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Viseu

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"Ainda continuamos de luto e com medo de ir à rua"

por Redação

27 de junho de 2020, 07:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

A triste notícia chegou ao início da manhã. Mais dois utentes do Lar da Santa Misericórdia de Cinfães tinham falecido vítimas da Covid-19, juntando-se às duas mortes que já se tinham registado neste concelho. À porta, o carro da agência funerária não passava despercebido. Na rua, poucas pessoas. Apressadas, taciturnas e com olhar pesado. Nesta vila duriense, “respiram-se”, por debaixo da máscara que todos usam, momentos de apreensão. Na última semana, o número de casos aumentou e Cinfães é já um dos concelhos do distrito de Viseu com mais doentes infetados com o novo coronavírus. O surto está, ao que tudo indica, mais ativo em instituições, mas na comunidade todos os cuidados são poucos. “Como tenho de trabalhar, todos os dias ando de um lado para o outro. Mas mantenho sempre os cuidados. Claro que tenho receio, mas não posso fazer mais nada”, contou Manuel “quinze dias” Freitas ao Jornal do Centro. Este trabalhador não é de Cinfães, mas todos os dias exerce a sua função neste concelho. “Olhe, parece que já morreu mais um...”, atira, enquanto se distancia não só porque as normas assim o aconselham, mas também porque tem muito que fazer. E pelo centro de Cinfães, é o passo apressado que marca o ritmo. Isso e a pouca vontade de falar de quem tem muito com que se preocupar. Os dias não “agoiram” descanso.

 

Em Santiago de Cassurrães, por 11 vezes o sino da igreja de S. Tiago tocou. Tantas quantas vítimas foram levadas pela Covid-19. O vírus, como dizem na aldeia do concelho de Mangualde, “atacou forte” em maio. Ainda não está erradicado, mas dos 70 casos confirmados há 56 recuperados. Para já, só três ainda estão em observação ativa. “Tivemos muito medo, mas agora já está tudo mais ou menos. Até já conseguimos apanhar algum sol”, diz Álvaro Martins, de 72 anos. Sentado no muro junto à estrada principal, tem como companhia Carlos Martins, de 86 anos. Entre eles, uma distância de quase quatro metros. No bolso a máscara.

“As últimas semanas ficámos em casa. Tivemos muito medo com o que se estava a passar aqui. Agora andamos mais descansados. Já podemos conviver, mas com distância”, refere Álvaro, enquanto olha para os lados do cemitério e diz que ali estão enterradas quase todas as vítimas.

Com o verão já marcado no calendário, este habitante de Santiago de Cassurrães lamenta que as próximas semanas sejam diferentes daquilo a que estava habituado. “Tenho os meus filhos emigrados em Inglaterra e este ano não os vou ver. Por esta altura, já se via mais gente na aldeia e agora não está cá ninguém. Este vai ser um verão muito diferente”, desabafa. Mas, lembra, “há que estar atento”. “Aligeirámos mais um bocadinho, mas ainda temos medo porque não sabemos o que aí vem”, aconselha.

E as cautelas são deixadas também pelo presidente da Junta de Freguesia. Rui Valério assume que nos últimos dois meses viveu momentos que nunca pensou poder assistir na sua vida. “As perdas e as tragédias tocam em toda a gente desta comunidade. É um familiar, um amigo, alguém que se conhecia. Isto está mais calmo, mas ainda continuamos de luto. Espero não ter de ouvir tão cedo os sinos”, remata, enquanto pede para agradecer, quase com lágrimas nos olhos, a todos os que ajudaram, desde voluntários a técnicos, funcionários assistentes sociais, profissionais da saúde e outras autoridades.

Rui Valério admite mesmo que só com a ajuda de todos foi possível conter um vírus na comunidade que teimava em querer matar. “Eram as próprias pessoas que me ligavam a dizer que tinham testado positivo e logo de imediato eram tomadas medidas”, lembra. Em Santiago de Cassurrães, o surto atingiu 20 pessoas na comunidade.

“Agora, cabe a cada um fazer a sua parte para conseguirmos ultrapassar esta fase”, apela.

Até esta última sexta-feira, Cinfães era o concelho com mais casos em todo o distrito (118), seguido de Castro Daire (114), Viseu (106), Mangualde (78) e Resende (67). Na capital da região, já havia 104 recuperados e apenas dois casos ativos.

Dentro dos recuperados, destacam-se ainda Castro Daire (107), Mangualde (64), Resende (62), Lamego (39), Cinfães (27) e Nelas (21).

No distrito, havia ainda o registo de 34 mortes. Aguiar da Beira (que pertence à CIM Viseu Dão Lafões), Tarouca e São João da Pesqueira continuavam sem registar infetados.

 

 

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