23 out
Viseu

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Um moldavo a ajudar a dar mais saúde aos habitantes da região 

por Redação

17 de outubro de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Se é de Sernancelhe certamente que o conhece, já o viu ou até foi consultado por ele no centro de saúde local. Se já teve que recorrer às urgências de Moimenta da Beira ou de São Pedro do Sul também já pode ter sido atendido por ele. Falamos do clínico Mihail Angheluta. 

Natural de Nisporeni, uma cidade de Moldávia, o médico chegou a Portugal há 22 anos. Em 1997 visitou o nosso país de férias e um ano depois mudou-se para terras lusitanas. 

Mihail abandonou o país que integrava a antiga União Soviética (URSS) à semelhança de outros amigos fizeram. Escolheu Portugal porque um colega tinha cá um conhecido, mas também devido à semelhança entre o português e o idioma moldavo. 

“A língua é parecida com o moldavo, uma língua latino-romano, e por isso escolhi vir para cá”, conta. 

Quando chegou ao nosso país este emigrante fixou-se em Almada, onde esteve um ano, e depois mudou-se para Lisboa. O primeiro emprego que teve não foi no ramo da saúde, mas na construção civil. Antes de chegar a Portugal exerceu medicina durante 12 anos. 

“No início não sabia falar, não sabia nada. Comecei a trabalhar porque acabou o dinheiro que trouxe. O primeiro trabalho que tive foi nas obras. Foi muito complicado deixar a bata branca e passar a trabalhar nas obras”, conta. 

Em 2004, Mihail começou a estudar para exercer medicina também em Portugal. Trabalhava de dia nas obras e à noite tinha aulas. Começou por frequentar lições de português e depois estudou e tratou de toda a papelada para poder ser médico no nosso país. 

“Fiz o teste para entrar na Ordem dos Médicos, fiz o ano comum, fiz tudo. Comecei a exercer em 2010”, refere. 

O clínico não esconde que os primeiros anos em Portugal não foram fáceis. Recorda o caso de uma mulher que se cortou num café e em que ajudou a pessoa, mesmo não estando legalizado no nosso país, correndo o risco de ser apanhado pelas autoridades. 

“Foi difícil porque naquela altura não tinha visto e isso demorava muito tempo. No início pensei ficar quatro ou cinco anos e depois voltar para a minha terra, mas depois comecei a estudar à noite e, claro que era difícil, mas entendi que tinha que estudar para voltar à minha profissão. Porque se não estudasse e voltasse à medicina ia morrer nas obras. Decidi lutar até ao fim e graças a Deus que consegui”, sublinha. 

Mihail mudou-se para a região de Viseu em 2013. Hoje é médico de família nos centros de saúde de Sernancelhe, concelho onde vive com a mulher, e no município vizinho de Penedono. Trabalha também nos serviços de urgência básicos de São Pedro do Sul e Moimenta da Beira, o primeiro concelho do distrito onde trabalhou. 

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O clínico não se arrepende em nada da mudança que fez em 1998, ainda que os dois filhos tenham ficado na Moldávia. Um continua no país e a outra vive com o marido e o filho em Itália. 

“Fui muito bem recebido aqui, gostei muito. Quando comecei a falar melhor percebi que Portugal precisava de médicos. Os utentes também gostam muito de mim e eu deles. Não faço distinções entre pessoas”, avança. 

Mihail sempre quis ser médico. Oriundo de uma família numerosa (tem oito irmãos) desde pequeno que sonhava com a profissão. Quis ser cirurgião, mas problemas nos joelhos não lhe permitiram isso. 

“A minha mãe morreu nova e pediu-me para estudar medicina para ajudar as pessoas”, conta, salientando que é isso que tenta fazer no dia a dia. 

O clínico, de 60 anos, tem hoje dupla nacionalidade. É em Portugal que quer passar o resto dos seus dias. 

“Gosto muito do que faço. Vi que [a prática da medicina aqui] não é nada diferente de outro país. Hoje penso até que o meu país é aqui e não onde nasci. Não quero voltar mais à Moldávia, quero ficar por aqui”, revela. 

Em Portugal, Mihail diz que gosta das pessoas, das paisagens, que já deu a conhecer a família, mas também do clima, que é mais quente, e não tem tantas temperaturas negativas e até neve. 

De negativo pouco ou nada tem a apontar, a não ser a burocracia, que também afeta a prática da sua profissão. 

Quanto à Covid-19, o médico considera que a pandemia veio dar ainda mais trabalhos aos profissionais de saúde, sobretudo a quem, como ele, está na linha da frente. 

“Não é fácil, estamos preocupados connosco e com os doentes que atendemos”, diz.  

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