09 Ago
Viseu

Cultura

Maravilhas de Viseu mostram trunfos e já têm discursos de vitória

por Redação

22 de Julho de 2020, 17:35

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

O distrito de Viseu, de norte a sul, tem seguramente mais do que sete maravilhas. Quis o concurso promovido também pela RTP que de cada distrito só sete fossem eleitas. É a fase decisiva e cada candidatura procura captar o maior número de votos. Para já a disputa é a nível distrital e, diretamente, só passa o candidato mais votado. Para captar as atenções já se perfilam padrinhos mais ou menos famosos: dois cantores, uma tuna académica, uma atriz e... um padre

 

Sete maravilhas num distrito. A proposta é tentadora, mas promete tornar a escolha difícil. Foram dezenas de tradições, lugares, artesanatos, rituais que tentaram, ao início, a sorte. Sobram sete: uma romaria, duas peças de artesanato, uma feira, um cortejo alegórico, uma rota destinada aos animais e um cantar que está quase na UNESCO. A partir de agora concorrem cada uma por si. Em Vildemoinhos já se trabalha arduamente para tornar as Cavalhadas, um cortejo centenário dedicado a uma velha promessa feita a S. João por causa da falta de água, a maravilha do distrito. Porque é isso que estas sete candidaturas querem conquistar. Já se sabe que apenas uma, a mais votada, passa diretamente às meias finais desta iniciativa. A segunda classificada poderá, depois, ser repescada. Nesta fase o importante é votar. “Este concurso funciona com as votações. Qualquer um dos sete pode ganhar. A diferença está no empenho que cada um dos patrimónios faz e do apoio que cada um recolhe no número de chamadas”, começa por dizer Anabela Abreu, responsável pela comunicação das Cavalhadas de Vildemoinhos.

O regulamento deste concurso prevê e permite que cada património eleja um padrinho (singular ou coletivo) para, digamos, dar a cara e, nalguns casos, trazer mais visibilidade à candidatura. No caso de Vildemoinhos a escolha foi “óbvia”, diz Anabela Abreu. “Escolhemos a Infantuna Cidade de Viseu. Primeiro porque esta tuna é de Viseu com orgulho. Gente genuína que leva o nome da cidade e das Cavalhadas além fronteiras. Têm quase três décadas de existência de música com vozes tão imponentes... A Infantuna veste a camisola pelas Cavalhadas, vivem-nas, partilham esta proximidade. Só podiam ser eles os nossos padrinhos”, justifica. A hora é de captar votos e as redes sociais têm sido usadas também em Vildemoinhos para se conseguir os telefonemas necessários à vitória distrital. “Cada um de nós é embaixador ou embaixatriz desta ideia. Com este apoio vamos conseguir envolver a comunidade. Esta candidatura há muito que não está só em Vildemoinhos, temos recolhido apoios nacionais e internacionais. A campanha está a ser muito feita na internet e muito numa lógica de pessoa a pessoa”, descreve.

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É para ganhar”

Se em Vildemoinhos se aposta forte, em Lamego a “Romaria de Portugal” não quer esperar pela repescagem e também joga os trunfos para conseguir a vitória já no dia 23, na gala transmitida pela RTP1, a partir de Castro Daire. Nesse dia o distrito fica a saber quem segue desde já para as meias finais e quem está em segundo lugar e que, depois, pode tentar lutar, já com outras maravilhas dos demais distritos, para seguir em frente. “É uma festa que ao longo dos anos se tem vindo a afirmar através de uma manifestação de fé e de religiosidade que, anualmente, leva milhares de pessoas a visitar Lamego e a participar, quer numa vertente de Fé, quer a participar em toda a programação cultural. Vai desde a novena, até à majestosa Procissão do Triunfo, momento singular porque apresenta inúmeros quadros bíblicos, com centenas de figurantes e os carros são puxados por bois. É único.”, argumenta Ana Catarina Rocha, vereadora da cultura no município de Lamego.

Por tudo isto, refere a autarca, a esperança está na vitória. “É para ganhar. Naturalmente que apresento as maiores felicidades às outras candidaturas do distrito, mas Lamego quando se apresentou a candidata tinha consciência da muito rica realidade nacional, mas sabendo que esta Romaria se destaca das demais”, assegura. Para afirmar e dar maior visibilidade a esta candidatura que leva milhares de pessoas a Lamego, escolheu-se Sofia Alves, conhecida atriz portuguesa para a apadrinhar. “É uma pessoa com um currículo cultural notável. Tem um percurso brilhante, participou num filme gravado na sua grande maioria aqui em Lamego, o Vale Abraão, de Manoel de Oliveira. Por outro lado tem uma grande ligação com esta cidade e com este lugar de Fé, visto ser uma mulher voltada para o culto mariano”, refere Ana Catarina Rocha. Diz a autarca que a divulgação tem sido feita através da internet com a criação, por exemplo, de um site criado especificamente para esta candidatura.

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Toy en(canta) os Bordados de Tibaldinho

De Viseu há ainda duas candidaturas ligadas ao artesanato. Dois concelhos distintos, duas artes diferentes, mas uma semelhança: ambos escolheram cantores para apadrinhar a causa. Em Tibaldinho, concelho de Mangualde, saem os tradicionais e preciosos bordados. Para dar a cara por este património a escolha recaiu em Toy, conhecido cantor popular português. “Há uma ligação afetiva entre o concelho e o artista: o pai do Toy nasceu em Mangualde. Quando lhe ligamos para o convidar para apadrinhar os Bordados disse-nos logo que sim. Ele tem uma forte relação com as redes sociais e isso também é importante para nos ajudar a conquistar mais votos”, refere João Lopes, vereador com o pelouro da Cultura na autarquia mangualdense.

Toy, em entrevista ao Jornal do Centro que pode ouvir já em podcast, confirma esta ligação. “Nunca se sabe se um dia destes faço um concerto com uma peça bordada à Tibaldinho. Hoje em dia valoriza-se a cultura popular. Devemos sempre enaltecer o que é nosso. A cultura é a nossa identidade: no dia em que não houver cultura, não há Portugal. É por isto que me disponho sempre a apadrinhar iniciativas como esta”, refere o cantor. “É um património com mais de 150 anos. É extremamente importante manter viva esta arte”, conclui o artista. A história destes bordados ainda hoje se reveste de mistério. “As camisas de linho eram muito usadas antigamente, mas eram caras, usadas sobretudo aos domingos. Numa das casas mais ricas da aldeia de Tibaldinho apareceu um buraco numa dessas camisas. Para que a peça não fosse deitada fora, uma senhora aproveitou o buraco e fez um bordado à sua volta, criando uma espécie de flor. Crê-se que foi assim que nasceram os Bordados de Tibaldinho”, revela o vereador na Câmara de Mangualde.

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Molelos, sítio único na olaria

A arte de trabalhar o barro também entra no lote de candidaturas de Viseu a este concurso das 7 Maravilhas da Cultura popular. “Molelos é dos poucos centros de olaria do país ainda em atividade e transporta na sua história e na essência um traço de cultura e de personalidade muito identitárias”, refere João Carlos Figueiredo, diretor executivo da ADICES (Associação de Desenvolvimento Local), entidade que promoveu a candidatura do Barro Negro ou da Louça Preta de Molelos. Molelos é uma freguesia do concelho de Tondela e para apadrinhar a candidatura do património mais conhecido daquele lugar foi escolhido Samuel Úria, cantor natural do concelho tondelense. “Estamos a colocar nas redes sociais vídeos que temos vindo a fazer com os oleiros, colocámos alguns cartazes, um no IP3 e outro à entrada da cidade de Tondela, e claro tentando pedir a amigos que convidem amigos para se aliarem a uma iniciativa desta natureza”, refere João Carlos Figueiredo. “Só com o envolvimento de todos podemos alcançar o êxito. Esta candidatura representa a identidade de uma região que merece ser preservada e cada vez mais conhecida”, conclui o diretor executivo da ADICES.

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Na UNESCO está quase, para já estão a lutar nas Maravilhas

Manhouce já tem tradição neste tipo de concurso. Já tentou a sorte nas sete maravilhas das aldeias e agora vai de novo a jogo com o Canto a Três Vozes. O presidente da Junta de Freguesia de Manhouce, Carlos Laranjeira, no momento em que a candidatura entrou no lote das sete distritais, referiu que esta não era uma luta da aldeia, da freguesia ou do concelho de S. Pedro do Sul. Referia o autarca que em causa estava uma conquista da região de Lafões. Agora, quando estamos a poucos dias de se saber se Manhouce segue, ou não, em frente neste concurso, Carlos Laranjeira reafirma que a aposta continua a ser a mesma. “Tivemos uma reunião com os presidentes das Câmaras de S. Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades. Mesmo que não escolhêssemos esta vertente de aproximar a candidatura do nome Lafões, teríamos sempre votos, como é lógico, mas queremos que qualquer dividendo que surja tem de ser para a região”, enaltece o presidente da Junta. A candidatura do Canto a Três Vozes de Manhouce está também a promover-se na internet. “Estamos a candidatar-nos a património da humanidade e associamo-nos não só ao canto a três vozes de Manhouce mas aos restantes cantos da região. Estamos a sentir o apoio desta gente toda”, refere Carlos Laranjeira. Também nesta candidatura já há padrinho. E aqui há uma grande surpresa. Ao contrário do que se previa, não é Isabel Silvestre quem apadrinha a iniciativa. “É o pároco da freguesia. A pessoa indicada era a professora Isabel Silvestre, mas já é alguém que faz parte da candidatura e achámos que teríamos de arranjar outra pessoa. O sr. Padre Cristóvão Cunha está há vários anos em Manhouce, é jovem e também merece isso porque tem divulgado muito a cultura de Manhouce”, revela.

Do distrito de Viseu segue também a Feira de São Mateus e a Última Rota da Transumância. O Jornal do Centro tentou contactar responsáveis por estas candidaturas, mas não obtivemos resposta. Estas sete iniciativas vão aguardar pelo próximo dia 23 de julho para perceber qual delas segue diretamente para as meias finais e qual fica em segundo lugar procurando, mais tarde, a repescagem já entrando em duelo direto com outras candidatas dos demais distritos portugueses.

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