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Com calos nas mãos e argila nos dedos, assim se luta em Molelos pela história do barro negro

por Redação

28 de novembro de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

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Estamos em Molelos, terra de barro e de gente que o trabalha. A arte da olaria, nesta freguesia do concelho de Tondela, foi passada a Luís Lourosa desde tenra idade. "Percebi logo que era isto que eu queria fazer". Tinha 15 anos. Não sabe explicar o porquê. "Estava cá dentro, digo eu". Desde bem novo que viu pai e avô trabalhar o barro. "Eu era vizinho do meu avô e o meu dia a dia era, praticamente, vir da escola e passar o tempo junto dele. Vi o andamento da olaria, o cozer, o preparar o barro, o cheiro do barro... Era diário. Já foi há tantos anos...", diz-nos, enquanto tenta quantificar.

São já três décadas a trabalhar esta arte. Do início até agora, as diferenças só nos problemas que a idade traz. "Há muito mais dores de costas e de joelhos. A nossa posição no trabalho também ajuda a que esses problemas apareçam com a idade", diz. A entrega, trinta anos volvidos, mantém-se igual. "Faço este trabalho com a mesma entrega. Todos os dias contribuímos para darmos continuidade à história da nossa terra. Sem dúvida", confessa.

Se, por um lado, tem consciência de que viveu tempos complicados, por outro, assume que nunca se arrependeu de ter optado pela vida de oleiro. "Posso ter tido aqueles momentos em que o trabalho não correu bem. É normal. Mas isso não é motivo para desistir. Não houve um dia em que me tivesse deitado e pensado desistir ou abandonar por estar arrependido e enveredar por outro trabalho. Nunca.", assegura. Mesmo que ao início tivesse passado longos meses sem receber por ser oleiro. Nada o fez desistir.

Os primeiros contratempos apareceram quando começou a aprender a arte. "Até conseguirmos fazer uma peça na roda demora tempo. É preciso estar sempre a bater no mesmo. Põe-se um bocado de barro na roda, e muitas vezes, a peça nem chega a meio. Estraga-se. Temos de pegar noutro pedaço. Muita gente desiste logo ali. Ao fim de algumas tentativas, desiste. A persistência é essencial, tal como perceber onde é que errámos", refere. 
A experiência ajuda a melhorar as peças, mas não é sinónimo de correr sempre bem. "Não tenho problema nenhum em dizer que, ainda hoje, chegamos à roda para fazer uma determinada peça e algumas vezes aquela coisa não corre bem. Chegamos a meio e ela, por alguma razão, alaga-se na mesma e cai. Acontece. Há pormenores que ainda hoje acontecem ao fim destes anos todos de trabalho", confessa.

O barro em Molelos é de qualidade, confirma Luís. No entanto a cor negra tem a ver com a cozedura. Hoje em fornos, antigamente feita com método bem mais tradicional. "O nosso barro resiste melhor às diferenças de temperatura, aos choques de calor. Antes de entrar no forno tem uma cor esverdeada. Ganha a cor preta num processo de cozedura que numa primeira fase é o comum de cozer uma peça de barro, mas nós, no fim, abafamos o forno, e fica assim, no nosso caso, entre 20 a 24 horas. O que acontece é que, como abafamos o forno, deixa de haver oxigénio e passa a haver uma camada grande de dióxido de carbono. Como a argila está ainda numa fase incandescente, ela tem um arrefecimento lento e absorve o carbono que se forma durante o tempo em que o forno é fechado. Daí a cor", explica Luís.

Se a arte foi aprendida no passado para, agora, a aplicar no presente, este artesão mostra receio de que, no futuro, não haja quem a vá aplicar ou sequer aprender. "Há vinte e oito anos que não há ninguém a iniciar. Há mais desistências do que novos artesãos. Os que estão em atividade agora já estão a entrar naquela fase de não poder mais e não há novos seguidores. É preocupante. Daqui a vinte ou trinta anos não sei como estará a olaria em Molelos. Sinceramente não sei", refere pesaroso e apreensivo.

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A explicação, acrescenta Luís, pode estar na pouca vontade das gerações mais novas em lidar com trabalhos manuais. "Os jovens dedicam-se às novas tecnologias e isso afasta-os das atividades artesanais. Vêm cá escolas, os jovens gostam de ver, mas faz-me confusão porque muitos estão a ver, mas estão a comunicar com amigos. Não vêm isto como um futuro. Têm receio de sujar as mãos e a argila é tão boa... E ter calos nas mãos é sinal de vivência", diz.

Essas mãos sujas de trabalho viu-as tantas vezes no seu avô. "Ele cozia o barro ainda de uma forma tradicional: em soenga, na terra. A fazer este tipo de trabalho não se podia andar limpo de manhã à noite. Mas essa sujidade faz parte da atividade, da profissão, da arte", refere. As lembranças não se ficam por aqui. "Ele fumava e tinha uma roda tradicional feita de madeira. Punha um cigarro na boca e não o tirava. Era capaz de fazer uma peça, do princípio ao fim, sempre com o cigarro na boca. Chegava uma altura em que a beata acabava por apagar-se e ele a fazer a peça", recorda.

Quem passa por Molelos ouve sempre falar de uma tal bilha de segredo. Trata-se de uma peça que tem animado, ao longo dos anos, muitos jantares e convívios. "Serve de brincadeira. Coloca-se água dentro e, como tem furinhos, a água verte. Então há um truque. Quem souber, consegue beber. É uma questão de experimentarem. Conheço muita gente que compraram a bilha há muito tempo, sabiam o segredo e ao fim de não sei quantos anos, esqueceram-se dele. Voltaram outra vez à estaca zero", diz, enquanto sorri. A peça tem três ranhuras no gargalo e depois tem uns seis furos no bordo. "Se não descobrirem o segredo, a coisa corre mal", confessa.

O dia de trabalho de Luís e do irmão José continua. O forno abre-se para lá serem postas a cozer "em média umas quinhentas peças". Os novecentos graus de temperatura com o abafamento final fazem este barro ficar negro, a cor típica deste artesanato. Para que, nas palavras de Luís, se dê "continuidade à história" deste lugar. 
 

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