04 Jun
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Coronavírus: entrevista com um dos primeiros recuperados da Covid-19

por Redação

04 de Abril de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

Armando Almeida, natural de São Pedro do Sul, esteve internado 11 dias no Hospital da Guarda

CLIPS ÁUDIO

03 Abr 2020

"Dias de Aflição": Armando Almeida, um dos recuperados da coronavírus

Armando Almeida foi um dos primeiros infetados pelo novo coronavírus no distrito de Viseu. Chegou a estar internado no Hospital da Guarda. Com 32 anos, natural e residente em São Pedro do Sul, é, hoje, um dos recuperados da Direção Geral da Saúde. Ao Jornal do Centro, conta, juntamente com a namorada, Susana Sousa, como viveu “dias de aflição”

 

Que sintomas teve no início da doença?

Armando Almeida (A.A.): Eu trabalho numa localidade perto de Madrid, a cerca de 25 quilómetros. Comecei a sentir alguns sintomas no dia 11 de março (quarta-feira). Cansaço, uma ligeira dor de garganta e de cabeça. Fui achando sempre que era um gripe, apesar de as dores terem piorado. No sábado, senti uma pressão enorme no peito, uma grande dor de cabeça, as pernas doíam-me… Caminhava um bocadinho e ficava como se tivesse feito quilómetros. Como já se falava tanto no vírus, achei que já podia estar infetado. Nesse dia (sábado) ainda fui trabalhar, até as 13 horas. Custou-me imenso passar a manhã, doíam-me muito as pernas e sentia-me muito cansado. Já tinha alguma tosse.

E febre?

A.A.: Não, nunca tive febre. Cheguei a ir a uma farmácia comprar um termómetro para ir medindo a temperatura, mas nunca tive febre. Vim a saber que na fábrica onde trabalhava uma pessoa tinha sido mandada para casa porque apresentava sintomas e aí comecei a pensar e a somar os sintomas todos que tinha, as notícias que via na televisão e o que diziam… Cheguei a casa, almocei já sem fome, porque não tinha apetite e, entretanto, fui-me deitar. Dormi desde a meia tarde de sábado até à hora de almoço de domingo e acordei mais cansado do que quando me tinha deitado. Aí, foi quando pensei que algo se passava comigo. Ainda me lembrei de ligar para o Serviço de Saúde de Espanha mas, pelo que via na televisão e ouvia dizer, estava muito atrasado. Os hospitais a abarrotar… Então, optei por vir para Portugal. 

Fez a viagem sozinho de Espanha até Portugal?

A.A.: Sim. Foi uma viagem muito dolorosa por causa do cansaço que sentia e a tosse. Mas vim sozinho até aqui a casa. São, praticamente, 520 quilómetros. Só parei para meter gasóleo em Salamanca, mas fi-lo já com luvas e desinfetei sempre as mãos com álcool que trazia comigo. Não toquei em nada. Voltei a pegar no carro e só parei em casa [em S. Pedro do Sul], onde também não tive contacto com absolutamente ninguém.

Em São Pedro do Sul vive sozinho?

A.A.: Não, moro com a minha namorada (Susana Sousa) que esteve sempre em contacto comigo durante a viagem porque sabia que não vinha bem. Mas saiu de nossa casa e foi para casa dos meus pais para que eu ficasse sozinho em casa e não termos qualquer tipo de contacto. Ainda me veio trazer uma sopa à noite, que deixou do lado de fora da porta. Dormi até segunda-feira e durante esse tempo ela [Susana Sousa] esteve sempre a tentar falar com alguém do SNS24 e para a minha médica de família até conseguimos arranjar maneira de ir para o Hospital da Guarda.

Mas, antes disso, foi a linha de Saúde do SNS24 que fez esse encaminhamento?

Susana Sousa (S.S.): Eu nunca consegui falar com o SNS24. Por isso, lembrei-me em ir ao Centro de Saúde de Vouzela para ver o que podia fazer. O médico e a enfermeira que estavam de serviço deram-me indicações do que fazer na altura em que chegasse o Armando e disseram-me que iriam entrar em contacto com a Linha de Apoio ao Médico (LAM). Pelo que sei, nunca conseguiram uma orientação do caso. Pediram-me o meu contacto e também o do Armando para irem vendo como é que ele estava. Ficou combinado que no dia seguinte, segunda-feira, quando a médica de família do Armando, entraria de serviço no Centro de Saúde de S. Pedro do Sul, entrarmos em contacto com ela. No domingo à noite o Armando já começou a ter febre. Continuei sempre a tentar ligar para a linha de Saúde 24… Nõo tive resposta. Só a médica de família do Armando, na segunda-feira, é que através da LAM conseguiu que nos mandassem para a Guarda para fazer o teste de despistagem.

O que se seguiu?

S.S.: A médica de família pediu-me os dados do carro onde o Armando iria chegar ao Hospital da Guarda e de quem iria com ele. Eu entrei em contacto com a médica [de família] às oito e meia da manhã de segunda-feira e às 10 da manhã já estávamos a sair de casa. Chegámos à Guarda por volta do meio dia e qualquer coisa. Não parámos em lado nenhum. Eu levei luvas e uma máscara e ele também. O Armando ia sentado no banco de trás Não tivemos contacto com ninguém.

Esse também foi o primeiro contacto da Susana, o ter que levar o Armando ao Hospital…

S.S.: Sim, foi. No domingo à noite falámos sempre por telefone. Eu vim cá a casa trazer-lhe uma sopa, mas deixei-a à porta e fui embora. 

Quando chegaram ao Hospital da Guarda, como foi todo esse o processo?

A.A.: Deu-me a entender que o porteiro já estava à espera que chegássemos a qualquer momento. Reconheceu o carro e encaminhou-nos para um parque mais reservado na lateral. Entretanto veio um enfermeiro ter connosco. Confesso que já não me recordo o que disse. Depois, veio uma auxiliar com uma cadeira de rodas e protegida com equipamento de vestuário. Fui para uma sala de isolamento. Entretanto fiz a recolha do teste e fiquei a aguardar o resultado.

Quanto tempo demorou a saber o resultado?

A.A.: À minha namorada disseram-lhe por volta das nove da noite. Não tinha relógio comigo, por isso não consigo dizer quanto tempo foi ao certo, mas provavelmente umas cinco, seis horas. 

S.S.: Foi muito tempo. Eu sei que na altura a médica de família do Armando ligou-me para ver se eu já sabia. Como não sabia de nada, ela ficou de ligar diretamente para o Hospital. Só passado um quarto de hora, 20 minutos, é que me ligou um médico pneumologista a dizer que tinha dado positivo. 

A Susana não acompanhou o Armando ao interior do Hospital?

S.S.: Não. Fiquei sempre dentro do carro. Apesar de o porteiro insistir que não podia ali estar, o enfermeiro tinha-me dito que não podia ir embora porque se o teste do Armando fosse positivo, eu também teria que ser testada. 

E a Susana chegou a fazer o teste?

S.S.: Não, porque o Armando explicou ao médico que o único contacto que tivemos foi na viagem de S. Pedro do Sul até à Guarda e que eu tinha levado máscara e luvas. Então eles acharam que o melhor seria eu voltar para casa em quarentena. Durante esse tempo fui contactada pela Linha de Saúde 24 e graças a Deus não tive nada. 

O Armando ficou logo internado…

A.A.: Sim, assim que soube o resultado do teste fiquei logo internado, em isolamento. 

Quanto tempo esteve internado?

A.A.: 11 dias. Desde o dia 16 de março (segunda-feira) até dia 27 (sexta-feira). 

Durante esse tempo que esteve internado, começou a sentir-se melhor gradualmente?

A.A.: Quando cheguei, na segunda-feira, estava muito mal. Mas a terça e a quarta-feira foram os dias em que me senti pior. Eu só fiz febre, pela primeira vez, no domingo (um dia antes de ser internado) e na terça e quarta-feira a febre aumentou bastante e doíam-me muito as pernas. Tiveram que me colocar oxigénio porque tinha dificuldades em respirar.  Quando começou a aproximar-se o final da semana, fui melhorando, a saturação foi estabilizando, o pulso também. Já conseguia estar em pé ou sentado na cama. Mas durante essa semana estive sempre a fazer oxigénio. 

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Esteve num quarto sozinho?

A.A.: Sim, completamente sozinho. 

A Susana voltou para casa e também se manteve sozinha, sem contactar com ninguém?

A.A.: Sim. Ela sempre que precisava de alguma coisa deixavam-lhe à porta de casa e até agora não teve sintoma nenhum. 

Quando o Armando teve alta hospitalar, quais foram as recomendações que lhes foram feitas?

A.A.: Antes de ter alta ainda me fizeram dois testes, com diferença de 48 horas, que deram negativo. Quando se soube o resultado do segundo teste foi quando me mandaram para casa e a recomendação que me dera foi utilizar uma casa de banho individual, não partilharmos a mesma casa de banho, e desinfetá-la sempre que usar. Não me disseram nada sobre o facto de dormirmos juntos, mas achei por bem dormir separado dela e, claro, dentro de casa mantermos um certo distanciamento. Também tenho que cumprir os 14 dias de quarentena, como qualquer pessoa infetado ou que tenha tido contacto com um infetado.

Não veio para casa com nenhuma medicação?

A.A.: Não, nada. Disseram-me só que teria de continuar a controlar a febre. No dia depois de ter alta, ligaram-me do Hospital para saber como estava. Estava relativamente bem, ainda cansado mas não muito. Pelo menos, menos do que no Hospital, mas o ambiente também é diferente. Lá sentia-me stressado. Também me deixaram a indicação de que se alguma coisa se alterasse, para entrar em contacto direto com o Hospital. 

O Hospital continua a fazer esses contactos com o Armando ou, agora, já não?

A.A.: Não, agora já não têm feito. Eu é que tenho um número para onde devo ligar caso surja algum sintoma.

Como têm sido os dias, agora, por casa? 

A.A.: Estou na cama porque estou sempre cansado. Caminho da cama para a sala e canso-me. Passo os dias ou deitado na cama ou sentado no sofá a ver televisão. Também não tenho força para muito mais. 

Assim que ultrapassar isto a 100 por cento, o que é que vai fazer ou tem mais saudades de fazer?

A.A.: Vou para a rua brincar com a cadela. 

Quer deixar alguma mensagem de esperança para quem está, neste momento, a passar por uma situação destas pela qual o Armando e, também, a Susana, estão a passar?

A.A.: Sim. Não percam o ânimo. Acho que o nosso país, os nossos médicos e enfermeiros estão a trabalhar bem. É uma coisa nova para nós e também para eles. No meu caso correu bem. Reagi à medicação que me deram. O que me disseram para fazer, cumpri e correu bem. Não devemos entrar em pânico. Devemos, sim, cumprir tudo o que eles (profissionais de saúde) nos dizem. Ficar em casa, lavar bem as mãos, e não acharmos que se formos infectados que vamos morrer. Devemos acreditar que vamos ficar bem e tentar reagir. Pensar positivo, pensar que brevemente vamos para casa, que será uma questão de dias assim que chegarmos a casa. Não podemos desanimar, muito menos achar que não vamos recuperar, porque vamos. 

O Armando tinha algum fator de risco nos seus antecedentes de saúde?

A.A.: Não. Nunca tive nenhum problema de respiração. Nada.

Como reagiu a família do Armando a tudo isto?

A.A.: Foi complicado para todos. Para os meus pais, para os meus irmãos. Todos sofremos com isto. Durante o meu internamento, acredito que a minha família chegava a estar mais preocupada do que eu próprio, porque tinha acesso à informação… viam o número de infetados e de mortos a subir todos os dias. Eu não tinha acesso ao que estava a acontecer lá fora [do Hospital]. E eles, cá fora, viam tudo. Acabam por sofrer tanto ou mais do que nós. Não fisicamente, mas psicologicamente.

Sente que o facto de ter tido um encaminhamento atempado, pode ter sido crucial para a sua recuperação?

A.A.: Claro. O tempo faz diferença na evolução dos casos. Entre um doente que possa vir a precisar de ser ventilado ou, como eu, que recuperei e já voltei para casa. Ainda não estou bem, mas sinto que estou a recuperar. 

S.S.: Há um fator muito importante no caso do Armando, que foi a ajuda da médica de família. Eu telefonei para a delegada de saúde e ela disse que não podia fazer nada, que tinha que contactar com a linha de Saúde 24. Como não conseguia, num ato de desespero liguei para a médica (de família) e ela fez tudo por tudo. Se ele (Armando) naquela segunda-feira foi tão rápido para a Guarda, a ela tem que o agradecer. Eu não consegui, desde as duas da tarde de domingo, falar com a Linha de Saúde 24. 

E depois as pessoas acabam por se sentir impotentes…

A.A.: Sim. Todos nós ouvimos falar, a toda a hora, da Linha de Saúde 24. Tudo quanto é televisões, jornais e revistas. Quando chega a hora em que precisamos daquele número, que até já o sabemos de cor porque o estamos a ver e ouvir a toda a hora, basicamente não nos serve para nada.

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