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Bispo de Viseu: se calhar, antes da pandemia, "estávamos a abusar"

por Redação

04 de Agosto de 2020, 12:07

Foto Arquivo Jornal do Centro

D. António Luciano em entrevista ao Jornal do Centro

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O bispo de Viseu, D. António Luciano, analisou os efeitos da pandemia da Covid-19 na sociedade e na religião, em entrevista ao Jornal do Centro.

No programa Espaço Atualidade, o prelado, que recentemente cumpriu dois anos à frente da Diocese de Viseu, considerou que as pessoas andavam “a abusar” antes de a pandemia ter chegado.

“Eu penso que nós estávamos a abusar um pouco em muitas vertentes. E, de um momento para outro, sentimo-nos como que manietados, frustrados e às vezes sem saber que horizonte tomar. Para mim, é um ponto negativo que será também consequência do medo, do afastamento e do isolamento. Quando ouvimos dos surtos que vão surgindo aqui e acolá e quando a comunicação social interpela às pessoas, elas vão manifestando medo e dizerem que, se pudessem estar mais tempo em casa, não andam na rua”, diz.

O bispo lembra ainda que a vida “foi feita para a relação e a convivência, para que se criem e valorizem os afetos” que, considera, são “muitos importantes” na família, numa “sociedade sadia” e na Igreja Católica.

Igreja essa que, admite D. António Luciano, “está confrontada com um desafio muito grande, perante a indiferença” e tem de pôr mãos à obra “evangelização e na catequese, porque há muita gente que se afastou da própria vida da Igreja”. “Nós temos de inventar formas de fazer voltá-las para a Igreja, com tranquilidade”, refere.

Questionado sobre o que vai ficar depois da pandemia, o bispo de Viseu diz que é preciso olhar para uma “nova realidade, com muitas semelhanças daquilo do que tínhamos antigamente”.

“Se calhar, [haverá] uma vida muito mais simples e a olhar para o essencial. Nós sabemos que esta pandemia provocou dificuldades a todos os níveis, não só a nível sanitário como também a nível económico e familiar. Há muitas estruturas que estavam sólidas e que, de um momento para outro, começaram a ter dificuldades. E não sei se muitas não irão desabar”, sublinha.

O responsável teme que muitas empresas não consigam aguentar-se depois da pandemia, “para poder, pelo menos, pagar o salário condigno aos seus operários”. “Por isso, temos aqui um horizonte de maior necessidade e até de pobreza eminente”, alerta.

Sobre os efeitos económicos da Covid-19, D. António Luciano apela para que o Estado ajude a preservar os empregos e lembra que as pessoas poderão perder tudo o que têm.

“De um momento para outro, não sei se vamos conseguir aguentar e pagar a renda da casa e a educação dos filhos. Pois, sem trabalho, não há pão. Sem pão, não há estabilidade familiar. Sem estabilidade familiar e sem emprego, as pessoas podem perder a casa e os seus bens que muitas vezes alcançaram fruto de sacrifício, trabalho e honestidade”, defende.

O prelado acrescenta que a honestidade é um valor que deve ser recuperado e lembra que o povo português “tinha uma caraterística muito grande”. “Por um lado, era muito solidário e atento às necessidades dos outros mas, por outro, também marcava muito a honestidade e esses são valores que temos de recuperar”, remata.

O bispo de Viseu esteve à conversa no Espaço Atualidade que pode acompanhar em permanência em www.jornaldocentro.pt. Na Rádio Jornal do Centro (98.9 FM), a entrevista passa às 17h50 e às 22h00 desta terça-feira (4 de agosto).

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