06 Ago
Viseu

Cultura

Por entre as "Tramas" de Ana Verónica

por Redação

01 de Agosto de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Um pedaço da região de Viseu encontrou uma nova luz numa das salas da Casa da Ribeira. Às portas do museu, as memórias dos tempos passados do coração de Portugal redesenham o espaço com “outras formas”. A escadaria parece não ter fim como a “beleza diferente” das peças que traçam o ambiente. Ana Verónica, “autora, designer e de vez em quando artesã”, pôs mãos à obra e “tramou” novas visões do artesanato da região.

A ligação ao trabalho manual parece ser “desde sempre. Sempre tive isto muito presente na minha família. Por exemplo, com os meus pais, sempre estivemos ligados ao artesanato, às coisas que fazemos com as mãos, com os produtos locais”, conta.

Entre os costumes de “uma aldeia aqui perto”, o contacto com as tradições da região fez despertar o gosto pela arte do “enlace dos materiais”.

“O artesanato precisa de ser muito valorizado através de novas formas. Se nós fomos inserindo estas tradições ancestrais aos poucos, em novas formas, em formas mais contemporâneas, no nosso dia a dia, o público em geral também vai olhar para ele de outra maneira”, explica.

Para Ana Verónica, o artesanato das terras de Viriato reúne memórias, histórias e tradições que devem perdurar no mundo contemporâneo. Na região, “há várias técnicas muito ricas, algumas importadas. Por exemplo, eu acho fascinante as rendas de Bilros, de uma zona costeira de Portugal, estarem aqui presentes na região de Viseu (Mangualde)”, revela.

Desafiada no início do mestrado, Ana Verónica aproveitou “o que conhecia melhor, as tradições artesanais, para fazer um projeto inserido na minha cidade”.

Trama foi a palavra que concedeu identidade ao projeto que, na realidade, “era o que estava ali. O enlace dos fios, o enlace dos materiais, o cruzamento das coisas, das histórias e das memórias”, descreve, com uma “luz diferente” no rosto.

Com “uma ideia muito bem definida”, o caminho revelou-se longo. “Parece que não, mas chegar uma miúda de 20 e poucos anos ao pé de pessoas com tanto conhecimento e falar-lhes em novas visões para o artesanato que eles fazem há anos, é difícil. Portanto, foi conhecer o artesanato através das pessoas, das memórias, das histórias que elas contam”, confidencia.

“Muita experimentação”, consolidação das técnicas artesanais, idealização de amostras dos vários pontos e o desenho das peças foram algumas das fases de todo o processo de criação. “Na verdade, foi muito complexo. Para darmos forma, tive que aprender várias coisas, aprender eletricidade, de madeiras. No fundo, falar com os artesãos para eles conseguirem dar forma à minha visão”, explica.

Com pelo menos um artesão por técnica, o projeto TRAMA lançou um “olhar diferente e uma nova luz” nas rendas de bilros, no linho de Várzea de Calde, na cestaria e nas flores dos namorados de Fragosela. “Eu queria que as pessoas pudessem chegar aqui e perceber que, por exemplo, isto é linho de Várzea de Calde, mas que estão a olhar de outra maneira para ele. É esse o meu objetivo”, assinala.

Em dois anos, o objetivo inicial foi cumprido. O projeto ganha vida “numa sala ampla, para as pessoas andarem, conhecerem, entrarem dentro desta luz e destas sombras e perceber que isto pode dar um ambiente diferente ao espaço que habitamos”, revela. Apesar do longo percurso, “foi muito gratificante. Os artesãos ao chegaram aqui à exposição e dizerem que isto, realmente, é diferente, é muito gratificante na verdade”.

Entre todas as peças da exposição, a autora destaca uma caixa de luz que contempla as flores dos namorados de Fragosela. “É uma peça que se chama casado, exatamente porque tem as flores todas juntas e de várias cores. Foi a mais difícil de chegar à forma simples, mas é aquela que estou a pensar em avançar num futuro próximo”, adianta.

A sede de “fazer mais e aprimorar as coisas” promove o aparecimento de novas ideias. A comercialização das peças é uma delas. “Quero lançar coleções destes produtos, um bocadinho mais aprimorados. Cada peça conta uma história totalmente diferente e isso tem que ser sempre contado com muito cuidado e com muito primor”, afirma.

O futuro do artesanato parece promissor aos olhos da designer. “Eu acredito que as pessoas ao ver as coisas de outras maneiras, irão dar mais valor”. A formação em técnicas artesanais aparece como essencial à conservação desta arte, “para que as tradições realmente não se percam e passem para pessoas mais novas, para continuarmos a trabalhar”, remata.

Em exposição desde fevereiro, o projeto TRAMA integra a programação da iniciativa Cubo Mágico.

 

 

 

 

 

 

 

 

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