03 dez
Viseu

GERAL

Em Várzea de Calde, a capital do linho, canta-se para que o trabalho fuja mais depressa

por Redação

21 de novembro de 2020, 08:30

Foto Igor Ferreira

CLIPS ÁUDIO

Várzea de Calde, uma pequena aldeia da freguesia de Calde, concelho de Viseu, é vista como a autêntica capital do ciclo do linho. Aqui, ontem tal como hoje, o linho faz parte das rotinas. Se antigamente se vivia dele, hoje lida-se com o linho como se de uma lembrança se tratasse. A recordação não se fica pelo simples registo. Aplica-se e faz-se obra.

As memórias de Brilhantina Gonçalves fazem-na recuar ao tempo em que o linho nada lhe dizia. "Havia muito que tecer. Como tal as mulheres levantavam-se muito cedo, de madrugada, às vezes às três da manhã. Uma acordava, outra ouvia o tear a bater e juntavam-se os barulhos dos vários teares a tecer. E havia sempre aquela coisa do quem teceu mais...".

Mas desengane-se quem acha que os panos de linho valiam notas e moedas. "Ganhavam alguma coisinha, mas não era dinheiro. A minha mãe era tecedeira e levava as mantas de linho para as aldeias vizinhas a contar que lhe dessem algum dinheiro, mas não davam. Eu era pequena e via. Davam-lhe feijões e mais nada. Quem comprava também não tinha dinheiro. Pagavam-se assim. Era uma troca de géneros", conclui.

Eram tempos de pobreza. "Não havia panos. E aqui semeavam muito o linho. A minha mãe também o fazia. Daí conseguiam-se camisas e lençóis. Como urdiam o linho também surgiam os cobertores para as camas. Envolvia muita gente. Só semear dava uma trabalheira doida". Era a primeira fase do linho. Seguia-se a rega, a monda, a colheita. Daí é ripado, empossado, secado, maçado, tascado, sedado e fiado. Entra depois nas meadas, branqueia-se, doba-se e, por fim, entra no tear.

Brilhantina, conta-nos, que de pequena não gostava de tear o linho. "Então não queres aprender? Não sei como te hás de governar um dia...", dizia-lhe a mãe. Durante alguns anos não esteve em Várzea de Calde, mas regressou depois de o marido se aposentar. Nessa fase algo a puxou para o tear. Talvez as memórias de infância. Ganhou como prenda um tear e, com a ajuda de uma senhora da terra, não mais largou esta fase do ciclo do linho.

Pelo meio, e até para que o tempo passe mais rápido, começa a cantar. "Namorei a tecedeira pelo buraco da chave. Minha porta não se abre nem se me ela quer abrir. Mariquinhas tecedeira tem o tear e não tece, ou ela anda de amor ou o tear lhe aborrece". Os versos saem-lhe à velocidade com quem manuseia o tear.

Uma rua abaixo encontramos Mariana de Campos. "Estou com frio, só tenho esta blusa". A noite começa a cair em Várzea de Calde. "Antigamente aqui trabalhava-se muito. Agora trabalha-se pouco. Antigamente era tudo semeado: à volta do povo e fora. Agora já ninguém semeia nada", conta. Mesmo que alguém queira semear alguma coisa, diz-nos, anda agora por ali o javali que "estraga tudo".

De todas as fases, Mariana por norma tasca o linho. Basicamente separa o linho da estopa. Do linho fazia-se peças mais nobres, a estopa servia para encher colchões. "No verão tascava-se e maçava-se, no verão. Depois no inverno era fiar. As mulheres tinham sempre que fazer. Era um tempo mais alegre que este. Andávamos sempre a cantar nas terras. Não tenho muitas saudades porque trabalhávamos muito, mas era um tempo alegre", lembra.

A riqueza, conta-nos D. Mariana, ali, vinha do trabalho. "Havia poucas pessoas com abundância de dinheiro", diz. Quando ao futuro, confidencia-nos, não vê a atividade do ciclo do linho durar muito tempo. "Isto está a acabar. Há quatro com a mesma idade que eu, as outras são mais novas, mas pouco mais. Novas, novas, não anda lá quase nenhuma e ninguém quer pegar neste grupo. E é mal empregado acabar. Era algo da nossa terra. Uma coisa diferente", concretiza.

Se há pouco descemos, é hora de subir duas ruas e virar à esquerda. Surge-nos logo Virgínia de Jesus ao portão. À janela, sabendo que iam estar jornalistas na terra, aqui e ali surgem senhoras a acenar. Quanto a Virgínia, está pronta a desfiar histórias enquanto fia o linho. Conta-nos que nem todas as senhoras da Várzea de Calde sabem fiar. "Não há segredo. Não é especialidade nenhuma. É preciso fiar direitinho para ficar lisinho. Já viu?", diz-nos enquanto nos mostra uma maçaroca quase cheia. Esta tradição entrou desde cedo na sua vida. "Aprendi com a minha mãe. Lembro-me de ser pequenina e de me dizerem que eu era má quando era pequena. A minha mãe fiava o linho. Ela sentava-se num banco e punha-me no meio das pernas e enquanto ela fiava caíam-me umas arestas por mim abaixo", diz, enquanto sorri. "É verdade", confirma.

E as lembranças não se ficam por aqui. "Já ouviu falar do minério? O meu pai abria muitas covas nos nossos pinhais e nas terras para tirarem o minério. Lembro-me de a minha mãe andar a ajudar o meu pai a lavar a terra só para ficar o minério e eu chorava. Queria colo. É mesmo assim...", lembra. 

Em Várzea de Calde, diz D. Virgínia, "havia muitas Virgínias, lá gostavam muito desse nome e puseram-me assim. Até gosto do meu nome.". Conta-nos que não canta muito sozinha quando está a tratar do linho. "Gosto de cantar quando vou para terras. Gosto muito. Parece que o trabalho me foge. Que faço mais depressa".

Virgínia de Jesus é conhecida em Várzea por ser uma das poucas senhoras que faz as famosas filhoses que, diz-nos, matou a fome a muitas crianças porque "rende". "Não tem nada que saber. É uma maravilha, qualquer pessoa as pode fazer. Não custa nada. Faço-as consoante as vi fazer a minha mãe. Ela fazia com farinha de milho e com manteiga do porco. E se sabiam bem", descreve. A manteiga do porco, a banha, era o ingrediente que talvez fosse o segredo. Mas D. Virgínia continua a receita. "Pomos os ovos numa bacia, um bocadinho de sal, bato aquilo bem batido, ponho água e amasso. Quanto as frito, nunca chego as minhas mãos à massa, nunca. Nem à massa nem às filhoses", acrescenta.

No meio da conversa lembra as palavras do pai. "Até estou aqui a contar coisas que não interessam... Mas ele dizia-me: 'olha que a gente quando faz um trabalho, não pergunta o tempo que leva, mas que fique bem. Se está mal, passa uma pessoa e pergunta-se quem seria que fez este trabalho. Se está muito bem feito, diz que está bem'", refere. 


Está dada a receita para Várzea ser ainda hoje referência no tratar do linho. Talento, esforço e trabalho. Brilhantina, Mariana e Virgínia são parte do segredo. 

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts