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Gabriel Mondina
O regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, num momento em que a guerra na Ucrânia se prolonga e a rivalidade estratégica com a China se intensifica, obriga a União Europeia a enfrentar, sem rodeios, o problema da sua dependência estrutural. A tutela transatlântica, confortável e funcional durante a Guerra Fria, transformou-se numa vulnerabilidade política, económica e estratégica. A recente crise energética, motivada pela invasão russa da Ucrânia e mitigada com recurso ao gás natural liquefeito americano, foi apenas o sintoma mais visível dessa dependência.
Com o regresso de Trump à Casa Branca, essa condição deixa de ser sustentável: torna-se um risco existencial para o projeto europeu.
Durante o seu primeiro mandato, Trump não escondeu o desprezo pelas alianças multilaterais, nem a sua preferência por uma lógica transacional de curto prazo. A imposição de sanções extraterritoriais, a instrumentalização do comércio internacional e a pressão direta sobre decisões tecnológicas dos Estados-membros europeus — como se viu no caso Huawei — ilustram bem a vulnerabilidade da UE perante a assertividade americana. A presidência Biden, embora mais cooperante, não reverteu substancialmente essa dinâmica. O trumpismo revelou, e consolidou, uma doutrina geopolítica americana em que a Europa é um parceiro subordinado, a ser mobilizado
consoante os interesses estratégicos de Washington.
Neste contexto, impõe-se uma evidência política que muitos evitam enunciar: Não há soberania onde se importa software, dependem chips e se recebe ordens energéticas. Há gestão. Mas não há poder. Sem capacidade tecnológica própria, a soberania europeia é uma ficção politicamente confortável mas estrategicamente letal. A dependência em áreas críticas como semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura digital coloca a União numa posição de fragilidade sistémica. A exclusão da Huawei, ditada mais por imperativos americanos do que por análise europeia própria, ilustra uma Europa que não decide: obedece.
O domínio energético apresenta um quadro semelhante. A tentativa de substituir o gás russo pelo gás natural americano, embora compreensível num quadro de emergência, não resolveu o problema de fundo: a ausência de uma política energética europeia coordenada e resiliente. A dependência muda de fornecedor, mas o padrão de subordinação repete-se. E com ele, a incapacidade de a Europa determinar autonomamente as suas escolhas estratégicas. Fala-se em diversificação, mas pratica-se substituição — uma dependência com novo disfarce e velhas consequências.
A lição é inequívoca: a soberania tecnológica e energética não é retórica eurocrática — é uma condição elementar para a existência política da União. Continuar a depender de terceiros nestes domínios é perpetuar a irrelevância geopolítica da Europa. O verdadeiro risco não é o regresso de Trump, mas a ilusão de que a UE pode continuar a existir politicamente sem se emancipar funcionalmente. Um continente que proclama valores mas importa a sua própria defesa não é sujeito de nada — é nota de rodapé no capítulo alheio. Neste quadro, a resposta necessária é tão clara quanto exigente. É urgente reforçar os instrumentos de política industrial europeia, acelerar a execução do Chips Act, dotar a União de capacidade tecnológica autónoma em infraestruturas críticas e investir de forma articulada em investigação de ponta. Em paralelo, é indispensável completar a União da Energia, apostar decididamente em fontes renováveis como o hidrogénio verde e garantir a interoperabilidade energética entre os Estados-membros. Não se trata de inventar soberanias artificiais, mas de assegurar condições mínimas para o exercício de uma soberania real e responsável.
A Europa não pode continuar a hesitar entre a ambição estratégica e a dependência funcional. Se quiser manter-se como ator relevante no sistema internacional, tem de aceitar o custo político da autonomia. E quem não tem autonomia, não tem aliados — tem donos. O momento é propício: o contexto internacional oferece o pretexto, e a ameaça do trumpismo oferece a urgência. Resta saber se existe vontade política para agir com a clarividência e a firmeza necessárias.
Não basta proclamar intenções nem multiplicar estratégias com nomes pomposos. O mundo está a ser reconfigurado por potências que não pedem licença nem perdem tempo em retórica. As grandes potências não se afirmam por comunicados de cimeiras ou relatórios de Bruxelas — afirmam-se por capacidade de decisão, autossuficiência e prontidão.
A Europa tem meios, mas hesita; tem consciência, mas adia; tem diagnósticos, mas falta-lhe vontade. E sem vontade, não há soberania: há um teatro de poder com figurantes europeus.
Trump pode desaparecer, mas o eco da sua sombra continuará a governar Bruxelas — a imprevisibilidade americana e o desinteresse pela estabilidade europeia — vieram para ficar. Trump não é o problema. É o espelho. O problema é o reflexo europeu. A Europa, não regressando agora ao centro do jogo, corre o risco de nunca mais fazer parte dele.
Não há espaço para potências indecisas num mundo governado por vontades firmes. Ou a Europa se afirma — ou será afirmada por outros.
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Gabriel Mondina
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Joaquim Alexandre Rodrigues
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Jorge Marques