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Covid-19: Misericórdia de Mangualde livre da pandemia. Provedor relata os dias da agonia

por Redação

20 de janeiro de 2021, 16:59

Foto Igor Ferreira

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A Misericórdia de Mangualde já está livre da Covid-19 na residência sénior Senhora do Castelo e no lar Nossa Senhora do Amparo. Os surtos, que tiveram início em meados de dezembro do ano passado, fizeram 80 infetados e 11 óbitos.

Numa mensagem publicada nas redes sociais, o provedor da Misericórdia, José Tomás, reconhece que “o vírus trouxe sofrimento e perturbação, mas também abnegação, coragem e resiliência” sobretudo da parte dos funcionários.

“Passados 36 dias do início do surto, podemos dizer que a tormenta já passou. A vida normal regressa ao Lar Nossa Senhora do Amparo, como já regressou na residência sénior Senhora do Castelo e os utentes, pouco a pouco, vão retomando a sua vida ordinária, enquanto manifestam uma enorme felicidade por sentirem de novo a liberdade. Pelo caminho, foram sacrificados muitos momentos de descanso e de lazer com as famílias. Ficou o Natal e o Ano Novo. Mas todos nós somos perentórios em afirmar: se tivéssemos de repetir fazíamos tudo de novo. Não podíamos deixar de estar presentes”, escreveu o responsável.

José Tomás admitiu, contudo, que todas as medidas tomadas até então não eram suficientes para conter a entrada do vírus, como a testagem periódica aos colaboradores, a diminuição dos contactos, o trabalho em espelho e a subdivisão dos lares em unidades mais pequenas.

“Nas muitas horas de trabalho e alguma conversa, que serviram de purga e registo para memória futura, percebemos que o vírus não é uma cruz que carregamos, mas o resultado de redes de contágio na comunidade, que intercetaram nalgum ponto a Misericórdia, apesar do travão imposto pelas normas e medidas em vigor”, afirmou José Tomás.

“Os dias estão gravados na nossa memória. O primeiro caso positivo, os testes em massa, o isolamento de infetados e a reformulação das equipas, que nalguns casos ficaram muito reduzidas. Éramos poucos para tantas exigências. Em 24 horas, a equipa da residência Sénior ficou reduzida a 2 colaboradores e no Lar Senhora do Amparo reduziu para metade, situação que se foi agravando nos dias seguintes. Pelo meio, muitas horas seguidas de trabalho a cuidar dos idosos”, acrescentou o provedor.

José Tomás recorda que foi preciso reforçar a equipa médica com dois médicos para acompanhar os casos na Misericórdia, assim como a equipa de enfermagem, “numa primeira fase com dois enfermeiros e numa segunda fase com mais 32 horas de enfermagem diária”.

“A sobrecarga de trabalho, associada a uma conjuntura de incerteza e imprevisibilidade, foram as principais fontes de desgaste neste mês de surto. Estávamos a trabalhar numa situação próxima do limite, de grande stress. A incerteza de não saber o que ia acontecer no dia seguinte, gerava ansiedade. Na véspera de Natal, durante a tarde, tivemos que mudar toda a equipa que ia fazer a noite. Foi muito difícil de gerir esta situação”, confessou o provedor, que apontou para “demasiadas mudanças e pouco tempo para refletir e gerir emoções” com uma rápida mudança de planos na instituição.

“Os dias tornaram-se indistintos, na sua estranheza e apatia, e o silêncio instalou-se nas estruturas repletas de vida que servem de primeira casa para os Utentes. Nós somos um povo de afetos e o facto de termos de isolar idosos nos quartos e cancelar visitas afetou-nos a todos”, teceu o responsável, que relembrou que este foi um “tempo tão difícil para a Misericórdia de Mangualde e sem precedentes, onde o nosso desempenho foi posto à prova”.

José Tomás agradece aos colaboradores “pela forma extraordinariamente corajosa, abnegada e estoica como enfrentaram este surto e cuidaram sempre, de forma exemplar, de todos os utentes” e também aos utentes e às famílias pela “cooperação, compreensão, aceitação, tolerância e facilidade de adaptação a todas as medidas aplicadas neste período de confinamento e isolamento, gerador de sentimentos diversos, em que a saudade e a ausência de afetos pelo toque, deixarão marcas profundas na vida de todos”.

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