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Gonçalo Amaral, investigador do caso Maddie, diz que teoria do rapto é “a mais frágil”

por Redação

27 de junho de 2020, 07:30

Foto Igor Ferreira

CLIPS ÁUDIO

O caso Maddie, criança inglesa que desapareceu no Algarve há 13 anos, teve nas últimas semanas novos desenvolvimentos com o alegado envolvimento de um cidadão alemão suspeito do seu rapto. Gonçalo Amaral, antigo inspetor e coordenador da Polícia Judiciária em Portimão, investigou o caso. É natural de Torredeita, Viseu, e em entrevista ao Jornal do Centro analisa agora as pistas que têm sido divulgadas

 

 

Porque é que 13 anos depois surgem novas pistas e dados?

Começo por agradecer esta oportunidade de, digamos assim, ter este regresso a casa. Vamos começar por situar os factos. Há uma criança que desaparece há 13 anos do aldeamento turístico do Algarve. Falta dizer, e isto está no processo, que não era só esta criança, mas também os irmãos dela (gémeos) e filhos dos amigos dos pais (eram quatro famílias) que todas as noites, durante quase uma semana e durante o período da hora de jantar e até altas horas, estiveram sempre sozinhas, abandonadas e em risco. Estiveram em risco porque alguém não as soube proteger e uma delas desapareceu. Se não existisse o risco, não tinha desaparecido. No momento a seguir ao desaparecimento, todo o grupo tentou demonstrar à polícia de que ao contrário do que se poderia supor eles não estavam em insegurança, que tinham um esquema de vigilância. Inclusive nessa noite apresentaram dois esquemas em que demonstravam que iam vendo os filhos uns dos outros à vez.

 

Qual foi a preocupação dos pais, demonstrar que não tinha havido negligência?

A questão nem é tanto da negligência, era mesmo da segurança. Eu não estou a falar em tipo de crimes que possam ter cometido. Eu falo só em factos e depois alguém superiormente que os analise. O facto é que aquelas crianças, todas elas, foram abandonadas.

 

Os amigos estavam todos combinados?

Eles combinaram a seguir. O desaparecimento não é logo comunicado às autoridades, levou algum tempo durante o qual terá ocorrido esse tal combinação para dar a entender que as crianças estavam em segurança. O tempo de comunicação costuma ser mais rápido, ali levou meia hora a 40 minutos para ser comunicado à GNR.


É muito tempo?

Sim e para um local daqueles. Imagine que a criança tinha saído sozinha de casa, quanto mais tempo passa mais longe ela poderia estar. Mas dentro desta questão da segurança, de querer passar a mensagem, e ainda hoje os pais de Maddie o dizem, de que os filhos estavam em segurança houve uma simulação de uma situação de rapto. A questão era como é que alguém poderia ter acedido àquele apartamento onde não há sinais de arrombamento, não há impressões digitais de pessoas estranhas à casa, não há marcas de luvas, como era possível alguém ter ali entrado alguém?. O que nós conseguimos apurar, e há aqui muitas mentiras pelo meio e depoimentos que não batem certo e declarações contraditórios...

 

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Fala em simulação porque não foi rapto, é isso?

Eu explico. Como é que um possível raptor poderia entrar no apartamento? Uma forma seria com uma chave falsa, mas depois de seguida essa pista não se confirmou, e a outra era entrar por uma porta que estivesse aberta. Aquele apartamento é um rés-do-chão que tem uma porta principal em madeira e uma portada de correr nas traseiras que dava para o jardim e mais abaixo a zona de restaurante onde todos estavam a jantar. Portanto, a existir um raptor para não deixar marcas seria este o ponto de entrada. Mas dentro daquela linha de dar a entender que as crianças estavam em segurança, inventou-se que uma janela foi encontrada aberta, mas há uma grande confusão nas declarações porque uns dizem que estavam aberta, outros não sabiam.. mas há uma coisa que a mãe da criança afirma em declarações e que é que no tempo em que esteve no apartamento aquela janela manteve-se sempre fechada, com os estores fechados. O que se pergunta é porque é que naquela noite a única impressão digital que aparece na janela é a da mãe da criança e não de um suposto raptor.


Essas foram as dúvidas com que sempre ficou?

Isto não são dúvidas. São certezas. Nós temos a certeza que por ali não passou ninguém. Se alguém vem dizer que entraram e sairam pela janela, é completamente mentira.

 

A única certeza que falta é onde afinal está a Maddie ou o que lhe aconteceu?

Isso é outra questão. A criança morreu naquele apartamento, as circunstâncias é que não sabemos. A Polícia Judiciária não acusa ninguém de homicídio...


 

Mas está convencido de que ela morreu naquele quarto?

Não temos dúvidas nenhumas de que morreu naquele apartamento porque ali é que foi detetado odor a cadáver e vestígios de sangue, material que foi remetido para o laboratório inglês. Repare, com o desenvolvimento da investigação é que ficámos a saber mais coisas. Nós não soubemos logo no primeiro dia que os irmãos de Maddie tiveram sempre a dormir profundamente e só muitos meses depois é que soubemos que a mãe de Maddie passou depois, a restante parte da noite do desaparecimento, a verificar se os filhos, os gémeos, respiravam. Portanto, havia ali um risco, um perigo e nós perguntamos qual? Porque é que teve tanta preocupação naquela noite em acompanhar o dormir dos outros filhos, que risco ali existia, e depois porque é que nunca contou isso à Polícia Judiciária?

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Tem uma explicação para isso?

Existem explicações e a principal é um medicamento que se chama Calpol. Apurámos que o remédio existia naquele apartamento como um medicamento que a família trouxe e também apurámos que este medicamento é muito utilizado no Reino Unido, porque terá alguns efeitos sedativos, para pôr os filhos a dormir profundamente. Isso poderá ter acontecido. Aliás, o avô das crianças chegou a dizer num canal inglês que era administrado esse medicamento aos miúdos...

A mãe da criança foi questionada e ela disse que se tratava de um paracetamol. Mas o facto é que os gémeos dormiam profundamente quando a GNR e toda a gente entrou no apartamento e sairam de lá a dormir profundamente e, mais uma vez, continuaram a dormir profundamente o resto da noite.


 

Mas a polícia não fez análises?

Repare, nós quando chegamos a uma ocorrência não sabemos tudo. A investigação começa do zero. Mais tarde tentou-se, nomeadamente quando nos chegaram as declarações do avô. Aí é que o alerta foi total e é nessa altura, mais de três meses depois do desaparecimento, que a mãe de Maddie veio dizer a um oficial de ligação de que tinha estado a ver um filme em que o raptor tinha sedado a criança que levou e então gostava que fizessem o teste aos gémeos. A questão é que ela é médica e sabe tão bem como nós que depois do tempo decorrido não havia qualquer hipótese de resultado de uma análise.
 

Treze anos depois, faz sentido continuar a investigar?

Treze anos depois a investigação está no mesmo ponto e faz sentido pegar na investigação e terminá-la com aquilo que falta fazer.

 

Mas porque não foi feito?

Porque não há interesse. Há dois momentos que são importantes nesta narrativa do desaparecimento. Um é um primeiro testemunho de uma senhora (Jane Tanner) que é amiga do casal, que estava de férias com eles e também deixava os filhos sozinhos. Naquela noite de 3 de maio, essa senhora teve que, com o marido, se revezar para ir ver a filha porque ela estaria mal disposta. E essa senhora faz um testemunho e é a primeira a dizer que viu um homem com uma criança ao colo a sair daquela zona e que o vê em determinadas circunstâncias e que ia vestido de determinada forma e que desce a rua em direção à casa daquele que viemos a saber depois que era Robert Murat (chegou a ser arguido no processo). Aquilo que nós concluímos é que a senhora mentiu. Ela no primeiro dia diz isto à polícia e volta a dizer depois quando foi ouvida formalmente. Nós avançámos na investigação e andámos então à procura do tal homem baseados neste depoimento. Chegámos ao Murat, fizemos toda a investigação e chegámos à conclusão que não era a pessoa e no meio desta investigação a Murat é que surge um depoimento que é incontornável. Não pode nenhuma investigação avançar sem ter em conta este depoimento. Por volta das 22h00 de 3 de maio, do outro lado da aldeia da Luz, numa zona que se pode aceder aos rochedos perto da água há uma família irlandesa que quando está de regresso ao hotel cruza-se com um homem que leva uma criança ao colo que lhes parecia profundamente adormecida, com um pijama claro, de pés descalços. O casal disse que homem usaria umas calças claras, com cerca de 1,70 metro de altura e com cerca de 30/35 anos e que não era Murat. Mais tarde, na investigação, estas pessoas vêm a Portugal, localizam onde viram o homem, são feitas reportagens fotográficas, são ouvidas declarações e dizem que não podiam identificar o homem porque ele levava a cara desviada e a criança, que era loira, tapava o rosto. Disseram que essa pessoa ia com andar apressado e não parecia turista. Passado uns tempos, quando o casal Maccann, regressa ao Reino Unido e a subir para o avião, esse casal está a ver a reportagem e diz “foi esta a pessoa que eu vi naquela noite”, não por a reconhecer, e neste caso era a figura do pai, mas por causa da forma como ele caminhava. Portanto, não é um reconhecimento que tenha valor em termos jurídicos, mas eles dizem que, poderia ser, 90 por cento, o pai de Maddie.


Então e passados 13 anos não se deveria fazer uma reconstituição, uma vez que na altura, como disse, a pressão mediática impediu a diligência?

Deve-se fazer, mas ainda não se conseguiu provar que existiu um rapto e andou-se sempre à procura de um pedófilo. Primeiro prove-se que existiu um rapto e em que circunstâncias. A chamada teoria do rapto é a mais frágil no meio disto tudo. Há uma questão de senso comum: estamos de férias, temos filhos desta idade e de repente há um filho que desaparece, mas porque raio eu vou dizer que o meu filho que desapareceu foi raptado por um pedófilo? Rapto é rapto, agora porque tenho de especificar que é um pedófilo? Porque é que um pai ou uma mãe insiste que é um rapto e insiste em falar numa rede de pedofilia desde o primeiro dia...

 

Por isso, na sua opinião, é que aparece agora o pedófilo alemão que está a ser investigado?

Exatamente, como o casal diz que é um pedófilo desde a primeira hora, tem de aparecer um pedófilo.

 

Mas ele estava realmente na Praia da Luz na altura dos factos?

Ele e mais uma centena. Não era caso único. Por isso é que eu considero que este suspeito é um bode expiatório e isto tem acontecido ao longo dos anos. Volto a dizer o mesmo, primeiro prove-se que houve ali um rapto e só se consegue provar isso se aquele casal e os amigos falarem a verdade. Procura-se uma coisa sem provar outra.

 

É por isso que diz que este suspeito é quase perfeito?

Tem um perfil de pedófilo. Esta divulgação estava já para avançar no ano passado...


Mas têm sido divulgados factos agora, como a carrinha, a imagem dele...

A polícia alemã deveria divulgar as duas formas da carrinha, como ela seria sem as pinturas e como ela foi agora transportada para a Alemanha com figuras. Assim é que estaríamos a ser sérios.

A outra questão prende-se com a imagem do próprio suspeito. Há uma imagem que está a ser divulgada, mas não se pode mostrar a imagem de alguém passado uns anos. Mostrar imagens com 43 anos não é a mesma coisa que mostrar com 30 anos. Em 2006, que é o ano mais próximo do acontecimento, ele (Christian Brückner) tinha outro imagem, com um cabelo meio curto. Em 2007, há pessoas que afirmam que ele parecia um hippie com cabelo pelas costas. E aqui voltamos à questão do cabelo e dos depoimentos a seguir ao desaparecimento em que a amiga do casal diz que viu um homem com cabelo curto. O que se pergunta é porque se permite imagens e retratos robots que vão de encontro a determinado perfil de alguém que é parecido com o que foi dito nesse depoimento.

O que sabe hoje deste cidadão alemão era o que se sabia em 2007?

Não. Se nós soubéssemos o que hoje se sabe, teríamos de averiguar.


Na altura este nome apareceu?

Contaram-me que terá aparecido numa listagem com mais de uma centena de nomes.

 

Hoje, com tudo isto que se sabe, o que deveria ser feito?

Voltar ao ponto da investigação onde ela estava em setembro de 2007.

 

Mas 13 anos depois, os vestígios, os relatos e as pistas ainda são credíveis e válidas?

Uma coisa é o que está no processo e há ali testemunhos, resultados de exames, recolha de vestígios. Outra são os depoimentos 13 anos depois, quando se lança uma caça às bruxas e é o que se vem dizer depois.
 

Existem factos que podem levar a este homem ou não?

Neste momento, não.

 

O procurador alemão mantém contactos com a polícia portuguesa, mas lamenta que a relação seja intensa. É assim?

Parece que os alemães estão interessados em reexaminar todos os vestígios, mas querem-nos com eles e isto é um perigo. A PJ não pode deixar sair qualquer tipo de material, nomeadamente a carrinha que deveria ficar no processo cá em Portugal.
 

Houve falhas na investigação aqui em Portugal?

Não, mas quando não nos dão respostas... nós, por exemplo, pedimos o histórico clínico da Maddie, mas nunca nos foi dado e foram as autoridades inglesas que não o deram. Quando os pais dizem e continuam a dizer nós queremos saber o que aconteceu, nós dizemos e nós queremos saber como é que ela era.
 

Qual o interesse agora da polícia alemã?

Primeiro porque a inglesa está um pouco descredibilizada porque todos os anos aparece com um suspeito e depois para ser aqui como uma espécie de autoridade de desempate e para credibilizar esta ideia do pedófilo. Há muita coisa para fazer para demonstrar se há ou não responsabilidade daquele casal e dos amigos no desaparecimento e se há ou não há rapto. Tentar perceber o que aconteceu é a linha mais forte. O processo é português e a investigação é da Polícia Judiciária.

 

Acredita que a PJ vai pegar de novo na investigação no ponto em que ficou?

Sim, acredito. A PJ trabalha melhor. É importante pegar na investigação onde ficou, fazer a reconstituição.

 

Esta investigação alguma vez vai ser concluída?

Eu acredito que sim. A PJ realizou um excelente trabalho, deu o melhor de si e sei que tem capacidade para sozinha resolver o caso.

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