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A ecoaldeia de Cabrum: “É viver em harmonia com a natureza”

por Redação

17 de outubro de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

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Conduzimos cerca de 20 km e vimos a rotina citadina a ficar para trás.  Enfrentámos uma estrada encurvada pela natureza, a desembrulhar um terreno improvável, apinhado de pedregulhos enrugados. Erguem-se muros de pinheiros e eucaliptos a sombrear o troço de terra batida. A ultrapassar uma névoa empoeirada, avista-se um pequeno letreiro de cores vivas. Cabrum, pode ler-se. Encontrámos árvores nativas, pequenos ribeiros de água, algumas casas envelhecidas e outras “com uma nova vida”. Abandonada por “quase 20 anos”, a aldeia de Cabrum, na freguesia de Calde, regressou à vida pelas mãos de Manuela Ferreira e Vasco Saraiva. 

É uma aldeia da época romana que, em tempos, também já foi sustentável. Mas, à moda antiga. Ao chegar, temos um vislumbre de um quotidiano marcado pela agricultura e criação de gado. Antes de ficar desabitada, “eram cinco famílias e se formos ver a história familiar, parecia tudo uma grande família. Viviam do campo, era uma vida difícil”, conta Manuela Ferreira. 

Culpa dos tempos ou das modernices citadinas, as portas foram-se fechando e os moradores desvaneceram. Em 2009, o último resistente de Cabrum cedeu perante a frieza da solidão e deixou a aldeia. Restaram as construções ríspidas, os pastos desabrochados e os caminhos empoeirados. 

Pouco depois, em 2011, Vasco Saraiva procurou devolver a vida a “um cenário triste e vandalizado”. Falaram-lhe de Cabrum. Soube por um amigo que viu uma reportagem de aldeias abandonadas. “Primeiro, o Vasco veio ver a aldeia. Dois anos depois, trouxe-me cá para eu a ver. Deparei-me com um panorama triste, quase deprimente. As casas estavam todas vandalizadas, não havia um vidro que não estivesse partido. Senti que este sítio precisava de amor, de cuidado, de vida”, explica. 

A natureza em volta, a beleza do vale, a água a escorrer pelos socalcos e, por surpresa, o isolamento conquistaram Manuela. Sem aparentar, Cabrum preenchia todos os requisitos para ser uma nova aldeia. E eles, prontos para abraçar uma vida sustentável na natureza. “O início foi muito duro”, confessa, “era impossível estar dentro das casas. começámos por viver na autocaravana e a limpar as casas, a preparar um sítio para pudermos estar”. 

As ruínas tornaram-se casas remodeladas pela mão da sustentabilidade. Outras construíram-se “com técnicas de bioconstrução”. Apetrechada de rolos de madeira e garrafas de vidro, “fizemos a casa, o mais ecológica possível. Por exemplo, utilizámos uma técnica muito conhecida que é cordwood, que é rolos de madeira inteiros que depois levam uma mistura feita com barro, palha e areia. Tudo feito com matérias orgânicos e reciclados”, explica Manuela Ferreira. 

A reconstrução da aldeia “é um processo”, com várias fases. É como o dia a dia nesta nova aldeia. O sino toca para as atividades diárias e “de manhã é para o yoga”. “Everyday, seven hours”, diz-se pelos becos de Cabrum. “São 2 anos com um ritmo de sete horas de yoga, de segunda a sexta. De manhã são cerca de 2 horas”, revela. 

Ao yoga junta-se workshops ligados à espiritualidade, colheitas na horta comunitária, oficinas, caminhadas, massagens e terapias. “O próximo passo que eu quero dar aqui é em investimento pessoal e criar ateliês artísticos. Portanto, vamos ter em breve um atelier de costura e reciclagem de roupa, reutilização. E, depois de artes”, acrescenta a cofundadora da ecoaldeia de Cabrum. 

Hoje em dia, “vivemos como nos nossos avós”. Mas, com alterações amigas do ambiente. “Queremos muito aproveitar o conhecimento ancestral, mas dar-lhe uma nova visão do mundo e uma nova consciência mais ecológica e sustentável”, defende. 

Com cerca de 15 habitantes permanentes e seis famílias com terra comprada, “isto é sempre um fluxo de entra e sai. “Recebemos muita gente e pessoas do mundo inteiro e tentamos atrair pessoas para cá que têm esta forma de vida, que queiram viver na natureza e viver de uma forma mais sustentável e ecológica”, avança. 

  Era uma aldeia voltada para o esquecimento. Em Cabrum, no interior mais remoto do país, vive-se do que a natureza oferece. A ideia é “que sejamos também nós os portugueses a repovoar as aldeias abandonadas”, remata Manuela Ferreira. 

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