23 out
Viseu

Cultura

Encerradas, sem apoios e em protesto. Um Circuito para salvar as salas de música

por Redação

17 de outubro de 2020, 08:00

Foto D.R.

CLIPS ÁUDIO

Estão algumas pessoas no espaço a absorver a efusão de vibrações que embate nas paredes da Rua do Carmo antes de retornarem ao silêncio absoluto. Em frações de segundos, desligaram-se as luzes. Não há arte em palco e o público desvaneceu. A música? Trancou-se dentro de portas. Já são seis meses de noites confinadas. Mais do que nunca, querem o regresso da “criação e produção cultural”. Não será um regresso, porém, será uma manifestação pela sobrevivência da arte. Farão filas sincronizadas à frente dos espaços para mudar o futuro de salas e clubes independentes com programação própria. É o que acontece neste sábado, a 17 de outubro, à porta do Carmo’81, em Viseu, do Lux Frágil, em Lisboa, dos Maus Hábitos, no Porto, e da Sociedade Harmonia Eborense. 

  Ao Vivo ou Morto, pode ler-se no cartaz da iniciativa. É uma ação de protesto da Circuito, uma nova associação que, até à data, junta 27 casas de música ao vivo. Conhecidas por venues, promoveram 7537 atuações musicais no ano passado, alcançando mais de um milhão de pessoas. Este ano, é diferente. A pandemia de covid-19 condenou a criação cultural ao desemprego. “Não podemos aceitar a falência de casas como as nossas. O Clube de Vila Real fechou definitivamente e é um triste exemplo disso”, refere Nuno Leocádio, diretor artístico e programador do Carmo'81. 

 

Apoiados por mais de 300 artistas, unem-se à entrada das “nossas salas e clubes de espetáculos”. Desta vez, as portas ficam fechadas. “Vamos realizar eventos dentro do Carmo e o público terá formas de usufruir delas, com a diferença que, desta vez, a porta não abre, como sinal de protesto. Esteve sempre aberta para a criação e produção cultural e, neste momento, está em vias de nunca mais voltar a abrir”, revela. 

 

Palcos em risco, apoios inexistentes e sem rendimentos. Cenários pandémicos que, na verdade, existem há uns largos anos. “São problemas antigos que agora se agravam com a situação pandémica”, confirma o diretor artístico, “não se pode continuar a confinar a cultura e não podemos continuar calados à espera que passe”. 

Alguns encerrados, outros a meio gás. Desde março, o Carmo’81 permanece fechado “porque achamos que forma mais responsável de agir perante o estado pandémico que vivemos, é não abrir”, confessa, não querendo contrariar as normas da Direção-Geral de Saúde.

Sem datas de abertura à vista, a iniciativa reclama por mais investimento nas salas do Circuito que permaneça “válido até ser autorizada a retoma sustentável da atividade e que garanta a compensação do prejuízo mensal provocado pelos custos fixos de exploração das salas, os quais não foram suspensos ou comparticipados por outros programas”, assim como “disponibilização de programas de apoio à criação, programação e circulação artística”, pode ler-se em comunicado. 

Pelas mãos do Carmo, já se criaram músicos como Sr. Jorge, José Pedro Pinto, entres outros. Sem palco para novos artistas, a produção cultural também fica em risco. “São raros os artistas que nascem nos coliseus ou nos festivais de verão. Este é um palco fundamental para os artistas crescerem, aprenderem, ensaiarem, experimentarem até que consigam crescer para palcos muito maiores”, garante o diretor artístico. 

Adversidades acompanhadas por um Orçamento do Estado que parece fechar os olhos à cultura. “Não respeita a nossa atividade, nem a cultura do nosso país”, defende, “e esta ideia que se instala na sociedade que para o ano tudo ficará melhor e que acontecerá a dobrar, é uma falácia”. As conversações com o poder político acabaram “em portas têm sido fechadas” e, por isso, “não poderia ser de outra forma”. 

Às salas de Viseu, Porto, Lisboa e Évora, junta-se A Casa - Oficina Os Infantes, em Beja, a Alma Danada, em Almada, a Bang Venue, em Torres Vedras, o Barracuda Clube de Roque, o Ferro Bar, o Hard Club, o Passos Manuel, o Plano B e o Woodstock 69 Rock Bar, no Porto, o Club de Vila Real, o Salão Brazil, em Coimbra, o B. Leza, a Casa do Capitão, a Casa Independente, as Damas, o Hot Clube de Portugal, o Lounge, o Musicbox, o RCA Club, o Titanic, o Valsa e o Village Underground, em Lisboa e, em último, o Barreirinha Bar Café, no Funchal. 

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts