04 Jun
Viseu

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Exclusivo: “Mercearia em contenção. Venda só o essencial”

por Redação

28 de Março de 2020, 09:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

A pouca vida que ainda existe por muitas das aldeias mais isoladas foi “interrompida” pela necessidade de se ficar em casa por causa da Covid-19. Onde antes era o ponto de encontro dos resilientes, hoje só se vêm avisos escritos à mão de “encerrado”, “fechados por tempo indeterminado” ou “fique em casa”. E nem mesmo o cemitério, um lugar solitário, deixa que se descanse a alma em silêncio. Agora, de cadeado na porta só entram funerais e com o máximo de 15 pessoas.

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Quilómetros e quilómetros percorridos, aldeia em aldeia, o cenário é igual. Nas ruas, durante o dia, pouca gente (muitos ciclistas, mas sozinhos) e em passo apressado. Salvam-se alguns pequenas indústrias, minimercados, padarias e cafés improvisados. Tudo com regras. Em Travanca de Bodiosa (Viseu), por exemplo, a entrega de pão é feita por um postigo. Na fila é preciso cumprir com a distância. Em Quintela (Vouzela), o minimercado em “contenção” só deixa entrar um cliente de cada vez. Em Canas de Santa Maria, só o posto de abastecimento está aberto e, por estes dias, são poucos os carros que por ali param para encher o depósito ou trocar dois dedos de conversa.

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Em Lustosa, as cadeiras em fila junto à esplanada de um café são a barreira de que ali não se pode entrar. Outra paragem: Loumão. Para ir ao minimercado chama-se o dono, caso seja urgente algum bem de primeira necessidade.

A quarentena está a ser cumprida. “Noventa e cinco por cento da população está em casa. Os outros cinco por cento são os que precisam trabalhar. E é trabalho casa, casa trabalho. São aldeias fantasma”, conta José Cerveira, presidente da Junta de Freguesia de Oliveira de Frades, Souto de Lafões e Sejães.

“Ainda ontem fomos distribuir uns panfletos para ajudar as pessoas. Tudo deserto. É mau de se ver, mas é bom no sentido de que só assim poderemos voltar à rua”, desabafa.

O retrato é igual em Moçâmedes, Farminhão, Sabugosa, alguns dos muitos sítios percorridos pela reportagem do Jornal do Centro nos últimos dias. De carro, em separado e com as distâncias que as medidas de contenção exigem.

Mas há rituais difíceis de mudar e aquela cervejinha de fim de dia continua a saber bem para quem aprecia. Como os tempos são novos, também a forma de convívio tem regras. Beber sim, em companhia, em roda, mas com a salvaguarda do distanciamento. “A malta de mais idade não arrisca sair. Os mais novos nem tanto, são os que têm de trabalhar”, esclarece, por seu lado, Pedro Cruz, presidente da Junta de S. Joaninho (Santa Comba Dão). “Mas aqui, nem cafés nem associações. Está tudo fechado”, afiança.

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Nos últimos dias, a GNR de Viseu já fechou no distrito nove estabelecimentos por violação das regras do Estado de Emergência. “Em termos de detenções por desobediência ainda não tivemos nenhuma. Vamos continuar a fazer ações de sensibilização e pedagogia junto dos cidadãos”, conta o tenente coronel Adriano Resende. “De uma forma muito geral, o cidadão está a acatar muito bem e uma nota de agradecimento por parte da Guarda porque só assim podemos ganhar esta batalha”, refere. O agente da autoridade lembra de novo as regras: grupos de risco, nomeadamente idosos, devem resguardar-se, e quem pode deve ajudar na entrega de alimentos ou medicamentos e há o dever geral de recolhimento de todo o cidadão.

Quem não pode fechar portas, mas as deixa entreabertas, são as farmácias e os centros de apoio à população mais vulnerável, pólos essenciais nas pequenas localidades. No primeiro caso, os postigos foram uma das medidas implementadas desde a primeira hora.

Em Bodiosa, por exemplo, os utentes do lar aproveitam o pátio envidraçado para apanhar os raios de sol. Também há tempo para criar e deixar a mensagem: “Vamos todos ficar bem”.

E vamos todos ficar bem é mesmo a frase e a expressão que, ao longo dos quilómetros percorridos se ouviu ou leu. Os mesmos quilómetros que já antes tinham sido percorridos, em 2017, quando o fogo deixou localidades destruídas. Na altura, todos juntos ajudaram a erguer o que as chamas dizimaram. Hoje, todos juntos, mas em separado, “também vamos ficar bem”.

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