13 Ago
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Em Inglaterra a lutar contra a covid e outras doenças

por Redação

27 de Junho de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Marco Almeida é um dos muitos enfermeiros portugueses que trocou Portugal por Inglaterra. Nascido e criado em Moure de Madalena, uma aldeia do concelho de Viseu, emigrou para terras de sua majestade faz em outubro sete anos. Na altura, comprou um bilhete só de ida e por lá ficou. 

Marco conta que decidiu mudar de país porque queria sair da sua zona de conforto, mas não só. “[Queria] desafiar-me na adaptação a uma nova língua, uma nova cultura e viver uma nova realidade. A classe de enfermagem vive muitas dificuldades em questão de empregabilidade, especialmente no ano em que terminei o meu curso (2013) pelo que para mim e muitos dos meus colegas emigrar era a opção mais viável, uma opção que decidi abraçar”, explica. 

Este enfermeiro, de 32 anos, vive e trabalha em Chertsey, uma cidade a sudoeste de Londres, a capital britânica. Mudou-se para lá logo depois de acabar o curso. Foi recrutado por uma empresa que esteve a contratar na Escola Superior de Saúde de Viseu, onde se licenciou. 

Segundo Marco, ao nível da saúde Portugal e Inglaterra “são bastante diferentes” e o próprio exercício da profissão também. “A prática de enfermagem aqui é específica para cada área, seja pediatria, saúde mental ou obstétrica por exemplo. Dentro dessas áreas o enfermeiro tem um raio de ação muito mais dinâmico e independente que em Portugal”, revela. 

No Reino Unido, este emigrante trabalhou sempre nas urgências do mesmo hospital. Diz que trabalha “com uma equipa fantástica” e que por essa razão nunca mudou de local de trabalho. 

“As oportunidades de evolução na carreira são uma constante o que ajuda a projetar um futuro neste mesmo hospital”, acrescenta.

Marco Almeida está mais do que adaptado à realidade britânica, todavia não esconde que os seus “primeiros dias foram vividos com medo do incerto”. Garante que foi “muito bem recebido e integrado no hospital e no [seu] serviço em particular”, apesar de ter precisado de “um longo período de adaptação”. 

“Lembro-me de me levarem a comer frango de churrasco porque sabiam que era um prato bem típico português e até de irmos aos cafés certos que serviam expresso como nós portugueses gostamos. Hoje em dia sinto-me perfeitamente adaptado à vida e cultura das terras de sua majestade, mas sou um eterno saudosista”, adianta. 

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Em Inglaterra, nunca se sentiu discriminado por ser emigrante, ainda que muitos considerem o povo britânico xenófobo. Lembra que esse mesmo povo é também conhecido por ser educado e cortês, que muitas vezes ao longo do dia as palavras ‘sorry’ e ‘excuse me’ (desculpe). 

“Adoro a elegância do sotaque britânico e como ele varia de região para região. Não gosto de não perceber o que dizem, especialmente quando se trata de sotaques muito marcados como os gauleses e escoceses. Gosto da pontualidade britânica e da forma como tem esquematizado os seus dias. Não gosto da hora do chá da tarde, nem do hábito de meterem leite no chá. Gosto da cultura de ir ao pub beber uma pint (cerveja) ao final do dia e ficar para comer os famosos fish’n’chips (peixe frito com batatas fritas)”, diz. 

Marco também não aprecia os verões em Inglaterra, mas considera os outonos e as suas cores do mais bonito que já viu. 

“Gosto muito das verdes paisagens do campo e de conduzir pelas suas estradas, mas não gosto de conduzir do lado errado da estrada. A comida inglesa será sem dúvida o que menos suscita interesse para o palato português, mas gosto de ter cozinha de todo o mundo com fácil acesso”, salienta. 

Por norma, este viseense regressa a casa de dois em dois meses para matar saudades da família e amigos, nem que seja num fim de semana prolongado. Devido à pandemia de covid-19, há seis meses que não vem a Portugal. Só pensa na viagem que terá que fazer para rever os seus, aqueles que lhe são mais próximos e que tanta falta lhe fazem sobretudo neste tempo de incerteza. 

“Quanto a voltar [em definitivo], não há dia em que não pense [nisso]”, afirma.

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O novo coronavírus veio mudar tudo. Não pôde viajar para o nosso país. No trabalho vive “dias extremamente difíceis”. Tudo se alterou para o combate a este inimigo invisível. Nunca na vida pensou que iria “enfrentar uma pandemia deste calibre”. 

“Vive-se um constante desafio do que é incerto e uma necessidade de desenvolver autocuidados pessoais e emocionais para estarmos sempre prontos a cuidar do outro. Viver o confinamento longe da família, longe de um abraço foi o mais difícil”, admite, acrescentando que no hospital onde trabalha “a resposta foi bastante positiva e atualmente a taxa de infetados é muito baixa”.

“O medo assolou as nossas vidas e as dos nossos entes queridos. Ultrapassar esta pandemia longe deles é o que mais custa e mais faz pensar em voltar, a toda a hora. Não poder estar lá para um abraço e dizer ‘vai correr tudo bem’. Sabemos que não estamos sozinhos e seguimos esperançosos que melhores dias virão”, conclui.

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