distrito de Viseu

São muitas as propostas que levam a conhecer os recantos mais genuínos do distrito de Viseu. Aldeias que se reencontram com o passado e que deixam intactas as memórias da sua identidade. São “aldeias de ouro” e aqui ficam duas sugestões para este fim de semana

Fotógrafo: Aldeias de Portugal

Pindelo dos Milagres - S. Pedro do Sul
Cheia de tradições beirãs e inovações que atraem forasteiros do resto do país, Pindelo dos Milagres é uma gema do município de São Pedro de Sul, com cerca de 400 habitantes dispersos por uma localidade pacata com pouco mais do que sete quilómetros quadrados. Aí se pode apreciar a paisagem florestal desse recanto do distrito de Viseu, o casario típico dos povoados rurais que orlam a emblemática e longitudinal Estrada Nacional 2, a hospitalidade das gentes que ainda tratam a terra e gostam de ver gente nova a passear por lá. O apego a esse povoado classificado como Aldeia de Portugal é tanto que, mesmo quando as opções de vida dos naturais de Pindelo os levam a viver noutras geografias, sejam elas em território nacional ou no estrangeiro, a dedicação ao berço mantém-se viva, assídua e dinâmica. É disso exemplo a equipa de residentes e emigrantes que, a cada ano, colabora para organizar na aldeia o evento que se tornou o seu ex libris cultural: o festival de heavy metal “Milagre Metaleiro”. Repartindo-se entre uma edição na Páscoa, outra no Verão e ainda iniciativas paralelas dedicadas ao mesmo género musical, o festival aumenta exponencialmente a densidade demográfica da aldeia em cada dia de programação e é inspirador apreciar o convívio que gera entre diferentes grupos sociais – num contraste que facilmente coloca jovens vestidos de couro negro, com tatuagens e piercings, em amena cavaqueira com idosos de boné, acabados de encostar a enxada à saída do quintal. No resto do ano, quando o povoado serena e regressa ao seu quotidiano normal, torna-se um cenário mais tranquilo, propício a percursos pedestres e visitas a pequenas explorações de fruto.

Alargando-se o passeio da aldeia propriamente dita à freguesia homónima que a acolhe, há também património edificado para apreciar: a igreja paroquial de Pindelo, a capela de Nossa Senhora dos Remédios, o santuário de Nossa Senhora dos Milagres com o seu carvalho centenário, o antigo pelourinho, várias fontes públicas e um parque de merendas ao qual se pode chegar com um piquenique à base da oferta de pão e pastelaria dos produtores locais. Por perto há ainda para conhecer a povoação de Rio de Mel, cujo nome cheio de imagética justificaria por si só uma visita, mas que é convidativa também pela sua capela de São Domingos e pelo troço de uma antiga estrada romana. Nesse roteiro cabem igualmente os chamados “moinhos de sumauga”, que, entre as rochas, sinalizam o local onde “se some a auga”, isto é, onde o precioso líquido não se consegue ver, mas se dá a ouvir, circulando em profundidade. Quanto à gastronomia de Pindelo dos Milagres, respeita a essência da região de Lafões, mostrando-se generosa na vitela assada, nos pratos de borrego e cabrito, no arroz de coelho e, às vezes, até no antigo “conduto” – prato de feijão e batata cozidos com couve e carne de porco, antes do farto tempero de azeite a pedir pão que o ensope bem. A broa de milho, saída de forno a lenha, acompanha todas as refeições, assim como o vinho caseiro, branco ou tinto, que os mais resistentes ainda produzem com uva americana da vindima caseira. O pão-de- -ló guarda-se para o lanche ou para a sobremesa, bem no final do repasto, e, com sorte, seja em que mês for, também haverá rabanadas, a provar que Natal é sempre que alguém o quiser.


Couto do Mosteiro - Santa Comba Dão
Terra de herança templária, Couto do Mosteiro diz muito da sua origem no próprio nome. Nele se combina a referência ao mosteiro que em 1150 aí foi construído pela Ordem dos Templários e a menção ao couto que D. Afonso III instituiu em 1255 para confiar os seus férteis terrenos aos bispos de Coimbra. Menos de três séculos depois, o povoado era elevado à categoria de vila e, por foral de D. Manuel em 1514, tornava-se sede de um concelho homónimo, que só bem mais tarde, em 1836, seria extinto para dar lugar ao atual município de Santa Comba Dão, no distrito de Viseu.

Couto do Mosteiro manteve, entretanto, a sua reputação fidalga. Isso percebe-se à primeira vista perante património de tão nobre traça como o edifício da antiga câmara municipal, que também já funcionou como prisão e escola primária; o Solar dos Costas, casa nobre rural construída no século XVIII; e a Igreja Matriz, que, após uma reconstrução em 1661, continua no preciso local que em tempos foi a casa dos monges templários.

Na paisagem arquitetónica de Couto do Mosteiro destaca-se ainda o pelourinho manuelino, que assinala o estatuto conferido à terra pelo foral real do século XIII, e a Casa dos Arcos, que, edificada no século XVII, é conhecida por em 1693 ter albergado D. Catarina de Bragança, viúva de Carlos II de Inglaterra, no seu regresso a Portugal. Mais tarde, em 1824, o proprietário desse solar foi agraciado com o título de Barão de Santa Comba, mas, com ou sem cartão-de-visita nobiliárquico, outros solares acarinhados em Couto do Mosteiro são o dos Festas, o dos Varela Dias e o do Outeiro, que tem capela própria. Atualmente com cerca de 90 habitantes, esta “Aldeia de Portugal” ainda dedica parte da sua rotina diária à agricultura, no que a produção vinícola ocupa lugar especial, e participa igualmente na vida associativa local, muito centrada em atividades relacionadas com a paróquia. Momentos em que o espírito comunitário se vive com particular entusiasmo são, nesse contexto, as festividades em honra de São Brás, de capela bem aprumada por esses dias, e até as Festas de Santa Cruz, no povoado vizinho, onde “a cruz-mãe do Couto do Mosteiro é beijada pela cruz-filha do Vimieiro”. No primeiro domingo de maio, a população de uma localidade vai, por isso, ao povoado do outro do lado do Dão, em cumprimento de um ritual antigo com origem nas bênçãos pagãs dos campos de cultivo. Para momentos mais meditativos, Couto do Mosteiro também tem muitas opções: o pequeno passadiço de madeira junto à Ribeira das Hortas, entre a antiga Câmara e a Rua dos Aldrógãos; os miradouros da Colmeosa e do Outeirinho; a ponte sobre o rio Criz; o troço local da albufeira da Barragem da Aguieira; e a zona balnear da Senhora da Ribeira, onde se cruzam o Criz, o Dão e o Mondego. O percurso da Ecopista do Dão é outra alternativa de lazer, com os seus 49 quilómetros de trajeto natural sobre a antiga linha ferroviária de Viseu a Santa Comba Dão, desativada em 1988 e transformada em percurso ciclável em 2011. Chegada então a hora de retemperar energias, a gastronomia local prima por pratos como caldeirada de borrego, carolos com barriga de porco e as típicas broínhas de Santa Comba. Mas produtos típicos do Couto do Mosteiro também são o vinho, o azeite, a castanha, a maçã e os cogumelos.

Muito desses hortícolas já existiam pela terra no tempo das invasões francesas. E, a esse propósito, conta a história que, a 19 de setembro de 1810, quando as tropas napoleónicas andavam por Couto do Mosteiro, os portugueses lhes fizeram uma emboscada na estrada para Vale da Mó, resultando da peleja na morte de vários franceses. A vingança veio no dia seguinte. Os homens de Bonaparte capturam alguns portugueses no lugar da Portela e logo os enforcaram no monte que hoje é conhecido como o Cabeço da Forca. Também neste caso, a toponímia diz muito da história do lugar – e preserva memórias que há que conhecer e respeitar.