01 nov
Viseu

Cultura

Panela de Ferro

por Redação

26 de setembro de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

Pompeu José - ator e encenador (Ensaio literário) - Número 1

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A criada velha deitou uma mão cheia de sal na panela de ferro onde fervia a lavagem para o porco e de imediato um relâmpago rasgou o céu…

A criada parou e um segundo depois um trovão abanou o chão e ribombou por dentro da cabeça da velha. 

Um bando de pássaros voou com grande algazarra enquanto todo o conteúdo da panela se espalhava pelas paredes e pela chaminé forrando tudo com o alimento do animal. 

A velha ergueu os braços ao céu e numa linguagem antiga bradou:

- Lêvide més, tornarim dõs…

E repetiu, uma e outra vez, cada vez mais forte, cada vez mais fora de si…  Em êxtase, e sempre bradando a mesma frase, entrou no curral do porco e com um pedaço de ferro em brasa tirou a vida do animal com um só golpe mesmo no meio dos olhos.

Parou a ladainha, o canto transformador e, lívida e já sem vida, caiu no chão no meio do estrume, ao mesmo tempo que toda a família que dormia na quinta se esvaia em sangue, finalizando exangues no meio dos lençóis que, vermelhos como bandeiras, amortalhavam os corpos.

Uma angélica figura desceu do céu sobre a horta e ceifou todos os legumes que esfregou pelo corpo nu. 

Os pássaros regressaram a medo, enquanto o anjo esfregava o corpo, e começaram a entoar um canto desesperado e gritante que acordou toda a aldeia.

A panela de ferro estava incandescente no meio da lareira e, num golpe de magia, transformou-se num pequeno animal de fogo que ganindo fez parar todos os habitantes que se aproximavam do portão  embrulhados em mantas ou nos roupões vestidos à pressa.

O anjo montou o animal e rodopiando sobre as pessoas transformou-as em cinza. As cinzas mantiveram-se por um momento na forma de cada um mas, como que sopradas por alguém, logo se desfizeram, caindo no chão, onde apenas se viam agora 23 pequenos montes, lembrando pequenas fogueiras apagadas à pressa e donde ainda se desprendia um pouco de fumo.

Anjo e animal partiram e um silêncio de chumbo tombou sobre a aldeia durante séculos. Só passados mil duzentos e trinta e dois anos um barco aportou à aldeia. Uma pequena embarcação com 5 marinheiros e um cão. O comandante desceu a terra e o que viu foi tal e qual como tudo tinha ficado há muito tempo atrás. 

Vinte e três montes de cinza fumegante, a horta destruída, um curral com um porco caído e um ferro espetado entre os olhos, uma velha deitada, branca como a cal e que parecia uma estátua de mármore…

Os marinheiros e o cão foram seguindo o capitão e testemunhando tudo. Quando entraram na casa, a cozinha era toda ela uma pintura de sopa, e ao subirem aos quartos, os lençóis ensopados em sangue embrulhavam esqueletos humanos cobertos por penas de pássaros.  

Os homens ajoelharam instintivamente e sem saberem porquê 

Começaram, em uníssono, uma estranha lengalenga:

- Lêvide més, tornarim dõs…

A lareira reacendeu-se e o fogo devorou lentamente tudo e todos: a casa, as coisas, as pessoas… o passado e o presente.

De uma estrela longínqua o anjo observa a cena e sorri enquanto aquece as mãos no dorso do pequeno animal de fogo que o acompanha.

Ergue uma taça com sangue e bebe-a de um trago.

 

 

 

(próxima publicação 25 de outubro)

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