03 dez
Viseu

Vouzela

Cambra, a aldeia onde ainda se ouvem teares a trabalhar

por Redação

21 de novembro de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

António Silva lança a frase e soa a lenda. “Diziam que havia aí uma moura que passava as pedras para construir a torre”. “São lendas”, confirma, a encolher os ombros. Conhece bem a freguesia de Cambra e Carvalhal de Vermilhas, no concelho de Vouzela. Afinal, é o presidente da Junta de Freguesia. Guia-nos o olhar pelas tradições cravadas na encosta noroeste da Serra do Caramulo. Chegamos a imaginar a aldeia em tons medievais e apreciamos as águas cristalinas do rio Alfusqueiro e do rio Couto. “Hoje em dia, isto está sempre cheio de turistas”.

Agora que pensamos nisso, não teria sido mau termos feito esta visita em fins de maio (se a pandemia tivesse deixado), só para assistirmos ao Arraial do Espírito Santo. Junto à capela, festeja-se o padroeiro de Cambra, mas sempre “com muita alegria e participação das pessoas”. “A seguir às festas, isto está sempre cheio de pessoas porque é uma zona agradável, fresca, tem boa água e gostam de vir para aqui passar as suas tardes e manhãs”, conta o presidente, enquanto caminhamos por um dos becos da aldeia. 

Como gostamos de fazer, desenferrujamos o baú das memórias e ouvimos as histórias das gentes que ali passaram. Vivia-se do que os terrenos davam e, ao contrário de muitas terras, havia quintas a rodear toda a aldeia. “Tinham quintas pequenas, não muito grandes, onde era tudo cultivado para agricultura e para animais para produção própria. Hoje, a maioria está abandonado”, refere. 

Ao andar, encontramos Prazeres Gonçalves, uma fiel habitante de Cambra com uma memória de fazer inveja aos mais novos. “Nasci além do rio”, e foi criada com os avós, “dentro daquela época, com o que havia”. “Aos domingos, íamos com o gado para o monte e juntava-se a rapaziada. A gente divertia-se nas esfolhadas e nas paródias. Jogava-se as cartas, cantava-se, dançava-se, era outro tempo muito diferente de agora”, recorda, enquanto nos sentamos.

Não chegou a fazer à quarta classe. Mas, não esquece o “farnelito” que levava para à escola. “Levávamos um cestinho com um bocadinho de pão, dois ou três figuitos e um bocadinho de queijo”, relembra, entre gargalhadas. À noite, fazia-se “havia a sardinhita e fazia-se também o caldito com umas batatinhas”. 

O tempo passou a voar e, na verdade, viemos com uma missão: encontrar a tecedeira da aldeia. E conseguimos. Ainda se ouvem os teares a trabalhar, mas agora é “quase um hobbie”. Contemplamos movimentos repetidos e o enlace do linho a desvendar “padrões muito bonitos”. Ana Pinheiro é tecedeira desde os dez anos e aprendeu com a avó que, pelos vistos, era uma grande tecedeira. “Em 1940, ela foi a Lisboa à exposição Mundo Português, onde foi considerada a melhor tecedeira do país”, conta, com o olhar a humedecer. 

E Ana continua a tecer todos os dias um bocadinho porque “nenhum trabalho me completa como este”. Faz peças de arte num museu de três teares, um para tapetes, outro para colchas e o último para naperons. Enquanto falamos, não deixa o tear e começa a desfiar recordações: “Há 80 ou 100 anos, aqui nas aldeias, quase todas as casas tinham um tear para fazer as mantas de trapos, o tecido para as roupas, lençóis”. 

Hoje, vai fazendo feiras e mercados medievais. Mas, “isto é mesmo a minha paixão, não vai morrer nas minhas mãos”, remata. 

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