09 mar
Viseu

GERAL

Entregam refeições, medicamentos, testes de gravidez, o que for preciso. São os estafetas das ruas de Viseu

por Redação

20 de fevereiro de 2021, 08:00

Foto Igor Ferreira

O Jornal do Centro acompanhou um turno de um estafeta da Uber Eats e testemunhou as dificuldades que enfrenta, em tempo de pandemia

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António Guimarães, mais conhecido por Júnior, começa a aproximar-se da Praça Paulo VI e já lhe avistamos a típica mochila quadrada que o acompanha em todas as entregas. Veio de carro e não de mota elétrica, como é costume. “Gasta menos combustível, mas hoje ficou a carregar”, lança o estafeta, sem que lhe tenhamos perguntado. Cumprimenta-nos com um sorriso falador e olha à volta, como se já soubesse o que iria encontrar. Há cerca de dez estafetas à espera de receber pedidos da McDonald’s. Uns encostados, outros sentados. Conversámos a correr porque a qualquer momento poderia receber um alerta no telemóvel para a “próxima corrida”. Perguntámos pelas diferenças de pedidos entre o confinamento de março com regras mais restritas e as primeiras semanas deste segundo confinamento. Por momentos, hesita, mas não duvida: “no anterior, havia mais pedidos, agora há muita gente na rua e acabam por ir buscar diretamente ao restaurante”. 

É brasileiro, do estado de Rio Grande do Norte, tem 46 anos, é casado, pai de uma filha e vive do Youtube. Ser estafeta “é um complemento”. Veio para Viseu há cerca de dois anos. Sentia que tinha de sair do país. Não só pela insegurança constante, mas também porque não queria que a filha crescesse “com violência à porta de casa”. “A segurança no Brasil não existe, já saí de casa com gente morta na porta. Até hoje continua muito ruim”, lamenta. 

E por vezes, é no desvio que está o caminho. Que o diga António Guimarães, quando se apercebeu que conseguia construir uma vida estável no coração de Portugal. Começou a colaborar com a Uber Eats em maio do ano passado, portanto, “ainda havia algumas restrições da pandemia”. Ao todo, fez pelo menos 1.870 entregas. Já conhece bem os trajetos mais rápidos da cidade e não há cá enganos. No dia em que conversámos, teve um único pedido na hora de almoço, em duas horas que ficou online. “Tem dias que é forte, tem dias que é fraco. Geralmente, antes da pandemia, fazíamos em torno de cinco ou seis entregas. Agora, com a pandemia, o normal é três por turno”, explica, com o olhar no telemóvel, acrescentando que a Covid-19 aumentou o número de estafetas, mas diminuiu o número de pedidos feitos. 

São 19h20 quando António Guimarães recebeu o primeiro alerta da aplicação para ir buscar uma refeição ao restaurante O Meu Frango. O destino? Avenida Dom Afonso Henriques, lote 205. Seguimos-lhe os passos, como se fosse o nosso GPS. Primeira entrega feita e um cliente feliz. “Ganhei 2,75€, e ainda há os descontos. O valor varia com a quilometragem e já estou online para a próxima corrida”, diz, enquanto termina de desinfetar as mãos. 

 

 

 

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Esperámos cerca de meia hora até ao pedido seguinte. E conversa foi o que não faltou. António diz que 80 por cento dos pedidos pertencem à cadeia de fast food McDonald’s. ". É o que mais pedem e também, infelizmente, o que mais demora para nos entregar. Já tive dias em que a gente ficou aqui mais de 50 minutos aguardando pelo pedido”, refere, adiantando que também já fez entregas de bebidas, pão, pensos higiénicos, perfumes porque “com a pandemia, as pessoas não querem sair de casa”. 

Ultimamente, “está tendo muito teste de gravidez, já levei uns três ou quatro”, diz. “Os testes de gravidez e os pacotes de preservativos acho que são os mais estranhos porque por educação quando levo comida digo sempre - ‘Boa noite, boa refeição’ - e que que tu vai falar quando é isso? A gente fica meio sem jeito”, brinca.

Percorremos outras histórias que só acontecem a quem atravessa as ruas de Viseu. Ou então nem chega a conduzir. “Já aconteceu eu levar um pedido do restaurante Portas do Sol para o prédio de cima. A porta era do lado do restaurante e a cliente não quis descer”, conta, entre gargalhadas. 

O telemóvel voltou a dar sinal por volta das 19h49. Desta vez, estávamos no restaurante Kobe Sushi com destino ao Jardim das Mães, bem no centro da cidade. Acompanhámos-lhe o rasto e estacionámos em segunda fila. É um dos problemas dos estafetas. “Quando se anda de carro é muito complicado passar para alguns sítios ou estacionar”, confirma António. 

A andar para trás e para à frente, rapidamente se apercebe que está na morada errada. Na tentativa de contactar o cliente, prepara-se para partir para outro destino: Rua Almirante Afonso Cerqueira, nº 362, “a 600 metros daqui, é pertinho”, lança. O procedimento da Uber Eats dita que “se eu estou no local há 10 minutos e o cliente não está é feito o cancelamento, mas prefiro que receba a comida e que faça outro pedido amanhã”, assinala, enquanto regressa ao carro. 

Em poucos minutos, encontrámos a morada correta e foi feita a entrega, já fora do tempo de entrega. “Perdemos quase 30 minutos numa entrega, mas deixámos um cliente feliz. Isso é que importa. E agora começa tudo de novo”, suspira. Ao conversar, o próprio António pede-nos para voltarmos ao Kobe Sushi para que apareça um novo pedido o mais rapidamente possível. “No McDonald’s está sempre muita gente”, explica. 

E há mais problemas: existem muitos clientes que não estão familiarizados com as funcionalidades da plataforma. “Há muitas pessoas, às vezes idosas, que não têm tanta facilidade em mexer com a aplicação, não coloca telefone, não coloca endereço”, refere, recordando um pedido que fez no fim de semana passado em que “a cliente pôs um prédio que não existia”. 

São contratempos que nem sempre facilitam o trabalho de um estafeta que, por vezes, passa horas à espera de fazer uma única entrega. “Estive online hoje durante 3h40 e ganhei sete euros. O pessoal não pede porque não tem dinheiro, falta girar a economia”, defende, cabisbaixo. 

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