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Foi fazer um estágio a Madrid e por lá ficou 

por Redação

21 de novembro de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Salomé Coimbra Carmelo deixou Portugal no final de 2016. Na altura tinha apenas 22 anos. Natural de Tondela, abandonou o país para fazer um estágio curricular no mestrado em Engenharia Biomédica e Biofísica que estava a concluir. Escolheu Madrid, em Espanha, para cumprir essa última etapa da sua formação e por lá ficou. Já passaram quatro anos. 

“Sabia que estava a sair para fazer um estágio de sete meses, não fazia a menor ideia de que tinha começado o meu próprio processo de emigração. Escolhi vir para cá porque sabia que estaria suficientemente perto de casa (Madrid está a pouco mais de quatro horas de Viseu) e, ao mesmo tempo, suficientemente longe. Parecia-me uma cidade um pouco mais metropolitana do que Lisboa, o que para alguém que durante toda a sua vida idealizou viver em Nova Iorque, significava estar no bom caminho”, diz. 

A engenheira de formação conta que após a conclusão do estágio, várias pessoas aconselharam-na ficar pela capital espanhola e assim fez. 

“O mais engraçado é que nunca cá tinha vindo antes, a primeira vez que estive em Madrid foi também o dia em que comecei a viver em Madrid”, refere. 

Depois do estágio, a tondelense arranjou emprego numa pequena empresa nos arredores da cidade, como não se sentia realizada, acabou por sair passado pouco tempo.  

Atualmente trabalha no departamento de sustentabilidade de uma empresa multinacional de consultadoria de serviços profissionais, que está sediada na torre mais alta de Espanha. 

“Lembro-me que pouco depois de chegar a Madrid disse à minha mãe que ia trabalhar numa das quatro torres. As quatro torres são um complexo da zona financeira de Madrid e impressionam qualquer pessoa que as veja de perto. E eu sabia que ia para lá trabalhar. É daquelas coisas que não consegues explicar, até porque no meu caso, pelo que tinha estudado, à primeira vista, não devia ter nada a fazer num complexo financeiro. Mas um ano e pouco depois, lá estava eu”, refere. 

A emigrante garante que gosta “muito” do que faz, apesar de o trabalho em nada estar relacionado com a sua formação académica. Um dia gostava de trabalhar na área da Biomédica, mas diz ter consciência de que para isso ser possível terá que “sacrificar parte da estabilidade” que, entretanto, conquistou.  

Sobre a mudança para o país vizinho, Salomé explica que “foi uma espécie de experiência de paraquedas”. Não conhecia ninguém, também não sabia falar espanhol. Foi “com total confiança” no seu “portunhol”. Depressa percebeu que os espanhóis, ao contrário dos portugueses, têm mais dificuldades em entender e falar outras línguas. O idioma não foi uma barreira e nunca teve aulas. Considera que “a melhor forma de aprender é pô-lo em prática todos os dias, errando e corrigindo”. 

Nunca se sentiu posta de lado por ser estrangeira, antes pelo contrário, sempre notou alguma curiosidade dos “nuestros hermanos” em relação à cultura portuguesa. Integrou-se tão bem que um amigo até já lhe disse que se tinha esquecido que ela era portuguesa. 

“Desde o primeiro momento, senti imenso carinho por parte deles e continuo a ter essa sensação mesmo passados quatro anos. Claro que ao ser uma cidade minimamente grande há sempre uma dificuldade acrescida em fazer amizades, mas reparei logo que qualquer espanhol fica sempre encantado de ver por cá um português. Já ouvi muitas vezes o ‘trocaríamos a Catalunha por vocês!’”, revela. 

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Tal como em Portugal ou outro país, Salomé entende que Espanha tem “coisas boas e outras menos boas”. O que mais gosta é o facto de o país vizinho ser “muito acolhedor, onde se descansa, mas também onde se festeja”. 

Em Espanha, conta, sai-se “à rua faça chuva ou faça sol”. “Antes da situação em que vivemos atualmente partilhavam-se mais abraços do que raciones de comida”, frisa, salientando que “há poucas coisas” que não gosta. 

“Uma delas é certamente a crescente instabilidade política, que se tem feito sentir ainda mais no contexto da pandemia [provocada pelo novo coronavírus]”, defende. 

Sempre que tem saudades ou se sente mais em baixo, a engenheira visita Portugal. A família é de quem mais sente mais falta. A comida e a proximidade do mar também a fazem voltar. 

Salomé gosta da sua vida em Espanha, todavia não esconde que gostava de voltar ao seu país natal. 

“Dificilmente haverá outro sítio no mundo inteiro que me possa dar a mesma sensação de Casa, com letra maiúscula. Infelizmente sou consciente de que em Portugal não tenho as mesmas oportunidades e condições que noutros países e, além disso, há um bichinho cá dentro que me diz que quer ir ainda mais longe. Claro, estarei sempre tranquila ao saber que tenho sempre um sítio para onde voltar”, conclui.

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