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A Avenida Santa Beatriz esconde um Convento com o mesmo nome (Parte 1)

por Redação

23 de janeiro de 2021, 08:00

Foto Igor Ferreira

Vivem em clausura e têm uma marca registada

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Pouco passava das 16h00 quando chegámos ao Convento de Santa Beatriz, em Viseu. A essa hora, o único mosteiro da cidade resume-se ao silêncio. Não se vê ninguém, não se ouve ninguém. Tocámos à campainha e fomos recebidos pela abadessa do mosteiro, Maria Isabel. Sorriu-nos com o olhar e deu-nos a chave de uma sala para onde teríamos que ir. Deparamo-nos com uma parede de grades e, do lado de lá, uma série de cadeiras perfeitamente alinhadas para as irmãs. É um espaço de recolhimento e, por isso, sente-se apenas uma quietude aconchegante, a antever a chegada de quatro jovens. Sorriem muito, estas irmãs. A conversa? Demorou horas. Porquê? Porque nos fizeram uma visita guiada pela história das grades que as guardam das distrações do mundo exterior. E a missão? A oração. 

A Ordem da Imaculada Conceição já atravessou séculos, “mais ou menos 500 e tal anos”, prevê a madre Maria Isabel. Foi fundada por uma santa portuguesa que dá o nome ao convento: Santa Beatriz Da Silva. Nasceu em Campo de Maior e fundou a ordem em Toledo, no Centro de Espanha. “Havia o desejo de estender a ordem para outros sítios, mais para o interior, e as irmãs acabaram por vir para Viseu”, lança, adiantando que “foram bem recebidas e tiveram contacto com o senhor bispo, José Pedro da Silva que, por sinal, também queria trazer um mosteiro para a diocese”. 

Anos passaram e as irmãs chegaram ao coração de Portugal. A 31 de Maio de 1970, fundou-se o Convento de Santa Beatriz, “um edifício mais novo” – já levam meio século neste lugar, para os lados do Viso. Antes, as irmãs estavam no Largo da Prebenda, no centro da cidade. “Chegámos a ser 15”, recorda, admitindo que “era um espaço muito limitado”.

Hoje em dia, são dez. “Há três irmãs mais idosas, uma com 76 anos, outra com 82 e outra com 92”, enumera, entre sorrisos. A conversa flui e, de repente, conhecemos a verdadeira missão das Monjas Concepcionistas Franciscanas: “Há um pilar principal que é a oração. A nossa missão principal na Igreja e no mundo é falar de Deus aos homens e tentar levar os homens e a realidade humana para Deus”, frisa Maria Isabel. 

Os dias decorrem em silêncio para “favorecer um clima de oração e de vida com Deus”. Mas, “todos os dias são diferentes e começam logo bem cedinho”, diz a irmã Maria Madalena de Jesus. Acordam às 6h15 - exceto na Quaresma que é às 6h00 – e vão rezar as laudes. “Temos o nosso tempo de oração até às 9h00”, com as laudes, a meditação e a missa. 

“Depois, cada uma vai para os seus trabalhos e às 12h30, reunimo-nos outra vez para rezar a hora de Sexta e vamos almoçar”, explica a irmã. Na parte da tarde, há uma hora de recreio que, na verdade, é o tempo de partilha. “Às 14h00, toca para o silêncio, em que cada uma pode fazer o que quiser na sua cela. É chamada a hora de cela”, refere. 

“O tempo passa a voar” e, por isso, às 15h00 “toca o sino para irmos rezar a hora de Noa”. O resto da tarde dedicam-se ao estudo. “Ainda assim, dedicamo-nos também ao trabalho até às 18h30, quando regressamos outra vez para ir rezar as vésperas e ficamos na capela até 20h30, intercalado com a meditação e o terço”.

Hora de jantar, mais um recreio e hora de dormir. “O nosso dia é muito pautado por este descanso e trabalho”, diz a irmã Maria Madalena de Jesus, frisando que têm gosto em manterem-se informadas de todos os assuntos que incomodam o mundo, até “para facilitar a nossa missão e sabermos onde socorrer”. 

 

Na vanguarda do marketing

 

Rotinas à parte, as irmãs têm uma marca registada, desde 2015. “É a ConceptioArt”, diz a irmã Ana Beatriz do Menino Jesus, com um notável entusiasmo. Na sua plataforma online (https://www.santabeatriz-viseu.com/shop ), vendem doçaria, alfaias litúrgicas, artigos religiosos e relacionados com espiritualidade. “É tudo muito caseiro, temos também uma máquina de bordados para alfaias litúrgicas ou com desenhos personalizados, não tem que ser religioso”, revela.  

Do outro lado, a especialista em doçaria, a irmã Maria Madalena de Jesus, diz que também “fazemos bolos de aniversários por encomenda”, além dos “quadros com santos, capas de bíblia, bolsas de terço, postais de cortiça. É de tudo um pouco”, conclui. 

O Convento de Santa Beatriz vive de si próprio e, na verdade, da oração. E a clausura? A irmã Leonor Maria da Anunciação explica: “Para isso acho que pode ajudar a imagem do corpo, que tem vários membros e cada um tem uma função diferente. Não pode ser só mãos, ou só pés ou só olhos e nós, no fundo, temos a missão de estar no coração da Igreja, através da nossa oração, a graça e a força de Deus e passar a todos os membros da Igreja”. 

“E para isso há as outras vocações e as outras missões. Formamos todos uma união”, remata, com o olhar a brilhar. 

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