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“Um português estar no top50 no ténis é equivalente a ganhar uma Bola de Ouro no futebol”

por Redação

01 de agosto de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

André Alexandrino é campeão regional absoluto de ténis. Na hora da vitória, o tenista natural de Vouzela que joga no Oliveira de Frades, faz uma análise ao percurso até agora e projeta o futuro nesta modalidade, também como treinador. Confessa admiração por Federer e por João Sousa, o melhor português no ranking mundial

 

A que é que soube este sexto título de campeão regional absoluto de ténis?

Soube a uma grande conquista. Foi um torneio muito importante. É o título mais importante da Associação de Ténis de Viseu. É jogado pelos melhores atletas da Associação. Aconteceu em Gouveia, perto da Serra da Estrela, estava muito quente e incluiu um quadro com bastantes jogadores. Foi muito agradável, teve um sabor especial.

Como é que se prepara para conquistar um título como este?

É como todos os torneios que vou jogando, eu e qualquer atleta. Nós temos um calendário de torneios em várias zonas do país, quase todos os fins de semana. Cada jogador faz o seu plano de torneios, conforme os objetivos que tenha. Neste caso vamos escolhendo os torneios mais importantes, os que nos podem dar mais pontuação. O campeonato regional dá uma pontuação muito boa, em relação a outros. A preparação é feita com treino, trabalho e algum rigor no treino, na alimentação, na hidratação. É uma competição concentrada em dois dias, poderá haver qualificações em mais dois dias. Temos de nos preparar para jogar mais do que um jogo por dia.

Destes seis títulos de campeão regional absoluto, qual foi o mais difícil de ganhar?

Foi este último. Acabou por ser o que me correu melhor, onde me preparei mais, tanto fisica como mentalmente. Tive um sorteio onde qualquer dos meus adversários poderia ganhar a prova. Não tive nenhum jogo fácil. Calhei logo com o cabeça de série e até à final foram sempre jogos difíceis.

E o primeiro? Tinha quantos anos e que memórias há?

Tinha doze anos, estava no escalão de sub12 e fui campeão regional. Foi há alguns anos. Os troféus ajudam sempre a lembrar cada torneio.

Há algum ranking distrital?

A classificação é feita a nível nacional e internacional. Cada associação tem o ranking, mas sempre incluído no nacional. O número 1 de Viseu vamos ao ranking nacional é o atleta de Viseu que melhor classificado está no ranking nacional.

E é o seu objetivo ser o melhor do distrito?

O ranking distrital nunca foi o objetivo. O número de praticantes não é relevante nesse sentido. Quando começamos a ganhar e a querer melhor, o ranking nacional é a nossa referência. Estou agora mais focado no escalão +35 e aí sim gostava de entrar no top10 nacional. Está a correr bem, vamos ver se consigo.

Essa lista depois é atualizada?

Sim. Até há pouco tempo era anual. O ranking saía em janeiro e mantinha-se até final do ano. Há dois anos houve uma renovação e melhorou muito esse sistema. O ranking é atualizado de 15 em 15 dias, depende dos torneios que fazemos. Vamos subindo ou baixando.

Mas pode fazer-se escolhas, certo? Porque há torneios com diferentes classificações...

Isso. Por isso cada jogador faz o seu plano consoante os objetivos que tem. Há torneios que dão mais pontuação, há classificações A, B e C. No caso dos A é onde estão os atletas mais difíceis de bater.

O ténis não é dos desportos com mais contacto. Talvez no início e no fim de cada jogo ou um ou outro gesto de fairplay a meio de cada jogo. Foi dos desportos que recuperou mais facilmente pós pandemia ou é um engano pensar isso?

É verdade. O ténis e o golfe foram as primeiras modalidades a terem autorização para retomar a atividade, com muitas restrições, claro. O ténis tem um distanciamento que facilita muito nesta altura de pandemia. Já se realizam competições de ténis e há modalidades que ainda estão à espera e vai ser difícil retomarem tão cedo.

Que restrições existem?

Como não é uma modalidade de contacto, as grandes mudanças aconteceram no cumprimento final, na distância entre as pessoas que estão no local onde o torneio decorre. Durante o jogo não havia contacto, agora também não vai haver. No fim e no início, o contacto que se fazia foi substituído por um aceno ou um toque de cotovelo e o aperto de mão foi substituído por um toque de raquete. Todos os campos têm um desinfetante à entrada e as bolas são sempre novas.

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O público está a protagonizar a grande questão do momento. Se deve ou não haver pessoas a assistir aos eventos desportivos. No caso do ténis, que influência concreta tem o público num jogo?

A minha opinião é a de que sim, faz falta no ténis haver público, quando falamos de alta competição. Quem vê na televisão percebe que o público faz parte do espetáculo, também. É um bocadinho redutor o espetáculo sem público e no ténis não é exceção. Como jogador, quando há público é sempre diferente jogar do que apenas com o meu adversário no campo. O ténis tem algumas regras para o público, que são cumpridas. O público só pode manifestar-se quando os pontos terminam, naquele espaço de 25 segundos. Durante o ponto não pode fazer qualquer ruído porque perturba muito os jogadores. O ténis é um jogo de muita concentração, muito rápido, muito difícil de mantermos o foco. A mínima interferência tira-nos o foco facilmente. Às vezes até se ouve o árbitro a pedir ao público para não se manifestar porque realmente interfere muito no jogo.

O ténis não é um desporto mainstream em Portugal. Há praticantes, por vezes em lazer, mas não é dos mais praticados. O que o fez ir para o ténis?

A minha paixão pelo ténis foi crescendo ao longo dos anos. Comecei a jogar ténis muito cedo, o meu irmão mais velho e o meu pai jogavam e eu ia com eles para o campo chateá-los e estorvar. Tinha cinco ou seis anos e aí tive o meu primeiro contacto com a modalidade. Depois fui fazendo o percurso normal, treinando e jogando, fazendo torneios. Não era o meu desporto favorito até porque cada idade tem as suas características.

Os portugueses reconhecem o mérito dos atletas que não são futebolistas?

Falando no ténis, não, não reconhecem. O que se consegue ver na televisão de vez em quando, são eventos muito específicos e isolados, com visibilidade, com personalidades a aparecer. Mas falando do João Sousa, que é o nosso melhor jogador e que ainda está no top 50 mundial, a visibilidade que ele deveria ter, não tem, comparado com a de um jogador de futebol. A dificuldade de chegar onde chegou é tão grande e o trabalho é enorme, quem não está dentro da modalidade não tem noção...

Estar no top 50 mundial de ténis é equivalente a ganhar uma Bola de Ouro no futebol?

Sim, eu diria que sim. No contexto em que estamos, um português jogar o top mundial, diria que sim. Entrar no top 100 é a elite do ténis mundial, é muito difícil... O João Sousa entrou no top 40, eu diria que, no contexto em que estamos, sim, eu diria que é um feito quase equivalente a ter uma Bola de Ouro.

Quais são os seus jogadores de eleição? Cada geração tem os seus...

Gostode tirar um bocado de cada um. Tenho um jogador de eleição que é o suíço Roger Federer.

Para si, é o melhor de sempre?

Sem dúvida.

E o que viu quando estava a crescer na modalidade?

Houve ali várias fases. No início era o Ivan Lendl que, na altura, era uma das grandes figuras do ténis. Depois talvez o Kuerten, que chegou a número 1 do mundo, na altura do Agassi ou do Sampras. O ténis é como qualquer outra modalidade, tem ciclos e há anos em que não aparece ninguém que nos faça querer ser assim ou gostar tanto. Depois apareceu o Federer, por volta de 1998, limpou tudo e com um ténis fantástico. Foi por ele que retomei o ténis desta forma, tornando-se na minha profissão. A culpa é de Federer.

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Cada tenista tem um estilo de jogo. Como é que descreveria o do Federer, por exemplo...

É um jogador completo. Normalmente os jogadores ou são agressivos, mais atacantes, ou defensivos, como no caso do Nadal. O Federer sendo de ataque, tem um jogo defensivo fantástico e por isso conseguiu ser o jogador que ainda hoje é. Tem um grande serviço, talvez o melhor serviço de sempre, não o mais rápido, mas o melhor. Qualquer pessoa, mesmo que não acompanhe o ténis, gosta de o ver.

Estamos a falar de jogos que duram três horas. Às vezes mais. É preciso resistência...

Muita. Jogos de grandes torneios, à melhor de cinco sets. É preciso estar fisicamente muito bem preparados. Imaginemos a velocidade do jogo... Chega-se ao fim completamente exausto.

Quem é que vai suceder a Federer?

Vai ser difícil termos um sucessor, pelo menos para já. O Federer, o Djukovic e o Nadal dominaram de uma forma brutal os últimos anos. Depois de Federer, Djukovic irá dominar o circuito ainda durante algum tempo. O sucessor, vamos ver... Eu acho que ainda está por aparecer um sucessor que se diga que vem dominar o circuito...

Como é que se define enquanto jogador de ténis?

A forma como encaro o ténis, os pontos, os jogos é um pouco como Federer, sendo ele a minha referência. Tecnicamente, considero que tenho um bom serviço e isso tem-me ajudado muito na conquista dos últimos torneios. Gosto de jogar na rede, gosto de pontos curtos, sem longas trocas de bola e gosto de jogar no campo inteiro, variar no efeito e na velocidade da bola. É esse o jogo que gosto.

Tem algum sonho para atingir na sua carreira de tenista?

Como treinador tenho o objetivo e o sonho de ter um ou dois jogadores que possa acompanhar até à alta competição. Tenho tido a sorte de acompanhar um atleta que é o João Maia, natural de Oliveira de Frades, o nº1 nacional de sub16, neste momento. Sagrou-se campeão nacional de equipas no último fim de semana. Tem-me feito sentir realizado como treinador na parte da competição. Também gosto muito de dar aulas de lazer. Como jogador gostaria de entrar no top10 dos + de 35.

Joga no Oliveira de Frades. O ténis nesse concelho tem muita história?

Sim, Oliveira de Frades é uma das vilas onde o ténis apareceu mais cedo, aqui no distrito de Viseu. Há alguma cultura de ténis naquela região. Talvez Oliveira de Frades tenha mais jogadores há mais tempo. Depois, Viseu sempre teve alguns jogadores. Oliveira de Frades tem jogadores com mais de 70 anos. É paixão, mesmo.

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