28 Set
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De calções vestidos e rádio ligado, é hora de entrar no lagar

por Redação

12 de Setembro de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Em São Joaninho, concelho de Armamar, ainda há quem pise o vinho tradicionalmente. Após uns longos dias de vindima é chegado o momento de entrar para o lagar.

Este deixou de ser de pedra como as pessoas mais antigas estão habituados. Agora são mais modernos e maiores, mas o método continua o mesmo. Na tradicional pisa do vinho as pernas é que trabalham. As máquinas, que existem nas grandes cooperativas, são deixadas de lado.

“Antigamente não haviam estas máquinas que há agora e a única forma de esmagar os bagos era pisando. Primeiro, acartavam as uvas das vinhas diretamente para o lagar e ao fim do dia os homens esborrachavam tudo com os pés”, conta Luciano Fernandes, produtor de vinhos e propreitário de vinhas.

Os tempos mudaram e foram surgindo máquinas para desenvolver este trabalho. Atualmente, possui um “esmagador desengaçador” para separar o pé da uva. Esta máquina veio “facilitar na hora de pisar as uvas”. No entanto, a pisa continua a ser à moda antiga.

Do lado direito, em cima de uma prateleira, avistamos um rádio já com uns aninhos. O filho do produtor dirige-se a ele e liga-o para ouvirem música.

“Quando não ligamos o rádio, ouvimos música no telemóvel. Agora com a internet é mais fácil, mas senão usamos o rádio porque estarmos aqui a pisar sem algum barulho de fundo, digamos assim, não é a mesma coisa”, diz Luciano Fernandes.

Já com os calções vestidos e o rádio ligado, é hora de entrar no lagar. Os movimentos das pernas repetem-se em movimentos circulares à volta deste tanque.

É em ambiente familiar que este trabalho é feito. Apenas pai e filho entram no lagar para pisar o vinho. A mulher e a filha mais pequenina observam o trabalho. Enquanto isso, a conversa vai surgindo e as gargalhadas acompanham a conversa animada. De barulho de fundo, ouve-se a música que está a tocar.

“Há uns anos ainda metia quatro ou cinco homens, na primeira noite durante quatro horas, mas tivemos de minimizar os custos, então sou só eu e o meu filho”, confessa o produtor. Acrescenta, ainda, que há muita gente que já não quer fazer este trabalho.

Quando as uvas chegam a sua casa, passam pelo esmagador e vão diretamente para o lagar. É nesse mesmo dia que metem “as pernas a trabalhar”.

“Eu, pessoalmente, prefiro pisar logo na primeira noite. Nos dias seguintes já não piso, trabalho com um motor, isto é, tiro por baixo e passo para cima para ter sempre a manta oxigenada e tem dado bons resultados. Isto é uma maneira que arranjei de economizar na mão de obra”, refere.

As horas ou os dias necessários para esta tarefa não são fixos. A pisa tem de ser feita até que esteja no ponto. Após este tempo, pode permanecer no lagar durante “dois, três, quatro, cinco, seis, sete ou oito dias”.

“Há fermentações que são mais rápidas, há outras que são mais lentas. Tudo depende do vinho que se quer”, refere o produtor.

Os tratamentos não podem faltar nesta etapa. Para que este aguente durante uns bons anos é necessário não escapar este passo.

“O vinho tem de levar sempre algum sulfuroso e algum ácido tartárico para corrigir o pH, e, possivelmente, mais tarde, faz-se umas análises para ver o que o vinho precisa porque um vinho para se aguentar e ficar bom tem de levar sempre alguns tratamentos porque os tempos já não são como antigamente”, esclarece.

Quando este é encubado, a parte sólida vai para dentro das prensas. “Depois de ser prensado, vai dar origem ao bagaço”, esclarece o produtor.

A quantidade produzida chega para o próprio consumo e para quem quiser comprar, pois as uvas são suficientes para encherem diversas cubas.

Este é um negócio que passou de geração em geração. Desde muito jovem que este produtor, Luciano Fernandes, trabalha com vinhas e pisa as uvas no lagar. Uma atividade que decidiu dar continuidade e ensinar ao seu filho.


 

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