29 nov
Viseu

Desporto

“Vou tentar fazer sentir às pessoas que Viseu está no mapa”

por Redação

13 de junho de 2020, 08:20

Foto Igor Ferreira

CLIPS ÁUDIO

Depois de 17 anos na presidência, está de saída da Associação de Futebol de Viseu (AFV) para abraçar a lista de Fernando Gomes na corrida à presidência da Federação Portuguesa de Futebol. Nesta entrevista José Alberto Ferreira analisa o percurso à frente da AFV, o que foi feito e o que ficou por cumprir. A esperança de ver um árbitro de Viseu a apitar um jogo de futebol ao mais alto nível, a tentativa de eliminar insultos racistas do desporto rei no distrito e as decisões de final de época depois de cancelados os campeonatos. Não quer que a Associação se torne numa dinastia e promete distanciamento no processo eleitoral

 

Surpreendeu-o o convite de Fernando Gomes?

Sim, de alguma maneira, porque não estava minimamente a contar com um convite destes. Tenho uma ótima relação com Fernando Gomes. Foi um convite muito especial. Numa fase inicial, muito formal e, depois, “tens de preencher os papéis, a doutora Rute Soares vai-te ligar, trata disso, até um dia destes porque agora tenho de ir para uma entrevista”.

Deu-lhe hipótese de dizer que não ou o convite era impossível ser recusado?

Era impossível, porque apesar de ter sido apoiante de Carlos Marta, aquando da eleição para o primeiro mandato de Fernando Gomes, mantivemos sempre uma relação institucional e pessoal extremamente profícua. Posso dizer que é um dos amigos que arranjei no futebol.

Já sabe que cargo vai ter na Federação?

Não sei rigorosamente nada. Não me foi dito, nem procurei saber. Já me fiz a pergunta: porque é que fui eu o escolhido? Ainda não encontrei uma resposta cabal. Brevemente encontrarei o Dr. Fernando Gomes e, olhos nos olhos, falaremos sobre essa questão.

Ainda não conseguiu falar com ele depois do convite?

Não, ainda não fiz questão de falar com ele. Tenho andado a amadurecer a ideia. Foi algo tão inesperado que ainda estou a levitar. Já comecei a descer à terra. Tive uma reunião com os clubes, criámos laços de amizade que são indestrutíveis.

É simbólico também um convite feito a alguém do interior...

Já há muito tempo que Viseu não tinha um representante na Federação Portuguesa de Futebol e penso que, nestes termos, penso que nunca teve. Isso honra-me pessoalmente, mas honra Viseu e a região.

17 anos depois que legado deixa?

Desde logo no primeiro ano de mandato, o Euro 2013 nos sub17 que teve a final no Fontelo. Fomos campeões contra todas as previsões na altura. Tentámos que as infraestruturas do distrito tivessem o mínimo de condições para a prática desportiva: com balneários, por exemplo. Até aí as coisas eram um bocadinho toscas. Foi uma missão que tentámos cumprir com sucesso. As autarquias também contribuíram para estes meus anos de mandato.

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Há marcos históricos. A Covid-19 vai ficar gravada. Passaram três meses desde a paragem dos campeonatos. O que pensou naquela fase?

Ainda hoje não consigo pensar, efetivamente, o que é isto, o que é que nos levou a ficar confinados, a ter medo de um inimigo que por aí anda, surdo e mudo. Ao nível do futebol, pensámos interromper os campeonatos porque começou a haver mortos, um surto que ninguém consegue suster. No início pensei que estávamos a ser fundamentalistas, mas apercebi-me que tivemos razão em termos interrompido as provas e, depois, as termos suspendido definitivamente.

O modelo das 18 equipas na Divisão de Honra foi para si, sempre, o mais razoável?

Nós tínhamos de ser coerentes com a postura que assumimos com a Federação: teriam de subir equipas do distrital para o Campeonato de Portugal. Houve algumas intermitências e chegou-se à conclusão de que não deveria subir ninguém. Entretanto, houve aquele volte-face em que subiram todos e houve o alargamento, com a criação da divisão de elite. Então teríamos de fazer subir aqueles que, por mérito, estavam nos primeiros lugares na altura da interrupção.

Mas teve noção de que não era consensual...

Sim, mas tive também a noção de que era a melhor medida para equilibrar as coisas.

Com a subida do Mortágua há uma vaga por ocupar na Divisão de Honra...

O mérito desportivo é para os Vouzelenses, mas existe o Roriz. Há também um regulamento financeiro. Temos de casar aqui as duas coisas.

Ainda não casaram...

Já casámos.

Tem decisão?

Não, porque primeiro é preciso que, quem tem problemas financeiros, os resolva. Se os resolver, será ele que sobe, se não resolver...

Estamos a falar do Vouzelenses...

Estamos a falar dos Vouzelenses.

Portanto fica aqui a garantia de que se os Vouzelenses resolverem toda a situação financeira com a Associação, sobem...

Sim, sim. Se eles quiserem subir, porque depende sempre da vontade do clube. Podem querer dar um passo atrás agora para depois ganhar o balanço necessário para ser sustentável no futuro.

 

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Vai deixar também criada uma nova Taça. Esta competição vai permitir que haja mais jogos algo que os jogadores e treinadores das equipas das primeiras norte e sul pedem?

O objetivo fundamental é criar competição, porque tínhamos a noção de que não havendo o número de equipas equivalente às da Divisão de Honra, haveria uma lacuna em termos de tempos de competição. É uma forma de dar competitividade, mais jogos, mais competição, promover os derbis regionais. É isso que leva públicos aos estádios. E claro dar aos clubes das divisões inferiores a possibilidade de disputar uma Taça.

Acha que vai ser possível o futebol distrital ter adeptos nas bancadas no próximo ano?

Vai depender muito das autoridades. Eu penso que não pode haver futebol sem público. Se nós permitimos que haja espetáculos em espaços mais reduzidos, com públic, temos de permitir que o futebol tenha... Acho um contrassenso. Permitimos o espetáculo do Bruno Nogueira e da Manuela Azevedo, porque é que não se permite que os Estádios da Luz, de Alvalade, do Dragão, em todos os que foram aprovados, com distanciamento social efetivo, as pessoas vão ao futebol? No fundo, o futebol sem público é como a comida sem sal. Só comemos comida sem sal quando estamos doentes. No fundo, estamos a dizer que o futebol está doente, quando não está.

As regras que os clubes cumpriram na Primeira Liga podem ser as que os das distritais terão de cumprir?

As realidades são completamente diferentes e, por isso, as normas têm de ser adaptadas à realidade. Não podemos exigir que, um indivíduo que viva no meio da serra tenha um Ferrari. Tem de ter um jipe. Há que adaptar às circunstâncias.

As dívidas dos clubes à Associação foram o seu calcanhar de Aquiles?

Como em tudo na vida tem de haver regras e quando há abusos... Nós temos um regulamento financeiro que é do conhecimento público. Custou no início, mas não podemos permitir que, um clube com possibilidades, fique a dever à Associação. E que fique, por isso, com mais capacidade que outro clube, que cumpre, para contratar jogadores. Aí estamos a ser cúmplices...

Mas sai de Viseu com a consciência de que resolveu esses problemas?

Sim, aliás basta avaliar.

Há poucos clubes a dever à Associação?

As dívidas são públicas. Conseguimos reduzir substancialmente aquilo que eram as dívidas.

Estamos a falar de que ordem?

Já chegámos a ter mais de meio milhão de euros.

E agora?

Estamos na casa dos 250 mil euros. Penso que, no prazo de cerca de um mês, esse valor descerá substancialmente.

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Houve um outro tema a marcar a sua presidência: o racismo no futebol. Sente que fez tudo para erradicar o preconceito do futebol?

Nunca se consegue fazer tudo, mas fizemos muito. Houve jogos à porta fechada. No entanto estamos sempre limitados pelo regulamento. E também não tivemos muitos casos a nível distrital. Não podemos exagerar.

Talvez o ano de 2019 fosse o mais negro...

Sim, foi, mas de qualquer maneira não podemos exagerar...

Uma das suas maiores preocupações foi o facto de o racismo poder entrar no futebol de formação. Isso está, para já, mais tranquilo?

Perfeitamente. No entanto, muitas vezes a causa do racismo não são os miúdos. É a envolvente, é quem vai ao futebol.

E como é que se explica que continue a haver racismo no futebol?

É um problema que não consigo explicar. Não é fácil. Às vezes exageramos em termos de racismo. Eu não fico ofendido que me chamem branco. Nós todos sabemos o que aconteceu com o Bernardo Silva no Manchester City...

O problema não é o que se diz, é a forma como se diz...

Um indivíduo pode, de uma forma carinhosa, chamar preto ou branco, ou amarelo. É a forma como se diz, a veemência. Mas temos de erradicar isso, porque as pessoas são iguais.

Quando é que vamos ter árbitros do distrito na primeira categoria de futebol?

Não lhe sei explicar, nem quero entrar em grandes pormenores. Temos categoria, mas falta uma coisinha de nada: fazer sentir nas instâncias próprias que trabalhamos bem, que temos qualidade, mas há um clique qualquer que falta.

Vai tentar dar esse clique agora no chamado magistério de influência?

Vou, pelo menos, tentar fazer sentir às pessoas que Viseu também está no mapa e que queremos voltar a ter pessoas como o Isidoro Rodrigues. Temos valor e qualidade. Costumo dizer aos meus árbitros que eles são bons, mas que têm de trabalhar muito mais para chegar lá em cima. Apesar de termos a A24 e a A25, ainda temos muitas estradas nacionais que, para as percorrermos, ainda demoramos mais tempo. Temos de ser mais céleres. De alguma forma temos de fazer algum magistério de influência junto das instâncias superiores para que isso aconteça. Sabemos que isso acontece dessa maneira...

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A partir de 10 de julho vai sair da Associação. Quem fica à frente?

O poder não vai cair na rua. Eu tenho uma direção que vai assegurar os destinos da Associação até que haja eleições. Tenho três vice-presidentes, a escolha não será minha. Vou dar liberdade para as pessoas se entenderem. Se não houver entendimento, ficam os três.

Uma liderança tripartida...

Sim, também é bonito. Acho que será um período curto, porque estamos a tentar marcar as eleições lá para setembro ou outubro.

E conta que algum desses três vice-presidentes sigam o seu exemplo e se recandidatem?

Isso deixo com eles. Não quero influenciar ninguém, nem implementar uma dinastia na Associação de Futebol de Viseu. Cumpri 17 anos, se calhar já estou há tempo a mais. Sou o presidente com maior longevidade na Associação, tenho obrigação de fazer muito mais do que todos os outros.

Sente que fez?

Sinto que fiz alguma coisa.

O que é que ficou por fazer?

De acordo com os projetos que defini, acho que ficou tudo feito. Agora, há sempre mais coisas por fazer. Todo o processo é dinâmico e umas coisas vão trazendo outras. Há algo que é extremamente importante: eu olho para as Assembleias gerais e vejo pessoas com cabelos brancos ou sem cabelo. É preciso incentivar o dirigismo jovem. É preciso criar condições. É preciso dar alguma coisa: as pessoas sacrificam as vidas familiares, têm algum envolvimento financeiro e depois o agradecimento é levar quatro “parelhas” como se diz em gíria popular.

Do que é que vai sentir mais saudades?

Das pessoas. Repare eu consegui criar uma equipa fantástica na Associação, que foram a garantia de sucesso dos meus mandatos. E depois todas as amizades que criei com os vários dirigentes desportivos. Foi extremamente importante.

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