09 Ago
Viseu

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Aprender dentro de casa

por Redação

09 de Maio de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

Em Santa Comba Dão, há carrinhas que fazem quatro circuitos para entregar e recolher os trabalhos de casa dos alunos dos 1.º e 2.º ciclos

CLIPS ÁUDIO

Longe da escola, o ensino faz-se agora no confinamento da casa, onde se mora, que funciona como nova sala de aulas adaptada. Uma nova realidade. É assim para 120 alunos do Agrupamento de Escolas de Santa Comba Dão. Sem computadores e sem acesso à internet, os estudantes recebem as matérias em suporte de papel, transportadas por quatro carrinhas, que fazem outros tantos percursos, para que os alunos possam receber e fazer os trabalhos de casa.

Os “transportadores do conhecimento” percorrem todas as semanas uma média de 100 quilómetros por cada circuito, ou seja, no final 500 quilómetros para levar o ensino a casa de cada um.

Seguimos um percurso com o auxiliar de Educação, António Luís, que todas as semanas tem por missão e responsabilidade de fazer chegar as matérias do 1º e do 2º Ciclos do Ensino Básico a 36 alunos.

Começámos no Largo do Município, onde reside a jovem adolescente de 15 anos, Sandra Coelho, que frequenta o 8º ano. Sem hesitações, confessa que “preferia regressar à escola” porque acha que assim, “está a ser um pouco complicado”, apesar que “aos poucos, vamo-nos adaptando”.

Sandra Coelho esclarece que recebe os trabalhos dos professores em suporte de papel, porque não tem instalado no seu computador “o processador de texto Word”, admitindo que até tem uma boa rede de internet.

A jovem admite que tem saudades dos colegas e do frenesim que se vive em ambiente escolar, “onde tudo tem mais cor e mais vida, do que estar fechada em casa, há quase dois meses”. “É uma seca” afirma.

A paragem seguinte foi numa rua estreitinha da Zona Histórica da Cidade, na empedrada Rua Cândido dos Reis.

Por aqui, ainda se dorme. Por volta das 9h30, o funcionário bate três vezes à porta. Lá aparece na soleira da porta a mãe de três alunos do 1º ciclo que ainda dormitam nos seus, quartos. As matérias são entregues para cada um dos três irmãos, um da 1ª classe, outro que fequenta a 4ª classe e o mais velho que já anda no 7º ano.

A mãe, Lurdes Prata, conta que este método alternativo de ensino “é muito complicado”. Adianta que “preferia que eles estivessem na escola, e eles também”.

Lurdes Prata revela que um dos filhos “é hiperativo e é muito complicado eles estarem em casa”, mas, admite, “nesta situação é melhor que fiquem em casa para evitar qualquer risco de contágio”. A mãe dos três alunos confessa que não tem possibilidades financeiras para comprar computadores, ou mesmo para aderir à rede de internet, porque “não há dinheiro para esses luxos”.

 

Saudades das escolas e dos amigos

 

Chegados às Fontaínhas, no Bairro das Pedras Negras, na periferia rural da cidade, o auxiliar de Educação entrega as “fichas de avaliação” a mais uma aluna do 8º ano. Ainda de pijama, acabada de acordar, Micaela Cordeiro, de 15 anos, vive agora numa casa nova, porque a anterior foi consumida pelas chamas durante os incêndios de 15 de outubro de 2017.

A jovem aluna admite que este método de ensino à distância, com entrega dos trabalhos em casa, “é um bocado difícil, para conseguir fazê-los todos, porque às vezes não se percebe”. “O problema é que não tenho como tirar dúvidas, o que só é possível, quando a aula é presencial”, explica.

Micaela Cordeiro acrescenta que este método de entrega dos trabalhos “só acontece, porque não há dinheiro para comprar um computador ou para pagar a internet”.

A jovem admite que preferia estar na escola, que tem saudades dos colegas e amigos, com quem convivia diariamente no recreio, durante os intervalos das aulas, mas também porque lá podia contar com a ajuda dos professores para lhe tirar todas as dúvidas. A adolescente deseja que este tempo de confinamento, por causa do coronavírus, acabe depressa para poder voltar à escola de que tanto gosta.

A meio da manhã a carrinha que transporta as fichas dos trabalhos escolares chega ao Bairro de São Domingos, onde numa pequena casa exígua vivem mais três alunos, todos irmãos. Os dois rapazes, um deles, o David Santos, de seis anos, frequenta a primeira classe, enquanto que o irmão a seguir, um pouco mais velho, com sete anos, já está na segunda classe. Já a irmã, a mais velha dos três, estuda no 7º ano. Todos recebem um saco com os respetivos trabalhos que cada um dos professores lhes propuseram para fazerem ao longo da semana.

O funcionário do Agrupamento de Escolas de Santa Comba Dão não chegou a bater à porta da casa porque do lado de fora estavam os respetivos saquinhos, com o nome de cada um deles com as respectivas fichas de trabalho da semana anterior. No interior, da habitação, ainda se dormia.

Cuidadosamente, António Luís retira do interior de cada um dos saquinhos as respetivas fichas com os trabalhos escolares concluídos e coloca as novas matérias que eles têm de preparar para a semana seguinte.

O percurso ainda ia a menos de meio e já eram quase 11h00, quando chegamos a Vale Maceira, para deixar os trabalhos destinados a uma menina que se chama Vitória e que ainda anda na primeira classe. À espera, na soleira da porta da casa, ao fundo das escadas, já estava a mãe.

Catarina Coelho recebe os trabalhos da pequena Vitória que os vai fazer logo que possível. É que a menina ainda estava em pijama. Envergonhada espreitava curiosa, logo ali, à entrada de casa, para ver quem era. E lá foi para dentro depois de reconhecer o auxiliar da escola. Já sabia do que se tratava.

A mãe queixa-se que “na primeira semana houve um ligeiro atraso na entrega dos trabalhos, mas com o decorrer do tempo, nas semanas que se seguiram veio tudo certinho”.

Sobre este método de ensino à distância, diz que “até ao momento está a correr tudo bem”, tendo em conta que se viu na necessidade de aceitar esta solução “porque, de momento, não havia outra aternativa”. Apesar de ter internet em casa, “falta ainda o computador que pretendo adquirir brevemente, quando houver mais um pouco de dinheiro”.

 

Quando não há dinheiro há que fazer opções

 

A viagem continua até ao lugar do Cabril, onde reside Sandra Durães, uma professora do Ensino Profissional, agora no desemprego, com um filho que anda no oitavo ano de escolaridade. Aderiu a este projeto porque, diz ao Jornal do Centro, não queria que o filho “não ficasse prejudicado em relação aos colegas”.

Como tem Internet no telemóvel, ele vai recebendo e enviando os trabalhos. Mas com tanta carga escolar, não é suficiente a ligação que ele tem. Esta história das aulas preocupa-me um pouco, porque ele não tem Internet suficiente que suporte, com tanta carga horária, são pelo menos dez horas semanais”, explica.

A mãe espera agora que o novo método de entrega dos trabalhos funcione. “Acho que não há necessidade de contrair despesas extra por um mês e pouco, porque não temos dinheiro para isso”, realça

Sobre a alternativa adotada, Sandra Durães reconhece que não havia outra opção. “É a alternativa possível e acho que sim, porque, infelizmente, nem todos podem ter as condições ideais, mas também não estávamos preparados minimamente para esta pandemia que nos caiu em cima”, diz.

Quanto há missão de assegurar o ensino à distância, António Luís reconhece que o início foi complicado, “porque não sabíamos totalmente onde eram as moradas dos miúdos”.

“Nalguns, era mais complicado porque estávamos a tocar a campainha e não abriam. Noutros, como não tinham campainha, tivemos de tocar noutras portas para irem, por exemplo, ao terceiro andar. Agora, é tudo mais fácil porque já se sabe onde é e é mais rápido. Antes, era um dia inteiro a fazer a distribuição e, agora, faço-a toda em meio-dia”, explica.

O auxiliar diz ainda que a receção dos alunos não era entusiasmante no início, mas agora, assim que toca à campainha, os jovens já sabem o que ele tem nas mãos. Os trabalhos que têm de ser feitos para que a escola continue, mas à distância.

Para além do circuito urbano, existem mais três percursos, dois a sul do concelho, uma das carrinhas percorre a União de Freguesias Óvoa/Vimieiro até ao Chamadouro, junto à Lagoa Azul, no IP3. A terceira rota do ensino à distância faz-se ao longo da freguesia de São João de Areias, atravessa a EN 234 até Casas Novas, Castelejo e Cernada.

Já a norte, uma só carrinha faz o longo percurso que atravessa a freguesia de São Joaninho, seguindo depois até Nagosela, na freguesia de Treixedo, uma localidade que faz fronteira com o concelho de Tondela.

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