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De Moçambique para Coimbra e depois para Viseu 

por Redação

26 de setembro de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Adi Cruz tinha apenas cinco anos quando deixou a terra onde nasceu, Massinger, em Moçambique e se mudou para Portugal. Veio para o país natal do pai, que também é o seu, há 37 anos. Hoje tem 42. Viveu praticamente toda a vida em solo europeu. 

“Vim por causa da independência [de Moçambique] depois do 25 de Abril. Obviamente, como o meu pai era português e era branco tinha que vir embora e ele quis trazer os filhos”, conta. 

Apesar de ter deixado Massinger quando era ainda novo, Adi tem ainda bem presentes memórias do local onde viveu os primeiros tempos da sua vida.  

“Não me vou esquecer que a 400 metros de minha casa havia um rio, onde nós adorávamos brincar, mas os nossos pais não gostavam que fossemos para lá porque havia muitos jacarés. As pessoas tinham que fazer obviamente a travessia porque viviam de um lado e do outro, faziam-no em canoas, pareciam quase umas canoas de brincar, mas era o que havia na altura. As pessoas também lavavam a roupa naquele rio e aquilo era engraçado porque nós queríamos brincar e os nossos pais queriam bater-nos para sairmos dali”, recorda, acrescentando, entre risos, que nunca teve nenhum acidente com um jacaré. 

“O meu pai ainda se cruzou com alguns, mas eu por acaso nunca tinha essa infelicidade”, diz, soltando uma gargalhada. 

Quando veio para Portugal, Adi fixou-se com a família em Coimbra. Quando atingiu a maioridade foi viver para Viseu. Na altura era jogador de futebol. Era júnior do Sporting. Foi contratado pelo Sport Clube de Penalva do Castelo, mas vivia em Viseu, onde o emblema penalvense lhe pagava casa. 

Foi na cidade de Viriato que conheceu a ex-mulher, com quem teve um filho, e por lá foi ficando. 

“Já comprei casa aqui e já não faço pretensões de sair”, adianta, salientando que gosta de Viseu, da calma e da paz de espírito que a cidade lhe dá. 

“Gosto dos espaços verdes, da tranquilidade, do à vontade de podermos levar os filhos à escola, ou mesmo deixar os filhos irem sozinhos para a escola, porque sabemos que aqui não se passa praticamente nada. Não acontece grande coisa a nível de violência, roubos ou assaltos. É uma cidade muito pacata e isso é das coisas que mais me prende e cativa, para além de ser uma cidade bastante limpa e virada para a natureza”, aponta. 

O que menos lhe agrada é a questão do emprego, nomeadamente a falta de grandes fábricas que obrigam muitas pessoas a deslocar-se para concelhos vizinhos. 

“O trabalho é o ponto mais fraco. É uma cidade com muito poucos empregos porque não tem muitas fábricas, fábricas que empreguem centenas de pessoas, o que não faz muito sentido. É uma cidade centrada em serviços”, lamenta. 

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Adi está mais do que adaptado a Portugal, mas não esquece que durante anos, sobretudo quando era mais novo, foi alvo de insultos racistas. 

“Quando vim para Portugal quase não havia africanos e pessoas de cor e eu sempre fui muito discriminado. Na escola chamavam-me preto, farrusco, tudo e mais alguma coisa. Sempre vivi com isso, mas já estou mais do que vacinado porque foram tantos anos a sofrer na pele. Agora, atualmente não sinto tanta discriminação”, garante. 

Em Viseu, Adi é coordenador e responsável técnico na banda Hi-Fi. O grupo, nos últimos tempos, tem estado praticamente parado devido à pandemia provocada pelo novo coronavírus. As atuações foram todas canceladas e o verão, o ponto alto do trabalho, este ano foi para esquecer.

“Fomos dos primeiros [setores] a parar porque trabalhamos com público. Temos vindo agora nas ultimas três semanas a estar mais ativos, mas nada que se compare com os outros anos. Estamos praticamente parados. Temos tido uns pequenos trabalhitos, de quando em vez, e creio que ainda vai demorar algum tempo para voltarmos à rotina diária e normal”, defende. 

Apesar de tudo, o chefe da banda Hi-Fi não está muito pessimista. Lembra que esta não é a primeira pandemia a assolar o planeta, também não será a última, e acredita que todos os problemas causados pela covid-19 vão ter uma solução. 

“Podem demorar algum tempo, mas vão ter uma resolução”, conclui. 

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