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Covid-19: “O risco do sistema [de urgências] colapsar nesta segunda vaga que vai ser maior”

por Redação

26 de setembro de 2020, 08:30

Foto Igor Ferreira

CLIPS ÁUDIO

Os serviços de urgência dos hospitais do país podem não aguentar a pressão de uma segunda vaga da covid-19 e correm mesmo o risco de colapsar. A opinião, em jeito de alerta, é do presidente do Colégio de Emergência Médica da Ordem dos Médicos e clínico no Hospital de Viseu, Vítor Almeida. 

Em declarações ao Jornal do Centro, o médico lembra que “o Serviço Nacional de Saúde (SNS) já trabalhava no limite antes da pandemia” e o novo coronavírus só veio agravar a situação. 

Na primeira vaga da doença a afluência às urgências diminuiu, devido ao medo dos doentes, mas agora esse receio já foi ultrapassado, em muitos casos, e a adesão aos serviços de emergência está em linha como os valores registados antes da chegada da pandemia. 

“A afluência à urgência é como antes da covid-19 e estão a surgir os covids outra vez e portanto a sobrecarga nesta segunda vaga vai ser maior porque as pessoas já perderam o medo, perceberam que têm que ir para o hospital porque estão doentes e não podem arrastar a situação”, explica Vítor Almeida, salientando que por essa razão “o desafio para os serviços de urgência vai ser maior agora do que na primeira vaga” até porque os casos, mortes e internamentos nos hospitais têm vindo a aumentar. 

“O risco do sistema colapsar nesta segunda vaga, não tenho a mínima dúvida, vai ser maior o que obriga a uma reorganização do sistema e novamente a mais sacríficos dos profissionais que já estão no limite. Os profissionais estão exaustos, temos pessoas a fazem 80 horas por semana e isso não é suportável”, alerta. 

O presidente do Colégio de Emergência Médica da Ordem dos Médicos lamenta que o Governo não tenha aproveitado a altura do verão para preparar uma reforma “do serviço de urgência, para manter números mais baixos de afluência” às urgências hospitalares nesta altura, até porque já se sabia que viria uma segunda vaga do vírus. 

“Essa reforma não foi feita e perdemos uma oportunidade de ouro para fazer essa reforma. Durante os meses de verão tinha sido obrigatório o Governo ter feito reformas estruturais que não fez”, critica, acrescentando ter “uma visão de apreensão e de grande preocupação” face ao futuro. 

“Não quero ser pessimista, mas vejo a evolução da última semana com muita apreensão e muito receio. Daí mais uma vez o apelo à população para recorrer à urgência só mesmo quando for necessário”, diz o clínico que faz parte do gabinete de crise da covid-19 da Ordem dos Médicos. 

Com uma nova onda de infeções, o receio é o colapso das urgências, mas também o aumento, mais uma vez das listas de espera, como aconteceu na primeira vaga. Há doentes, “em sofrimento”, à espera de uma cirurgia e com uma segunda vaga o que se teme é que estes não sejam operados tão cedo. 


Falsas emergências e casos urgentes que são atendidos tardiamente 
A pandemia veio mudar o mundo e também o atendimento aos doentes, até dos mais urgentes. Segundo Vítor Almeida, a covid-19 trouxe dois problemas na área da emergência. Por um lado, há os casos verdadeiramente urgentes, como as pessoas com enfarte ou acidente vascular cerebral, que com medo de se deslocarem às urgências e aos hospitais “ligam atrasadamente” para o 112. 

“Quando a viatura médica (VMER) é ativada muitas vezes vai já numa situação de extrema gravidade e que pode levar até à morte dos doentes. Numa situação verdadeiramente urgente quem devia ligar não liga, o que justifica e pode ajudar explicar o aumento da mortalidade não covid no país”, aponta. 

Por outro lado, há o problema das pessoas que relatam falsas urgências quando ligam para a linha de emergência médica e que acabam por ocupar indevidamente as equipas de socorro. Estes casos, de acordo com a Ordem dos Médicos, “têm ocorrido com mais frequência”.

“Ligam para o 112 a dizer que estão com uma falta de ar intensa e que isso começou há uma hora, mas quando chegamos ao local, confessam que não foi há uma hora, mas sim há uma semana. Dizem que não conseguem consulta no médico de família e que têm dificuldades de atendimento até telefónico no centro de saúde e por isso optam por esta via”, conta.

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Mais do que uma VMER 
Vítor Almeida é um dos médicos em Viseu que trabalha há mais tempo na viatura de emergência médica (VMER) do INEM. Faz serviços para o instituto desde 1997 e ajudou a abrir o helicóptero do INEM na zona centro do país. 

Viseu tem apenas uma VMER, que está afeta ao serviço de urgências do Hospital de S. Teotónio. O veículo serve 500 mil habitantes, sobretudo do sul do distrito. 

O presidente do Colégio de Emergência Médica da Ordem dos Médicos é da opinião que Viseu deveria ter pelo menos três viaturas do género para socorrer quem precisa. 

“Temos um distrito com uma componente rural, isolada e montanhosa, o que limita a chegada em tempo útil às situações. Tem-nos valido o helicóptero, mas estamos reféns praticamente só de uma única equipa de VMER. Portanto, não existindo uma malha de base em cada concelho, com uma capacidade de avançar logo com o primeiro embate e tratar os doentes no local até nós chegarmos, estamos limitados”, evidencia, defendendo a instalação de mais viaturas de emergência médica na região. 

“Um distrito como o nosso, em qualquer realidade europeia, teria pelo menos três meios de suporte avançado de vida, três viaturas médicas, para se ter a tal resposta de 15 minutos em tempo útil”, argumenta, realçando que esse reforço de meios “só depende da vontade do Estado”. 

Para Vítor Almeida, uma das soluções pode passar por afetar um dos dois médicos que trabalham nos serviços de urgência básicos, como o de Moimenta da Beira ou S. Pedro do Sul, a uma ambulância de suporte imediato de vida (SIV) ou mesmo a uma VMER. Os clínicos passariam assim a estar disponíveis para fazer um “primeiro embate” no terreno até à chegada de mais meios de socorro, como o helicóptero do INEM.  

“Temos uma malha deficitária na região que é preciso resolver rapidamente”, defende. 


Mais CODU
Para além do reforço das VMER, para melhorar a prestação dos cuidados aos doentes urgentes é também preciso aperfeiçoar a própria coordenação, ou seja, é necessário criar Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) regionais e ou distritais. No continente, só existem centros deste tipo em Lisboa, Porto, Coimbra e Faro. 

Segundo o presidente do Colégio de Emergência Médica da Ordem dos Médicos, os incêndios outubro de 2017, em que a Rede Nacional de Emergência e Segurança (SIRESP) colapsou, impossibilitando a saída da VMER em Viseu por exemplo, provaram que têm que ser revista também a parte de coordenação dos meios, algo que até já foi defendido. 

“O Estado já modicou o SIRESP, o sistema melhorou, mas percebemos que é preciso haver estruturas locais, regionais, ou distritais que permitam mais autonomia da estrutura central coordenadora. Não bastam os quatro CODU do país, é preciso haver estruturas intermédias a nível distrital que nos permitam ter um sistema de coordenação se for necessário, se o sistema nacional falhar por exemplo”, frisa. 

Vítor Almeida é da opinião que a proteção civil, as forças policias (GNR e PSP) e o INEM podiam perfeitamente estar no mesmo edifício, usar a mesma central e trabalhar com a mesma rede de comunicação. O responsável dá o exemplo de Barcelona, cidade que tem uma sala de emergência onde trabalham várias forças ao mesmo tempo. 


Congresso europeu de Urgência/Emergência
Vítor Almeida foi um dos médicos portugueses que participou no último fim de semana no Congresso europeu de Urgência/Emergência, um evento que ia decorrer em Copenhaga, capital da Dinamarca, mas que devido à covid-19 “mudou-se para” a Internet. 

A iniciativa decorreu apenas online e contou com duas comunicações apresentadas pelo presidente do Colégio de Emergência Médica da Ordem dos Médicos e clínico no Hospital de Viseu. 

Vítor Almeida falou a educação da população e o uso adequado do serviço de urgências e das ferramentas que podem ser utilizadas para formar a comunidade. O médico apresentou o exemplo do INEM que usa das redes sociais para passar mensagens, num trabalho que já foi distinguido com vários prémios. 

Vítor Almeida focou ainda o tema das alterações climáticas e a experiência dos incêndios de 2017, que fruto do aquecimento global obrigaram o sistema de socorro nacional a adaptar-se à nova realidade. 

O clínico anunciou ainda que o Congresso europeu de Urgência/Emergência vai decorrer no próximo ano em Lisboa, no final de setembro. 

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