25 Set
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A esperança depois de uma noite de sobressalto

por Redação

07 de Agosto de 2020, 18:20

Foto Arquivo Jornal do Centro

Depois de uma noite em que ninguém dormiu, a madrugada nasceu com as ruas cheias de caruma e folhas que ainda ardiam

CLIPS ÁUDIO

A chegar a Sernancelhe, “depois de uma noite de sobressalto”, ainda se vê pequenos focos de fumo a dispersar no céu. “Pelo mato acima”, até à Nossa Senhora das Necessidades, o cheiro a floresta queimada ainda se sente.

Árvores destruídas e “uma mata” em tons de cinzento, desenham a “nova paisagem da aldeia de Vila da Ponte”.

Com o incêndio em fase de rescaldo, os habitantes “estão a descansar, fechados dentro de casa por causa dos fumos”. Conseguimos encontrar Vítor Santos.

Habitante da aldeia de Vila da Ponte, relembra os momentos em que o fogo ameaçou “as casas encostadas ao mato”.

“A noite não foi nada fácil, principalmente porque a gente tem ali as casas. Fui-me encostar eram três da manhã”, conta.

A respirar de alívio, confessa que a união da população foi decisiva no controlo das chamas.

“Tínhamos a malta nova aqui da terra, isto agiu tudo. Nós ajudámos a puxar as mangueiras aos bombeiros, em tudo o que podíamos. A gente não se deitou, estivemos sempre ali”, recorda.

Entre os momentos de aflição, a solução foi “tirar tudo para fora e molhar o que estava encostado às casas”. “Depois disso, apareceram dois autotanques desses da GNR. Estávamos protegidos”, lembra.

A vizinha, Maria Amélia, com “a casa no mesmo correr”, confessa que “ninguém dormiu, mesmo os bombeiros estiveram ali toda a noite”.

“Não vi quando foram embora, mas uma vizinha disse-me que eram quase quatro da manhã quando foram chamados para outro lado”, revela.

O “medo que o fogo chegasse às casas” estendeu-se pela noite dentro.

“Foi quase toda a noite. A minha nora andou com a mangueira e depois a Junta de Freguesia abriu a boca de fogo. Ligou a água e regou tudo por ali acima”, recorda Maria Amélia, enquanto pousa o olhar naquele horizonte cinzento.

Maria Amélia continua alerta porque, “por cima da casa ainda se vê fumo”. “Mais um bocado de vento, é capaz de tornar a acender”, receia, acenando com a cabeça.

Com vista para o Santuário da Nossa Senhora das Necessidades, Luís Saraiva, proprietário da Lubritávora e, “com casa do outro lado”, andou até de madrugada a “ajudar a malta”.

“Andei até às três e meia da manhã. O que vale é que o vento acalmou e estavam aí os bombeiros”, confessa.

Sem grandes receios, o habitante da Vila da Ponte afirma que o fogo “até às casas não chegava”.

“A Junta tem aqui uma faixa de segurança bastante limpa e grande. A preocupação das pessoas é sempre essa, mas a vegetação ali era baixa”, explica. A intenção da população “era tentar salvar o máximo possível porque, ao fim ao cabo, isto é um património que é de toda a gente, principalmente dos que cá moram”, remata.

A olhar para a encosta “ainda a fumegar”, Gabriel Machado, também de Vila da Ponte, não esconde o receio que sentiu pelo “fogo que metia medo”.

“Foi muito complicado. As casas da parte de cima da estrada, essas é que meteram mais medo”, recorda.

Depois de uma noite em que ninguém dormiu, a madrugada nasceu com as ruas cheias de caruma e folhas que ainda ardiam.

Na realidade, “o que importa é que está tudo controlado”. De resto, “a zona mais bonita que havia aí no Granjal, Lapa, Sernancelhe, ardeu tudo”. “Lá se foi aqui o pulmão da zona”, lamenta Gabriel Machado.

Do outro lado, o espírito de um antigo bombeiro faz sentir-se. João Augusto Justino, natural de Sernancelhe, esteve no Granjal, porque a sogra tem lá uns terrenos.

“Foi difícil, estava a arder muito. Lá ainda ardeu um bom bocado e chegou mesmo a umas casas encostadas à Nossa Senhora da Aparecida”.

À semelhança do que aconteceu em Vila da Ponte, “a população juntou-se e controlou aquilo”. Mas João Augusto Justino deixa algumas críticas à atuação dos meios aéreos.

“Foram tardios e mal coordenados. É a minha opinião e a de muitos. Agora, os bombeiros estiveram a 100 por cento. Fizeram os possíveis e impossíveis”, defende.

O sernancelhense aponta as zonas de Gradiz e do Granjal como as mais preocupantes. “Só há ali um sítio, na zona de Gradiz e outra no Granjal, que pode incendiar. Há muitos pinheiros na zona de Aguiar da Beira. O fogo passou os três concelhos, Aguiar da Beira, Sernancelhe e Moimenta da Beira”, diz, cabisbaixo.

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